
Enviado por Felipe A. P. L. Costa
O escritor que deveria ter ganhado o Nobel em 2016
Por Rajeev Balasubramanyam [1]
Todo ano eu torço para que Ngugi wa Thiong’o ganhe o Prêmio Nobel de literatura.
O escritor queniano é o favorito há anos. Este ano [2016], de acordo com o sítio de apostas Ladbrokes, as chances eram de 4 para 1 a favor de Ngugi, seguido de Haruki Murakami, com 7 para 1, e de Don DeLillo, com 12 para 1. Eu teria ficado desapontado se Murakami ou DeLillo ganhasse. O romance de Ngugi, Wizard of the crow, é uma obra-prima de 700 páginas que parece inventar um gênero próprio, entre a sátira e o realismo mágico; fora da África, no entanto, teve muito menos leitores que The wind-up bird chronicle ou Underworld, ainda que seja uma obra de grandeza equivalente.
Quando soube da escolha de Bob Dylan, em vez de Ngugi, para o Nobel de literatura de 2016, não me incomodou que o prêmio tenha ido para um músico, mas fiquei impressionado de o comitê ter demonstrado um aparente alheamento da época em que vivemos. Alfred Nobel deu instruções para que o prêmio fosse concedido “no campo da literatura [para] o mais proeminente trabalho em uma direção ideal”. ‘Trabalho proeminente’ tem a ver com mérito literário e ‘direção ideal’, com valores, indicando um papel para o prêmio no sentido de moldar a perspectiva da humanidade a cada ano.
Neste momento [outubro de 2016], os Estados Unidos estão assoberbados por um candidato a presidente que propaga a misoginia e apela aos que acreditam na supremacia branca. Em muitos outros países, os neoliberais estão disputando o poder com a extrema direita, enquanto a esquerda está em frangalhos. À luz de tudo isso, a decisão do comitê do Nobel soa irritantemente míope. Este era o ano em que nós necessitávamos de um escritor como Ngugi.
A última vez que o Nobel foi dado a alguém fora do campo convencionalmente entendido como literatura foi em 1953, quando o agraciado foi Winston Churchill, uma decisão que o comitê justificou fazendo alusão não apenas ao seu “domínio da descrição histórica e biográfica”, mas também à sua “brilhante oratória em defesa dos valores humanos mais elevados”. É de se supôr que isto fosse uma alusão à sua retórica durante a guerra, embora seja duvidoso que ele ganhasse, caso os seus crimes contra as antigas colônias britânicas fossem de conhecimento geral.
Importância literária, política e ideológica
Está aí a importância de Ngugi. Nascido em 1938, filho de um fazendeiro em um Quênia rural ocupado pelos britânicos, Ngugi cresceu trabalhando nas fazendas de crisântemos que já haviam sido dos seus antepassados. Atingiu a maioridade durante a Revolta dos Mau-Mau, à qual se seguiu uma violenta reação do governo Churchill, incluindo o aprisionamento de 150 mil integrantes da etnia gikuyu em campos de concentração, onde eles foram eletrocutados, chicoteados e mutilados. Ele descreve vivamente esse período em seus romances Weep not, child, o primeiro romance do leste africano publicado em inglês, A grain of wheat [Um grão de trigo (Objetiva, 2015)] e Petals of blood.
Mais tarde, ao se debruçar sobre a traição ao povo queniano pela nova elite dominante, ele foi preso sem julgamento, vindo a escrever o primeiro romance moderno em gikuyu, Devil on the cross, em papel higiênico da prisão. Escreveu em seguida Decolonising the mind, onde defende que os africanos, como parte do esforço pela libertação dos grilhões mentais do colonialismo, deveriam escrever em suas línguas nativas.
Para um escritor vindo da África, um continente frequentemente tratado como irrelevante pelo resto do mundo, a decisão de Ngugi de se afastar do inglês foi corajosa. De fato, poderia ter levado ao seu sumiço da cena global, mas, em vez disso, solidificou sua reputação como um escritor de elevado comprometimento político, ainda que poucos de seus contemporâneos ou dos autores iniciantes atendessem ao apelo para escrever em seus idiomas nativos. A atitude de Ngugi em relação a isso, no entanto, é notadamente autoconsciente e flexível.
“Nós, da geração mais velha”, disse ele à [revista] New African, três [cinco] anos atrás, “estamos muito ligados pelo nosso nacionalismo anticolonialista, algo que é importante para nós, mas a geração mais nova – eles estão livres. Note que os personagens deles não são necessariamente africanos. Eles gostam de introduzir personagens de outras raças e assim por diante… isso é bom, pois eles estão crescendo em um mundo multicultural”.
Essa capacidade de livrar a si mesmo de posições rígidas permitiu a Ngugi manter a sua relevância política. Wizard of the crow se passa em uma fictícia República Livre de Aburĩria, com destaque para um ditador megalomaníaco, conhecido apenas como o Governante. É uma crítica não apenas a certas figuras reais, mas também ao próprio poder político, no centro do qual ele coloca a opressão patriarcal. O romance é escrito em um estilo cômico e radiante, compassivo diante de pessoas comuns, satírico diante do Governante e de seus capangas, e, como Maya Jaggi afirmou em sua resenha no Guardian, “visivelmente livre de amargura” – algo vital, se o escritor deseja permanecer atual, e impressionante, para alguém exilado da terra natal há 22 [24] anos.
Uma conjuntura crítica
Uma obra tão rica é potencialmente de grande importância para a nossa compreensão de como o mundo chegou ao ponto em que está. Ngugi capta o processo, desde a pilhagem crua e a violência do colonialismo à corrupção das elites nacionais do Terceiro Mundo, promovida pelas forças predatórias do capitalismo global, as quais ele ousadamente representou em Wizard of the crow como um fictício Banco Mundial.
Após a publicação de Wizard of the crow, em 2006, Ngugi escreveu três volumes de memórias, retomando os períodos abordados em seus romances. O primeiro, Dreams in a time of war [Sonhos em tempo de guerra – Memórias de infância (Globo, 2015)] começa com os avós, na época da Conferência de Berlim, em 1885, quando os países europeus dividiram a África entre eles, relatando, em seguida, a história de sua própria infância como um trabalhador sem-terra. O segundo, In the house of the interpreter, trata dos anos que passou em um colégio interno controlado pelos britânicos, perto de Nairóbi, durante a Revolta dos Mau-Mau, quando a casa de sua família foi destruída e seu irmão foi preso em um campo de concentração britânico. O terceiro volume, Birth of a dream, relata os quatro anos que passou na Universidade Makerere, em Uganda, enquanto o Quênia se aproximava da independência e Ngugi começava a escrever suas primeiras obras literárias.
Quarenta anos atrás, teria sido uma decisão progressista dar o prêmio a Dylan (e, dada a sua falta de receptividade ao anúncio da premiação, suspeito que Dylan poderia até concordar com isso), mas o mundo, em 2016, está em uma conjuntura crítica em termos de nossa tomada de consciência ante o fascismo, o neoimperialismo e a supremacia masculina branca, e o comitê do Nobel deveria ter reconhecido isso. Embora talvez nenhum romancista consiga atingir tantas pessoas como um músico com a fama de Dylan, nós ainda precisamos honrar o papel da literatura em mudar nossa consciência e mobilizar nossas ações e, de todos os concorrentes ao Nobel deste ano, a voz de Ngugi é a mais urgente. Como ele próprio escreveu em 2005: “Palavras escritas também podem cantar”.
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Nota
[1] Rajeev Balasubramanyam (nascido em 1974) é um escritor inglês. O artigo original, ‘The Nobel Committee got it wrong: Ngugi wa Thiong’o is the writer the world needs now’, foi publicado pelo jornal Washington Post, em 22/10/2016. Versão anterior em português foi publicada pelo Observatório da Imprensa (n. 924), em 29/10/2016. A tradução é de F. Ponce de León, do blogue Poesia contra a guerra.
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