Canto do Rio em Sol, por Carlos Drummond de Andrade e Chico Buarque

Foto: Flavio Veloso

Enviado por Gilberto Cruvinel

 

Canto do Rio em Sol.
Carlos Drummond de Andrade.

 

https://www.youtube.com/watch?v=sIwY_ftJU7E

Chico Buarque e Carlos Drummond de Andrade dizem o poema

 

I

.
Guanabara, seio, braço
de a-mar:
em teu nome, a sigla rara
dos tempos do verbo mar.
.
Os que te amamos sentimos
e não sabemos cantar:
o que é sombra do Silvestre
sol da Urca
dengue flamingo
mitos da Tijuca de Alencar.
.
Guanabara, saia clara
estufando em redondel:
que é carne, que é terra e alísio
em teu crisol?

.
Nunca vi terra tão gente
nem gente tão florival.
Teu frêmito é teu encanto
(sem decreto) capital.
.
Agora, que te fitamos
nos olhos, 
e que neles pressentimos 
o ser telúrico, essencial, 
agora sim és Estado
de graça, condado real.
.
II
.
Rio, nome sussurrante,
Rio que te vais passando
a mar de estórias e sonhos
e em teu constante janeiro
corres pela nossa vida 
como sangue, como seiva
— não são imagens exangues
como perfume na fronha
… como pupila do gato
risca o topázio no escuro.
Rio-tato-
-vista-gosto-risco-vertigem
Rio-antúrio
.
Rio das quatro lagoas
de quatro túneis irmãos
Rio em ã
Maracanã
Sacopenapã
Rio em ol em amba em umba sobretudo em inho
de amorzinho
benzinho
dá-se um jeitinho
do saxofone de Pixinguinha chamando pela Velha Guarda
como quem do alto do Morro Cara de Cão
chama pelos tamoios errantes em suas pirogas
Rio, milhão de coisas
luminosardentissuavimariposas:
como te explicar à luz da Constituição?
.
III
.
Irajá Pavuna Ilha do Gato
— emudeceram as aldeias gentílicas?
A Festa das Canoas dispersou-se?
Junto ao Paço já não se ouve o sino de São José
pastoreando os fiéis da várzea?
Soou o toque do Aragão sobre a cidade?
.
Não não não não não não não
.
Rio, mágico, dás uma cabriola, 
teu desenho no ar é nítido como os primeiros grafismos,
teu acordar, um feixe de zínias na correnteza esperta do tempo
o tempo que humaniza e jovializa as cidades.
Rio novo a cada menino que nasce
a cada casamento
a cada namorado
que te descobre enquanto rio-rindo.
assistes ao pobre fluir dos homens e de suas glórias pré-fabricadas.
.
…………………………………………………………………
Carlos Drummond de Andrade, do livro “Lição das Coisas”

 

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1 comentário

  1. Como te explicar à luz da constituição?

    Esse lindo poema de Carlos Drummond fica ainda mais tocante e nostalgico na voz placida do poeta. Rio de um tempo de contemplação. 

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