O preto de cara preta e o branco de cara pintada de preto, por Sebastião Nunes

O grande poeta negro Adão Ventura foi presidente, há muitos anos, da Fundação Palmares. Aproveito que o atual presidente da Palmares é um péssimo caráter para introduzir Adão na minha distopia e para uma pequena vingança de meus amigos escritores contra o escroto e toda a escrotidão.

O preto de cara preta e o branco de cara pintada de preto

por Sebastião Nunes

Luis Gonzaga Vieira, Manoel Lobato, Sérgio Sant’Anna, São Pedro e o arcanjo Gabriel se entretinham degustando algumas carreirinhas, quando foram surpreendidos por uma intromissão absolutamente inusitada.

Do meio da multidão surgiu o grande poeta negro Adão Ventura cavalgando um preto de quatro patas, perdão, apoiado em pés e mãos, como se fosse um cavalo.

– Alto lá! – gritou o guardião da porta do Paraíso. – Quem é você para, sem ser convidado, interromper nossa cafungação?

– Licença, meu branco! – respondeu Adão, imitando Manuel Bandeira em seu famoso poema “Irene no Céu”. – Desculpe entrar assim de supetão, mas é que o cavalo estava arreado, só esperando eu montar. Tinha sela, cabresto e até freio nos dentes. Eu não podia perder a oportunidade, não é mesmo?

– Alto lá, digo eu! – berrou Manoel Lobato, que estava para lá de Marrakesh. – Com que direito você troca Manoel por Manuel, como se meu nome fosse cuspe, para andar na boca de qualquer um?

– Não é nada disso, Lobato – disse Vieira, sempre comedido na cafungação. – Esse Manuel é o poeta-professor-crítico, enquanto você é o Manoel contista-romancista-farmacêutico-jornalista-conselheiro-de-puta etc.

– Ah, bom – acalmou-se o Manoel tudo isso aí em cima. – Cada um com seus penduricalhos. Mas quem é esse preto que o Adão tá montando?

Chicoteando o cavalo, que deu um pinote, o próprio Adão respondeu:

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– Esse cavalo é um cara completamente desavergonhado, ignorante e pobre de espírito que, conchavado com o Jair Messias, tem como meta destruir o pouco que os negros conquistaram neste país.

– Já ouvi falar – recordou o santo guardião. – Mas ele não pode fugir do hall de entrada. Tem de ficar lá com os outros, esperando o portão do Paraíso se abrir. Mas como aqui o tempo não existe, esperar e nada é a mesma coisa.

 

QUEM É O CAVALO

– Para tudo dá-se um jeito – explicou espertamente Adão. – Quando eu disse na secretaria que esse sujeito não era um dos imortais-mortais-imortais, mas só um pobre coitado de um puxa-saco oportunista, que só quer aparecer, e que minha ideia era fazer ele aparecer como a cavalgadura que é, todos riram e me concederam uma licença especial, que só vale enquanto ele for cavalo.

Com uma baita pulga atrás da orelha, Sérgio Sant’Anna indagou:

– E não seria esse infeliz um tal de Sérgio Camargo, que me chamou a atenção e me horrorizou por ter meu nome?

– Exato – disse Adão, descendo, amarrando o cavalo num poste e aceitando uma carreirinha que São Pedro lhe ofereceu. Depois de cheirar com gosto, acrescentou:

– Meu argumento mais forte para que esse cavalo entrasse foi que atualmente ele ocupa a presidência da Fundação Palmares, nobre entidade que presidi no passado, e com muito orgulho, devo dizer.

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Amarrado no poste, o cavalo mastigava um capim ralo que brotava no terreno árido em que tinham baixado. Ao mesmo tempo, tentava acertar coices em quem passava perto. Mas como era cavalo recente e tinha escassas habilidades, não acertou ninguém. Porém seus olhos, injetados de sangue, emitiam ódio, um ódio tão profundo que escandalizou São Pedro:

– Como pode uma criatura acumular tanto ódio? Deve ser profundamente infeliz o desgraçado. Acho que vou transformá-lo num verme bem asqueroso.

– Mas ele já é um verme asqueroso – acentuou o arcanjo Gabriel. Como cavalo ou como gente, nunca será mais do que um verme asqueroso, a aparência dele é só casca podre. Vocês não perceberam como ele fede?

Todos suspenderam a cafungação e cheiraram o ar. De fato, o fedor era terrível e só não tinham notado antes por causa das drogas.

 

RELEMBRANDO O CINEMA RACISTA

– Vocês se lembram de Al Jolson – perguntou Vieira –, o branco que fez muito sucesso no cinema, cantando e dançando com a cara pintada de preto? Em seus shows, os negros eram mostrados como preguiçosos e ignorantes, embora as músicas e danças fossem chupadas de matrizes africanas. Esse tipo de show se chamava “minstrel” e durou profissionalmente até 1910, decaindo em seguida até 1950, para desaparecer na década de 1960, com as lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos.

– Será que a cara desse cavalo não é só pintada de preto? – perguntou Lobato, o mais curioso de todos. – Que tal raspar a cara dele com um pedaço de telha? Tem uns pedaços naquele monte de lixo.

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Com o santo guardião à frente, nossos imortais-mortais-imortais escolheram no monte alguns pedaços de telha, passando a esfregar a cara do cavalo, que urrava de dor e de raiva.

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