4 de junho de 2026

Eu sei, mas não devia, por Marina Colasanti

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Enviado por Anarquista Sério

Eu sei, mas não devia

Por Marina Colasanti

Do Releituras

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. 

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(1972)

Marina Colasanti nasceu em Asmara, Etiópia, morou 11 anos na Itália e desde então vive no Brasil. Publicou vários livros de contos, crônicas, poemas e histórias infantis. Recebeu o Prêmio Jabuti com Eu sei mas não devia e também por Rota de Colisão. Dentre outros escreveu E por falar em Amor; Contos de Amor Rasgados; Aqui entre nós, Intimidade Pública, Eu Sozinha, Zooilógico, A Morada do Ser, A nova Mulher, Mulher daqui pra Frente e O leopardo é um animal delicado. Escreve, também, para revistas femininas e constantemente é convidada para cursos e palestras em todo o Brasil. É casada com o escritor e poeta Affonso Romano de Sant’Anna.

O texto acima foi extraído do livro “Eu sei, mas não devia”, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

 

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7 Comentários
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  1. Cunha

    2 de maio de 2015 1:37 pm

    E se acostuma a ler coisas

    E se acostuma a ler coisas assim e conformar-se.

  2. Renato Lazzari

    2 de maio de 2015 1:48 pm

    Pois é, prá que?

    Para fazer a roda da Economia girar, mesmo sabendo que a cada volta que essa roda dá, umas migalhas de seu produto caem no nosso colo – junto com a promessa de uma vida sã – e enxurradas de dinheiro são despejados em outros poucos colos, nos colos dos donos da roda. Roda viva…

  3. anarquista sério

    2 de maio de 2015 7:56 pm

    Conversava com um amigo sobre

    Conversava com um amigo sobre o tema dos que mandam e os que seguem;

              Isso é comum na vida, sobretudo em casamentos–e quando os dois mandam , a separação é questão de tempo.

                   Enfim, eu parto da lógica: Muitos nasceram pra ser comandados e poucos pra generais.

                  Leia sobre qualquer guerra em qualquer século e constará isso.

                          E isso tbm se reflete nos relacionamentos.

                    Não é uma questão de machismo ou feminisno, e sim de temperamento.

                        Feliz da pessoa que sabe da sua função e não questiona.

                        Observe quantas pessioas são necessárias pra construir um prédio.A começar pelo vendedor e do corretor.

                  São tantas pessoas que ,pra poupar o leitor, o arquiteto e engenheiro( esse então só serve pra assinar o projeto na prefeitura,porque o ”mestre de obras” sabe mais que ele sem diploma algum.) são os menos importantes.

                      E sem a assinatura deles nada funciona.

     

                    E assim é a vida.

                        Vc precisa da assinatura de alguns  pra poder viver feliz com outra pessoa.

  4. dflopes

    2 de maio de 2015 7:59 pm

    e no Brasil?
    E no Brasil, nos acostumamos a pagar e não receber (telefonia que funciona, estrada asfaltada e leite não contaminado);

    Mas já estou me conformando, pois não me acostumei a dar tanto murro em ponta de faca…

  5. wendel

    2 de maio de 2015 8:27 pm

    E…..

    Eu sei mais não devia. Eu lí mas não devia pois trata-se de uma constatação da realidade de todos nós!!!

    Fazer o quê se somos e nos transformamos em robô! Feliz dos que abriram mão de serem humanos escravizados e atingiram, ainda que vivos, outros patamares de bem estar, independentes do sistema.

    Quando inseridos no sistema, assim são, talvez revoltados mais sem sazirem de seus pontos de confortos!!

    Poesia que ameniza o sofrimento das massas e dos amassadores que num mesmo universo, convivem com estas angustias em seus vários graus !!!

    Fazer  o quê, se optamos por sermos humanos ????????

  6. joao

    3 de maio de 2015 12:46 am

    In !
      

    O inconformado

    um eterno! Um critico!

    uma louca busca sem fim!

    uma ciência e humanidade que não me basta

    um estudo e aprendizagem continuo.

    uma beleza na natureza e no universo que não me cala!

    amo o bonito, a sensibilidade, a poesia, as artes e musicas

    o ser humano eh uma animal bonito.

    E quem gosta da realidade e da verdade?

    – falava Marcelo.

    Só o senhor!

      

     

  7. joao

    3 de maio de 2015 12:53 am

    A janela do hospital!

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=9b4HBRXpZvs%5D

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