5 de junho de 2026

De como, em 1531, o miúdo Luís Vaz de Camões morreu no terremoto de Lisboa

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Por Sebastião Nunes

Enfatiotado, o garoto de sete anos caminhava com seus pais rumo à Igreja de São João. De olhos arregalados, admirava o muito que via: homens e mulheres endomingados, crianças ornadas com fitas coloridas e calçadas de borzeguins lustrosos, cavalos arreados de ouro e veludo, senhoras cortesãs escanchadas em selins de prata lavrada, coches tentando abrir espaço através da compacta multidão. Alarido e confusão.

            O pequeno Luís admirava, sobretudo, o longo cortejo de padres e noviços entoando louvores e se dirigindo para a igreja. Turíbulos aspergiam incenso que se misturava a mil perfumes. Era o dia de Todos-os-Santos e a população lisboeta enchia as ruas agaloadas.

            – Anda depressa, Luís – disse dona Ana de Sá e Macedo. – Nessa lerdeza nunca chegaremos antes do final da missa.

            – Larga o miúdo, Ana – ponderou Simão Vaz de Camões, metido numa casaca nova de pano azul-escuro. – Deixa-o à vontade. As botinas novas devem estar a incomodar.

            – A incomodar não estão, pai. Posso andar mais depressa.

            Quando acelerou o passo, o menino ouviu o denso trovão, tão grosso como nunca tinha ouvido. Assustado, olhou em volta, buscando compreender. Foi quando o chão passou a tremer violentamente, e em volta gritavam: “Ai, meu Jesus!”, “Valha-me Nossa Senhora!”.

QUE DEUS NOS ACUDA

            Atarantados, homens e mulheres escorregavam na rua enlameada, erguendo os olhos para o céu. A chuva, que havia cessado desde manhãzinha, voltou forte, empurrada por inesperada ventania. Crateras se abriram de repente. Aterrorizado, o pequeno Luís viu quando um casal de miúdos foi engolido, os bracinhos se agitando impotentes.

            – Meus filhinhos! – berrou desesperada uma mulher. – Salvem meus filhinhos! – E tentou se jogar na cratera funda e escura, sendo impedida pelo marido alucinado.

            Simão agarrou pelas mãos Luís e Ana, disparando para o porto.

            – Vamos sair daqui ligeiro! Os edifícios estão a ruir! – gritou o mais alto que pôde. – Se ficamos estaremos perdidos.

            Prédios desabavam com grandes estrondos. Paredes balançavam, inclinavam-se e cediam, os tetos caindo a prumo, misturando corpos numa sopa de lama e sangue.

            Lentamente, o incêndio começou – e as chamas cresciam, alvoroçadas.

 

MAR E TERRA E ESPANTO

            Quando chegaram ao porto, os pais de Luís ficaram atônicos. Cadê o rio, cadê o mar? Tudo o que se via à frente eram restos de navios destroçados e grandes peixes se debatendo na areia molhada e escura. O Tejo havia desaparecido, restando o leito vazio e morto.

            – O mar secou! – gritou Simão espantado. – Vamos galgar os morros!

            Ofegantes, contornaram as ruas centrais na direção dos altos fora da cidade.

            O tremor de terra continuava. O incêndio se alastrava. As gentes em pânico tentavam fugir dos buracos que se abriam como bocas negras e do fogo que crepitava.

            Na entrada da Igreja de São João o vigário estertorava, de cruz erguida:

            – Oremos, meus irmãos! Ajoelhemos e rezemos! Tenhamos fé em Deus que essa fúria há de passar. Oremos com fé e esperança!

            Foi quando a parede fronteira desabou, esmagando o vigário. A ponta da cruz de ferro surgiu em meio aos destroços, apontando para o céu. Aturdida, a multidão recuou, benzendo-se, soluçando e pedindo perdão pelos infinitos pecados.

 

RELATA QUEM VIVEU

            Escreveu Joaquim José Moreira de Mendonça, em seu livro “História universal dos terremotos”, editado em 1758:

            “Havia muita gente buscado as margens do Tejo, por se livrarem dos edifícios, cheios de horror da vista das suas ruínas. Eis que de repente entra o mar pela barra com uma furiosa inundação de águas, que não fizeram igual estrago em Lisboa que em outras partes, pela distância que há de mais de duas léguas desta Cidade à foz do rio. Contudo, passando os seus antigos limites se lançou por cima de muitos edifícios e alagou o bairro de S. Paulo. Cresceu em todos os que haviam procurado as praias o espanto das águas, e o novo perigo se difundiu por toda a Cidade, e seus subúrbios, com uma voz vaga, que dizia que vinha o mar cobrindo tudo.” Era o tsunami que irrompia, engolfando pedra, tijolos e carne viva.

 

NÃO DEU TEMPO

            Mal começaram a correr, de mãos dadas, o tsunami os alcançou. A gigantesca onda azul-esverdeada de estonteante espuma branca rugia e resfolegava como monstruosa fera. As mãos se soltaram e, dispersos, Simão, Ana e o pequeno Luís se viram lançados para o alto e para a frente pela força poderosa. Às cambalhotas perderam o tino.

            Quando tudo serenou, dois dias depois, os três cadáveres forem recolhidos pelos parentes contristados, que os sabiam na igreja de São João para as festividades de Todos-os-Santos. Com eles, aproximadamente 30.000 lisboetas perderam a vida, tragados pelas águas em fúria ou engolidos pelas crateras repentinas. Ou depois, pelas febres malignas.

            Passada uma semana, na impossibilidade de enterros cristãos, pilhas de defuntos foram lançados em covas rasas e cobertos de cal viva. A fedentina era insuportável. Quem possuía cabedal, tal a família real e a maior parte da nobreza, fugiu da cidade amortalhada.

 

O QUE NÃO FOI, SERÁ?

            No seu livro, escreveu Joaquim José Moreira de Mendonça:

            “Aos sete anos, era o pequeno Luís Vaz de Camões a esperança mais alvissareira dos pais e da pátria. Seu preceptor, o padre Manuel Portal, que o acompanhava nos estudos, e que também relatou a funesta ocorrência, reputava-lhe a inteligência como a mais viva, ágil e brilhante de quantas assistira nos estudos. Exímio no latim, aplicado em grego, já compunha versos em vernáculo, na sua tenra idade, que nada ficavam a dever aos mais ilustres poetas da língua. O futuro lhe acenava risonho e franco, quando a tragédia o deitou por terra. Foi, entre os 30.000 mortos no terremoto, a perda mais lamentada, e a mais lastimável.”

 

**********

 

MENDONÇA, Joaquim José Moreira de. História Universal dos terremotos, que tem havido no mundo, de que há notícia, desde a sua criação até o século presente. Lisboa: Impresso na oficina de Antonio Vicente da Silva, ano de MDCCLVIII, com todas as licenças necessárias.

Sebastiao Nunes

Escritor, editor, artista gráfico e poeta brasileiro.

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5 Comentários
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  1. nadja

    20 de dezembro de 2015 10:22 pm

    Obrigada, ótima leitura 

    Obrigada, ótima leitura 

  2. Carlos Perim

    20 de dezembro de 2015 10:29 pm

    Terremoto de LIsboa

    Mas o grande terremoto de Lisboa foi em 1755? Não foi?

    1. Zé das Couves

      21 de dezembro de 2015 4:44 pm

      Sim, o de 1755 foi mais

      Sim, o de 1755 foi mais forte, mas em 1531 também houve (eu também não sabia):

       

      https://pt.wikipedia.org/wiki/Sismo_de_Lisboa_de_1531

  3. Otavio Barros

    21 de dezembro de 2015 12:11 am

    Finalmente o Nassif quebra a rotina com este texto. Parabéns.

    Parabéns, Nassif, pela transcrição do texto. Nota dez.

  4. altamiro souza

    21 de dezembro de 2015 1:26 am

    a história que mais me

    a história que mais me impressiona é a que

    narra a salvação dos manuscritos dos lusíadas.

    camões nada e, com uma mão levantada,  carrega os manuscrios….

    li em algum lugar que a mulher que  amava estava por perto pedindo socorro,.,..

    mas deve ser maldade do narrador….

     

     

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