4 de junho de 2026

Como foram assassinados os moleques João Huck e Luciano Dória Jr., por Sebastião Nunes

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Foto: Tania Rego/Agência Brasil

Eram gêmeos univitelinos: cara de um, focinho de outro. Nasceram num dia de sol quente na favela do Quebra-Pau – qualquer um sabe onde fica, não sabe?

Na hora de escolher os nomes, o maior fuzuê: a mãe, fanática pelo maridão da Angélica, exigia que um se chamasse Luciano Huck. Já o pai, vidrado no bon-vivant das noitadas paulistanas, não abria mão de João Dória, inclusive com o Jr.

Por que não fizeram assim, um nome chique e midiático para cada um? Não sei: mistérios insondáveis de pobres turrões.

Brigaram de soco, pontapé, beliscão e mordida. Quando a ambulância chegou, chamada pelos vizinhos, gemiam ensanguentados no chão da cafua. Os filhotes? Quase se acabando de tanto esgoelar num colchonete fedorento.

NUVENS PASSAGEIRAS

Para deslindar o nó da desavença, alvitrou uma liderança comunitária que melhor seria misturar os nomes. E assim foi feito: João Huck um, Luciano Dória Jr. o outro.

Cresceram numa boa, comendo pão dormido com café ralo e angu com feijão bichado, que a grana paterna (somada à materna) não dava para mais.

Escola? A da vida. Largados nas ruas de terra engordavam lombrigas.

Apesar dos pesares foram crescendo, crioulinhos miúdos, nada exigentes.

Os pais? Brigavam que nem cachorro e gato, desculpe, doutor, o clichê, mas era por aí mesmo. Viviam lanhados de unha, arranhados de dente e roxos de pescoções ou chutes. Mas não se largavam: ao contrário da média, adoravam os filhotes e, aqui entre nós, se adoravam também, sadomasoquistas enrabichados.

Aos 10, João e Luciano vendiam bala e pano de prato nos cruzamentos.

Aos 12, faziam malabarismo com bolas de borracha nos mesmos cruzamentos e faturavam bem. Cara de um focinho do outro, os motoristas achavam graça.

Poupança? Zero: os pais afanavam o ganho e torravam tudo na cachaça.

NUVENS ESCURAS

Assim cresceram, numa boa, João Huck e Luciano Dória Jr.

Em casa, a mãe contabilizava no fim do dia:

– Faturou quanto hoje, João Huck?

Para ela não tinha diminutivo nem apelido. O nome do ídolo exigia respeito.

O pai não fazia por menos:

– Passa a grana, Luciano Dória Jr.

Obedientes, os moleques entregavam o ouro. Mas só até fazer 13 e comemorar na rua, no meio da turma sem eira nem beira que nem eles.

Fugiram juntos numa noite sem lua.

Para onde? Nem Deus sabia.

Chorosos e sem amparo, moveram os pais céus e terras a troco de nada.

NUVENS PRETAS

Na favela do Pau-Torto, o retorno às famosas proezas malabarísticas.

Já tinham 15 anos, analfabetos de pai e mãe, mas faturando uma grana grossa nos cruzamentos. Imagine só: crioulinhos univitelinos não é todo dia que nasce um par.

Até que deu inveja nos pivetes de olho gordo nas minas que paravam o olho na duplinha atrevidíssima.

Pois aquela que namorava Luciano Dória Jr. tirava suas lasquinhas no João Huck, vá lá alguma adivinhar diferenças que só a mãe enxergava.

Foi quando os pivetes ciumentos da Pau-Torto entregaram a dupla para a polícia que desandava, salmodiava e faxinava (ou chacinava?) na favela.

Apanhados com gorda muamba plantada nas bolas de borracha do malabarismo dançaram miudinho.

Morreram no mesmo dia e hora com balas espetadas nas costas magricelas.

“Revidamos ataque de marginais no tiro”, declarou a polícia em legítima defesa à imprensa surda e muda e aos superiores mudos e surdos.

Ficou por isso mesmo. Sem inquérito nem nada. Costas quentes.

Dos defuntinhos univitelinos ninguém quis mais saber. Nem as minas.

Era uma vez dois moleques espertos de favela: João Huck e Luciano Dória Jr.

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Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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2 Comentários
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  1. maria rodrigues

    14 de maio de 2017 1:19 pm

    Imagine se filhos de João

    Imagine se filhos de João Dória Júnior, prefeito, e de Huck, apresentador de TV, ainda que procendendo muito mal, receberiam tal tratamento. É disso que se cuida. A parcialidade de tratamento entre ricos e pobres; brancos e negros endinehriados, porque também não se dá cabo de um filho de Pelé com alegações fajutas de legítima defesa. 

     

  2. sandro villar

    14 de maio de 2017 3:41 pm

    gêmeos

    Excelente texto de Sebastião Nunes, que escreve bem pra cachorro. Com sua narrativa coloquial, Nunes conversa com o leitor e escrever é conversar com o leitor, como bem ensinou Stanislaw Ponte Preta, o maior cronista do Brasil.

     Nunca tinha visto, quer dizer, lido nada igual. A crônica sobre os gêmeos é um misto de comédia e tragédia. Também notei forte teor de humanisno e cumprimento Nunes por isso. 

    Prazer em conhecê-lo, Nunes!

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