Hannah Höch e a resistência dadaísta ao nazismo, por Sebastião Nunes

Hannah Höch e a resistência dadaísta ao nazismo

por Sebastião Nunes

Visitei a velha dama da colagem em janeiro de 1978, pouco antes de sua morte, na pequena casa junto ao campo de aviação de Heiligensee, ao norte de Berlim, longe de tudo e de todos.

Magra, encurvada e enrugada, ela tinha 88 anos na época. Quando ria, seu rosto lembrava o leito gretado de um rio nordestino no pico da seca. Era o retrato descarnado de uma época muito rica das artes plásticas alemãs, parte daquilo que os nazistas chamavam de “arte degenerada”.

Foi só no princípio de junho de 1978, alguns dias depois da notícia de seu falecimento, que liguei o gravador para ouvir o depoimento gravado em janeiro.

 

CERVEJA, CHÁ E FLORES

Chegar a seu refúgio não foi nada fácil. Consegui o endereço através de amigos que a conheceram e que, além de respeitarem seu confinamento, a protegiam da exposição excessiva que acontecia naqueles dias, quando finalmente, depois de décadas de anonimato, e ao contrário de tantos companheiros mortos, se tornara um ícone vivo da diversidade cultural germânica.

Quando paguei o táxi, o motorista praguejava, furioso por ir tão longe e se perder inúmeras vezes por ruas estreitas e becos sem saída.

Eu ligara antes e lá estava ela, diante do portão, vestindo um casaco grosso encimado por uma espécie de chapéu espesso e forrado, calçando botas maciças, tão pesadas que pareciam saídas de uma batalha da guerra distante mais de 30 anos.

Atravessamos o pomar e o jardim, pisando o chão enlameado, chicoteados pelos arbustos desfolhados que pingavam água das últimas chuvaradas.

Seus passos curtos e cuidadosos no chão escorregadio me conduziram ao interior de seu refúgio desde 1939, no qual vivera isolada e, graças a esse isolamento, mantivera escondida a mais preciosa coleção de objetos de arte produzida por ela mesma e por seus amigos, além de documentos e correspondência da época.

Na cozinha, na pequena mesa em que fazia suas refeições, me serviu cerveja e preparou chá verde para si própria, acompanhados por salsicha, batata assada e pão preto em pequenas porções.

 

TEMPOS DE GUERRA

Assim começou o depoimento, que me permitiu gravar:

“Hoje pergunto a mim mesma, quando me interrogo sobre aqueles dias, como pude ser tão corajosa ou tão maluca para conservar, dentro desta casa ou enterrado no quintal, tanto material comprometedor, durante todos aqueles anos terríveis”.

Sorveu um pouco de chá e continuou:

“O armário em que guardava meus desenhos e colagens, frágeis demais para serem enterrados junto com esculturas, cerâmicas e outros objetos em baús de madeira e ferro, continha material suficiente para me levar à forca, e comigo todos os dadaístas que ainda viviam na Alemanha sob o nazismo.”

Nova pausa – sua respiração era difícil –, mais um gole de chá, e prosseguiu:

“A partir de 1934, amedrontados, meus colegas, pelo menos a maior parte, começou a eliminar seus rastros e todas as recordações do que consideravam “pecados de juventude”, quero dizer, seus trabalhos artísticos. Mas eu, pessoalmente, nunca acreditei na milenária duração que o Terceiro Reich reivindicava para si. Também não me decidia a destruir as obras de meus amigos Hausmann, Schwitters e tantos outros, e de destruir com elas as recordações dos tempos em que, com entusiasmo e alegria, nossos grupos haviam trabalhado juntos”.

Mais uma pausa, mais um gole, e novo recomeço.

“Nós, os chamados ‘bolcheviques culturais’, estávamos todos na lista negra da polícia e sob estreita vigilância da Gestapo. Ninguém se encontrava com ninguém, por mais antiga que fosse a amizade e por maior que fosse a estima. O risco de morte pairava sobre cada um de nós todo o tempo. Até 1938 a maioria dos principais dadaístas já havia emigrado. Hans Richter e George Grosz foram para os Estados Unidos. Kurt Schwitters seguiu para a Noruega e Raoul Hausmann asilou-se na França. Dos membros ativos do velho grupo de dadaístas eu fui a única a ficar, com meus desenhos, colagens, esculturas e assombrações. Qualquer ruído estranho me apavorava”.

 

DEPOIS DA GUERRA

“Quando tudo terminou e a fumaça dos escombros se esvaiu, começamos a nos preparar para viver. Fiz minha primeira exposição de colagens na Galeria Rosen, aqui mesmo em Berlim, uma grande exposição. Depois, enquanto a vida retomava seu curso e as pessoas tentavam esquecer, pois esquecer é fundamental para permanecer vivo, os contatos recomeçaram. Schwitters me escreveu, de seu refúgio na Inglaterra, narrando os horrores da fuga, com a Gestapo em seu encalço. Depois, outros e outros me procuraram ou me escreveram. A vida voltava a ser digna de ser vivida. A arte renascia das cinzas do nazismo. Podíamos, pela primeira vez depois de tantos anos de pavor, respirar, caminhar, desenhar, expor e ganhar a vida com nossa arte até então tida como ‘degenerada’, amaldiçoada pela estupidez nazista”.

Isso foi tudo. A velha dama da colagem dadaísta está morta há 40 anos. Sua obra, prodigiosa em número e qualidade, encontra-se espalhada pelos museus do mundo. O nazismo é apenas uma sombra sangrenta, perniciosa e assustadora que, de tempos em tempos, ressurge num país ou noutro para atormentar os vivos.

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