Uma investigação da Polícia Federal (PF) aponta que o advogado Willer Tomaz, próximo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), recebia antecipadamente minutas de decisões do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e pareceres do Ministério Público Federal (MPF).
As informações, reveladas pelo UOL neste sábado (17), indicam que o acesso prévio aos documentos poderia permitir ao escritório ajustar estratégias jurídicas antes da publicação oficial dos atos.
Segundo a investigação, um dos interlocutores do advogado seria Antônio Carlos Simões Soares, procurador aposentado que ocupou o cargo de subprocurador-geral da República e também mantém relações com Flávio Bolsonaro. Ele é suspeito de vazar informações sigilosas e de combinar com Tomaz o conteúdo de manifestações do MPF.
O STJ informou que abriu uma investigação para apurar o caso. A PF identificou sete situações nas quais suspeita que informações tenham sido antecipadas ou que pareceres tenham sido elaborados de acordo com os interesses do advogado.
Tomaz nega ter obtido acesso irregular a decisões ou pareceres sigilosos, assim como ter interferido no conteúdo das manifestações do Ministério Público. Em nota, afirmou que sua atuação profissional respeitou a legislação e as prerrogativas da advocacia e classificou as acusações como infundadas.
Casos envolvem disputas judiciais milionárias
Um dos episódios citados pela PF envolve uma disputa sobre um terreno em Brasília onde funcionava a antiga Academia de Tênis. O escritório de Tomaz representava duas construtoras no processo, que envolve uma cobrança de R$ 176,4 milhões por uma família de herdeiros.
De acordo com a reportagem, o escritório recebeu, em 16 de setembro, uma minuta de acórdão do STJ que só seria assinada dois dias depois. Antes da decisão oficial, as construtoras desistiram de um recurso que já estava previsto na pauta de julgamento.
Outro caso envolve o senador Weverton Rocha (PDT-MA), cliente de Tomaz em uma ação por danos morais contra a Editora Abril, responsável pela revista Veja. Na véspera da sessão do STJ, em setembro de 2025, as partes protocolaram pedidos de desistência dos recursos. Segundo a PF, o escritório já teria conhecimento antecipado do resultado esperado do julgamento.
A investigação também menciona processos relacionados à disputa entre a J&F e a Paper pela Eldorado Celulose, ao espólio de Cid Ferreira, fundador do Banco Santos, e à empresa Difusora Comunicação, ligada ao advogado.
O caso ocorre em meio a outras suspeitas envolvendo a relação entre Tomaz e Flávio Bolsonaro: os dois figuravam como beneficiários de uma mesma conta bancária no Santander, e o advogado teria custeado viagens do senador à Europa.
Tomaz foi alvo de busca e apreensão em agosto, em uma investigação sobre suspeita de lavagem de dinheiro relacionado a desvios de aposentadorias no caso que envolve Weverton Rocha.
Já o material sobre Simões Soares foi encaminhado ao Ministério Público Federal para avaliação do foro competente para a investigação. Como ele ocupou o cargo de subprocurador-geral, a apuração poderia caber ao STJ; após sua aposentadoria, em março de 2026, a definição da instância competente passou a ser objeto de análise.
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