Já nos esquecemos da Covid-19?
por César Locatelli
Lançamento da Editora UFABC, disponível gratuitamente, busca marcar a posição da ciência, em seus variados olhares, para o que deveríamos ter aprendido e ainda devemos aprender sobre nós mesmos e sobre a sociedade que criamos e recriamos todos os dias
“Três de cada quatro mortes por Covid-19 no Brasil poderiam não ter ocorrido, considerada a média mundial, se o Brasil tivesse cumprido os protocolos científicos no combate à pandemia e não fosse governado por um negacionista” “Ou seja, quando [o Brasil atingiu] 500 mil mortes, isso quer dizer que 375 mil poderiam ter sido evitadas ” (Natalia Pasternak)
A obra COVID-19 : economia, sociedade, política e território, organizada pelo professor Gabriel A. A. Rossini, nos convida a viajar por 14 artigos que, mais do que focar nos diferentes aspectos da catástrofe sanitária, revelam a sociedade que criamos e recriamos todos os dias. Para que não nos contentemos em aprender como as coisas têm passado, mas querendo saber por que razão elas têm passado de tal maneira e não de outra, como nos fez ver Georgi Plekhanov.
No artigo Crise de Identidade da Indústria Brasileira: evidências durante a pandemia, Cristina Reis agrega ampla variedade de dados para demonstrar a crise estrutural da indústria brasileira e aponta “o apoio indecoroso” dos líderes industriais ao governo Bolsonaro, interessados em “proteger seu poder de barganha perante os trabalhadores”. Afirma ela:
“Afinal, a improbidade técnica e administrativa do governo federal implicou insuficientes, muitas vezes equivocadas, medidas sanitárias e econômicas. Portanto, o governo brasileiro e os grupos de interesse que o sustentam foram coniventes e/ou responsáveis pela contração da economia brasileira, a ampliação do desemprego e a precarização das relações de trabalho, o aprofundamento de desigualdades sociais e o sofrimento imensurável de mais de 14,5 milhões de brasileiros contaminados e 400 mil óbitos até abril de 2021 (…)”
Após ampla análise sobre a saúde pública e privada no Brasil, as professoras Maria Luiza Levi e Ursula Dias Peres, que assinam O SUS e o acesso privado à saúde: dois modelos em disputa, concluem que:
“A profunda reforma social representada pelo SUS criou um modelo de acesso universal à saúde compatível com a realidade brasileira, concebido para ser financiado com recursos públicos e organizado pelo Estado de acordo com o interesse do conjunto da sociedade. O aprofundamento radical de suas estratégias é não apenas desejável; trata-se do único caminho viável para a organização do acesso à saúde no Brasil. Sua concretização depende de financiamento compatível e legitimidade social.”
O recém-lançado livro é uma celebração “ao papel da ciência, do rigor dos requisitos acadêmicos e do engajamento na defesa do ensino, da pesquisa e da extensão públicos e de qualidade”. Assim se expressa Márcio Pochmann, no posfácio.
Há esperança de que possam surgir um novo modo de vida e novo projeto político? Para responder a essa pergunta Gabriel Rossini convoca seu professor e amigo Vito Letizia: “Sempre há. O que não há é solução miraculosa, sem conflito com os beneficiários do status quo e sem custos para a sociedade em geral. […]. Não enfrentar o desafio, porém, também tem seus custos, que vêm da acumulação de contradições sociais sempre crescentes. A história dirá quais custos são realmente insuportáveis.”
Serviço
Título: COVID-19 : economia, sociedade, política e território
Organizador: Gabriel A. A. Rossini
Editora : EdUFABC
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