
por Sebastião Nunes
O grego Heródoto, conhecido como “o Pai da História”, foi o primeiro historiador a escrever de forma clara e objetiva, ainda que misturando lendas, boatos e anedotas a seus relatos. Sua maior importância está no fato de que, até então, ninguém compilara a crônica dos acontecimentos com tantos detalhes e nuances. Vivendo presumivelmente entre 485 e 420 a.C. (há quase 2.500 anos, portanto), teve ainda o mérito de ser o primeiro a produzir textos “para a mente”, ou seja, para a leitura silenciosa. Numa cultura predominantemente oral, como a grega daqueles tempos, o comum era se escrever para a leitura em voz alta, perante um auditório qualquer. Viajante incansável, Heródoto visitou muitos países, dos quais recolheu costumes e leis. Entre as curiosidades que nos deixou está a maneira como eram tratados os mortos pelos embalsamadores egípcios.
Tentei reproduzir, da maneira mais exata possível, o estilo e o sabor de sua exposição, acrescentando notas minhas, para adequar tais práticas aos nossos dias.
MORTOS E MÚMIAS
“Os costumes dos egípcios relativos ao luto e ritos fúnebres são os seguintes: quando a família perde um homem importante, todas as mulheres da casa cobrem a cabeça e às vezes o próprio rosto de lodo. Em seguida, deixando o cadáver em casa, correm pela cidade, flagelando-se, com os seios à mostra e com as roupas presas na cintura com uma faixa. Todas as mulheres ligadas ao morto por parentesco se juntam a elas e, além delas, os homens, que também se flagelam e fazem o mesmo que as mulheres com as roupas. Isso feito, o cadáver é levado para ser embalsamado.”
“Há certas pessoas encarregadas especialmente desse trabalho, e cuja profissão é essa. Quando um cadáver lhes é trazido, esses embalsamadores mostram a quem o traz modelos de cadáveres em madeira, pintados com o máximo realismo. Depois de escolhido o modelo e acertado o preço, os portadores se retiram, deixando os artesãos onde estavam para fazer o seu trabalho.”
MÚMIAS DE RICO
“Se a maneira escolhida foi a mais perfeita, eles primeiro extraem parte do cérebro através das fossas nasais com um gancho de ferro, e o resto mediante a injeção de certas drogas no crânio. Em seguida, fazem uma incisão ao longo do flanco com uma faca afiada de pedra etíope, retiram todas as vísceras e limpam o ventre, lavando-o com vinho de palmeira e untando-o repetidamente com plantas aromáticas esmagadas. Logo após, enchendo o ventre com mirra pura moída, cássia e outras substâncias aromáticas, à exceção de incenso, eles o cosem, e guardam o corpo durante 70 dias coberto de salitre. Esse período não pode ser excedido no embalsamamento.”
“Passados os 70 dias, lavam o corpo e o enfaixam em tiras de fino tecido de linho embebido em uma goma muito usada pelos egípcios em vez de cola. Terminada essa operação, o cadáver é devolvido aos parentes. Estes fazem um esquife de madeira, talhado com a forma humana, e nele põem o cadáver. O esquife é fechado e guardado cuidadosamente numa câmara funerária, encostado à parede na posição vertical. Assim são preparados os mortos quando é escolhido o processo mais dispendioso.”
Nota: No Brasil, essa técnica pode ser aplicada aos zumbis mais importantes (deputados, senadores e ministros do STF), a maioria dos quais está moralmente morta e não sabe. Acredito que, para simplificar o trabalho, bastaria extrair o que lhes resta de cérebro com um gancho de ferro. O restante do corpo poderá então ser embalsamado sem maiores preparações.
MÚMIAS DE CLASSE MÉDIA
“Para quem deseja o processo intermediário ou aquele menos dispendioso, o cadáver é preparado desta outra maneira. Os embalsamadores enchem seringas com óleo de cedro e o injetam no morto, sem fazer cortes nem remover as vísceras, mas apenas introduzindo esse líquido através do ânus e impedindo-lhe o retorno. Então eles embalsamam o corpo durante o período de tempo estipulado. No último dia desse período eles deixam sair do ventre o líquido injetado. Esse líquido é tão forte que traz consigo os intestinos e as demais vísceras inteiramente dissolvidos. As carnes são consumidas pelo salitre, e no fim restam somente a pele e os ossos. Então os embalsamadores devolvem o cadáver sem fazer nada mais nele.”
Nota: No Brasil, e neste caso específico, como fica claro na exposição acima, não existe nada para retirar do crânio, já que a classe média não possui cérebro. O restante deve ser absolutamente igual.
MÚMIAS DE POBRE
“A terceira maneira de embalsamar, que é a preparação dos mortos pobres, é a seguinte: esvaziado o ventre com um purgante, o cadáver é sem demora embalsamado durante 70 dias e depois entregue para ser levado embora.”
Nota: No Brasil, não dá para embalsamar um pobre durante 70 dias, vivo ou morto. O melhor é enterrar o coitado sem qualquer procedimento, antes que a polícia apareça e produza outros defuntos da forma usual: atirando antes de perguntar.
MÚMIAS DE MULHER
“As mulheres de homens importantes não são entregues imediatamente após a morte para ser embalsamadas, acontecendo o mesmo com as mulheres de grande beleza e reputação. Somente depois de passados três ou quatro dias elas são entregues aos embalsamadores. Isso é feito para evitar que eles abusem sexualmente delas.”
Nota: No Brasil, tal procedimento é absolutamente desnecessário, pois as mulheres de homens importantes ou de grande beleza e reputação adoram ser abusadas sexualmente, sendo comuníssimo que postem sélfies desses gloriosos acontecimentos no Facebook e nas páginas de jornais tipo Globo, incluindo descrições detalhadas de como, onde e quando.
Ilustração: Colagem sobre máscara mortuária do faraó-menino Tutankamon
Eduardo Outro
21 de agosto de 2016 1:10 pmGrande Sebastião, como tenho
Grande Sebastião, como tenho conhecimentos sobre embalsamamento, vou prestar-lhe assessoria e valiosas informações àqueles que pretendem se iniciar no ramo: Desistam! Poderia haver, sim, campo proprício para embalsamar homens e mulheres pobres, que são a quase totalidade e que deve aumentar ainda mais daqui pra frente. Mas você já demonstrou que isso não dá e explicou porque. E embalsamar os que restarem? Como, se múmia, na grande maioria, já o são?
Wilson Coêlho
24 de agosto de 2016 10:30 amMúmias
Belíssimo texto e importante reflexão, meu admirado poeta.