“Diário de Quarentena”: relatos, reflexões e minicontos de Frei Betto

Da pandemia e do número crescente de mortos no Brasil a cada dia, às falas oficiais do governo Bolsonaro, o autor registra acontecimentos importantes do período de confinamento

“Diário de Quarentena”, de Frei Betto, é lançado

Da editora Rocco

Frei Betto esteve preso pela ditadura militar durante quatro anos, quando manteve intensa correspondência que resultou em seu primeiro livro “Cartas na prisão”, publicado há 49 anos. A pandemia do novo Coronavírus o colocou novamente em situação de isolamento e reclusão e, durante os três primeiros meses de quarentena, Frei Betto escreveu um diário com relatos cotidianos, reflexões espirituais, crônicas e minicontos que são publicados agora em outubro pela Editora Rocco. Ficção e não-ficção se misturam para construir um panorama do que foi – e está sendo – a epidemia que fez o mundo parar.

Diário de quarentena – 90 dias em fragmentos evocativos já surge predestinado a se transformar em uma obra de referência duradoura, como o “Diário da peste de Londres”, de Daniel Defoe, publicado em 1722 e ainda em catálogo nos dias de hoje. Assim como Defoe, Frei Betto não se prende apenas à tragédia que já causou mais vítimas no Brasil do que a epidemia de peste bubônica na Inglaterra. Mesclando vivências e memórias pessoais ao drama coletivo, o livro traz uma rica reflexão acerca da condição humana e do triste paradoxo de que “nada é mais prejudicial à vida humana e à preservação do nosso planeta do que a própria humanidade”.

“Como será o “dia seguinte” dessa pandemia? O que mudará em nossos países e em nossas vidas?” Ainda é cedo para previsões. Alguns sinais, porém, já indicam que, ao contrário do que diz a canção, “não viveremos como os nossos pais”, escreveu Frei Betto no 56º dia de confinamento. Da pandemia e do número crescente de mortos no Brasil a cada dia, às falas oficiais do governo Bolsonaro, o autor registra acontecimentos importantes do período: o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos e a mobilização antirracista; a flexibilização do isolamento e o cenário pandêmico mundial; os funerais sem velório ou presença de familiares; as dificuldades de acesso ao auxílio emergencial; as demissões de ministros, etc.

Mais do que a Segunda Grande Guerra, durante a qual diversos países não foram afetados pelo conflito, seja pela distância dos campos de batalha, seja por optarem pela neutralidade, a pandemia do Coronavírus foi um dos raros eventos a afetar toda a vida social e econômica do planeta. Com a epidemia ainda em curso, não há refúgio garantido, de modo que a humanidade se vê obrigada a repensar suas prioridades, ao passo que os seres humanos, muitos dos quais perderam seus empregos ou familiares, estão sendo obrigados a se “reinventar” para enfrentar o que se convencionou chamar de “novo normal”.

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Frei Betto se firmou, nas últimas quatro décadas, como um dos principais pensadores do país, respeitado mesmo por aqueles que não compartilham suas convicções políticas ou religiosas. Sua escrita testemunhal o aproxima do leitor, e essa característica faz de Diário de quarentena uma obra capaz de suscitar reflexão crítica e esperança.

 

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