Sugerido por MiriamL
Do Público.pt
Cientista diz ter desvendado origem “genética” d’O Capuchinho Vermelho
Recorrendo às mesmas técnicas informáticas que a biologia moderna utiliza para construir a árvore genética dos seres vivos, foi possível traçar a evolução do emblemático conto para crianças
Tal como as espécies animais e vegetais, os contos populares apresentam inúmeras variantes que foram surgindo em diversas alturas, em locais diferentes. E tal como com os seres vivos, a ancestralidade de um conto e a sua difusão ao longo das gerações podem ser estudados com as técnicas da genética das populações para, a partir das semelhanças e diferenças entre as várias versões, reconstituir a sua árvore genealógica.
Foi exactamente o que fez Jamie Tehrani, da Universidade de Durham (Reino Unido), com o “ADN” das diversas variantes conhecidas do conto O Capuchinho Vermelho. E resolveu assim, afirma, um debate de longa data sobre a origem deste conto. Os seus resultados foram publicados online, quarta-feira à noite, na revista de acesso livre PLoS ONE.
Desde a publicação pelos irmãos Grimm da sua compilação de contos da tradição oral europeia, há uns 200 anos, que os especialistas repararam que muitas dessas histórias infantis são parecidas entre si — e também parecidas com histórias do mundo inteiro, lê-se num comunicado da revista. Em particular, existem grandes semelhanças entre O Capuchinho Vermelho e uma série de contos africanos e do Sudeste asiático. Mas até aqui, determinar se esses contos têm ou não um “antepassado” comum tem sido difícil, porque, sendo de transmissão oral, eles escapam à análise literária. Mesmo a versão dos irmãos Grimm provém de uma versão mais antiga — a de Charles Perrault, no século XVII — e esta, por sua vez, deriva de uma tradição oral ainda mais antiga, com raízes em França, Áustria e Norte de Itália.
Existe um outro conto muito semelhante ao d’O Capuchinho Vermelho e muito popular na Europa e no Médio Oriente: O Lobo e os Sete Cabritinhos, no qual um lobo finge ser a mãe de uns cabritinhos para melhor os comer. E os especialistas — incluindo antropólogos e cientistas da cognição que estudam a difusão da cultura — têm debatido acerca de saber, em particular, se os contos de origem africana e asiática onde alguém é comido por um lobo serão variantes do conto do capuchinho ou do conto dos cabritinhos.
Para realizar a sua análise, Tehrani considerou 58 variantes destes dois contos, oriundos de 33 populações, focando-se em 72 parâmetros da trama: o protagonista (masculino ou feminino, filho único ou não); o vilão (lobo, ogre, tigre ou outro); os truques com que o vilão engana a(s) vítima(s); e o desfecho: a vítima é comida, foge ou é resgatada. E conclui que, embora O Lobo e os Sete Cabritinhos e O Capuchinho Vermelho tenham uma raiz ancestral comum, são hoje duas histórias distintas.
“É como se um biólogo tivesse mostrado que os humanos e os grandes símios possuem um antepassado comum mas evoluíram e tornaram-se espécies diferentes”, diz o cientista em comunicado da sua universidade, estimando que o conto dos cabritinhos terá surgido no século I da nossa era, enquanto o ramo d’O Capuchinho Vermelho só terá divergido do “tronco” da árvore mil anos depois.
Quanto aos contos africanos, parecem descender do conto dos cabritinhos. “Afinal de contas, as narrativas africanas descendem d’O Lobo e os Sete Cabritinhos. Mas ao longo do tempo, evoluíram e tornaram-se mais parecidas com O Capuchinho Vermelho[europeu] — que também descende provavelmente d’O Lobo e os Sete Cabritinhos”, explica. “Isto é um exemplo do processo dito de evolução convergente, em que espécies diferentes desenvolvem de forma independente traços semelhantes.” O facto de O Capuchinho Vermelho ter assim surgido duas vezes, em África e na Europa, segundo Tehrani, sugere que este conto apela fortemente à nossa imaginação.
Não é tudo: uma teoria que propõe que O Capuchinho Vermelho, tal como o conhecemos na Europa, terá tido origem na tradição oral chinesa também é posta em causa pelos resultados. “Existe uma teoria segundo a qual O Capuchinho Vermelho deriva de uma versão arcaica [chinesa] que se espalhou para oeste pela Rota da Seda”, explica ainda Tehrani. “A minha análise mostra que, na realidade, é a versão chinesa que deriva das tradições orais europeias, e não o contrário.” Mais precisamente, os chineses terão fundido os dois contos referidos com narrativas locais e criado uma história híbrida, A Avó Tigre.
Fulvia
14 de novembro de 2013 2:05 pmAprendi desde criança que o
Aprendi desde criança que o ineditismo não existe.
Gilson Raslan
14 de novembro de 2013 4:50 pm? ? ?
Quanta inutilidade!
BRAGA-BH
14 de novembro de 2013 5:08 pmScript do STF
Será que se enviarmos o último Script do STF pra ele, ele consegue desvendar o DNA daquela gente?
Orlando Sales
14 de novembro de 2013 6:08 pmDiscordo do Gilson
Discordo do Gilson Raslan,
Achei a pesquisa bem interessante. É curioso saber de onde surgiram essas histórias que contamos e ouvimos ainda hoje.
oneide teixeira bloqueado pela patrulha
14 de novembro de 2013 7:07 pmChapeuzinho vermelho
Chapeuzinho vermelho politicamente correto 1
Era uma vez uma jovem pessoa chamada Chapeuzinho Vermelho, que vivia com sua mãe à beira de um grande bosque. Um dia, sua mãe pediu-lhe que fosse levar uma cesta com frutas frescas e água mineral à casa de sua avó — não porque isto fosse trabalho para mulheres (que fique claro) mas porque o gesto era generoso e ajudava a engendrar um senso de comunidade. Além disto, sua avó não estava doente, mas em plena saúde física e mental, e era plenamente capaz de cuidar de si mesma como uma adulta madura. Então, Chapeuzinho Vermelho saiu pelo bosque com sua cesta de comida. Muitas pessoas que ela conhecia acreditavam que a floresta era um lugar sombrio e perigoso e nunca puseram os pés nela. Chapeuzinho Vermelho, entretanto, tinha confiança bastante em sua própria sexualidade florescente para não ser detida por uma imagética freudiana tão óbvia. Em seu caminho para a casa da Vovó, Chapeuzinho Vermelho foi abordada por um Lobo, que perguntou-lhe o que ela tinha em sua cesta. Ela respondeu, “Alguns petiscos saudáveis para minha avó, que certamente é capaz de cuidar de si mesma como uma adulta madura.” O Lobo disse, “Você sabe, querida, que não é seguro para uma garotinha andar por este bosque sozinha.” Chapeuzinho Vermelho disse, “Eu acho sua observação sexista ao extremo, mas vou ignorá-la por causa de sua condição de excluído da sociedade, uma situação cujo estresse lhe fez desenvolver sua própria visão de mundo, aliás inteiramente válida. Agora, se você me dá licença, eu preciso seguir meu caminho.” Chapeuzinho Vermelho caminhou pela trilha principal. Mas como sua condição externa à sociedade o havia liberado de uma adesão servil ao pensamento linear de estilo ocidental, o Lobo conhecia um caminho mais rápido para a casa da Vovó. Ele invadiu a casa e comeu a Vovó, uma via de ação inteiramente válida para um carnívoro assim como ele. Então, desembaraçado de noções tradicionalistas e rígidas sobre o que era masculino ou feminino, ele vestiu as roupas de dormir da Vovó e enfiou-se na cama. Chapeuzinho Vermelho entrou no chalé e disse, “Vovó, eu lhe trouxe alguns petiscos sem gordura nem sódio, para saudá-la em seu papel de matriarca sábia e provedora.
Da cama, o Lobo disse brandamente, “Chegue mais perto, criança, para que eu possa vê-la.” Chapeuzinho Vermelho disse, “Ah, eu esqueci que a senhora é tão portadora de necessidades especiais visuais quanto um morcego. Vovó, que olhos grandes a senhora tem!”
“Eles muito viram e muito perdoaram, querida.” “Vovó, que nariz grande a senhora tem — só relativamente, é claro, e certamente atraente a sua própria maneira.” “Ele muito tem cheirado e muito tem perdoado, querida.” “Vovó, que dentes grandes a senhora tem!” O Lobo disse, “Eu estou feliz com quem sou e com o que sou”, e pulou fora da cama. Ele tomou Chapeuzinho Vermelho em suas garras, decidido a devorá-la. Chapeuzinho Vermelho gritou, não por estar alarmada com a aparente tendência do Lobo ao travestismo, mas por causa de sua invasão arbitrária de seu espaço pessoal. Seus gritos foram ouvidos por uma pessoa lenhadora que passava (um técnico em lenho-combustível, como ele preferia ser chamado). Quando ele irrompeu no chalé, ele viu a confusão e tentou intervir. Mas quando ele ergueu seu machado, tanto Chapeuzinho Vermelho como o Lobo pararam. “E o que você pensa que está fazendo?” perguntou Chapeuzinho Vermelho.
A pessoa lenhadora hesitou e tentou responder, mas nenhuma palavra lhe vinha. “Invadindo assim, feito um Neanderthal, confiando a sua arma a tarefa de pensar por você!”, disse ela. “Sexista! Especista! Como você ousa supor que as mulheres e os lobos não possam resolver seus próprios problemas sem a ajuda de um homem!” Quando ela ouviu o discurso de Chapeuzinho Vermelho, a Vovó saltou da boca do Lobo, pegou o machado da pessoa lenhadora e cortou sua cabeça. Após este transe, Chapeuzinho Vermelho, a Vovó e o Lobo sentiram uma certa afinidade de propósitos. Eles decidiram criar uma moradia alternativa, baseada no respeito mútuo e na cooperação e viveram juntos no bosque, felizes para sempre.http://retrogradolusofono.blogspot.com.br/2013/08/chapeuzinho-vermelho-politicamente.html
Chapeuzinho Vermelho (versão politicamente correta)
Era uma vez, numa pequena e feliz comunidade auto-sustentável, uma linda menina que ganhou de presente um capuz vermelho. A menina adorou o capuz, mas se apressou em dar uma declaração à imprensa dizendo que o vermelho, embora fosse uma bela cor que remetia a vários significados, inclusive políticos e esportivos, não deveria ser tomado […]
Era uma vez, numa pequena e feliz comunidade auto-sustentável, uma linda menina que ganhou de presente um capuz vermelho. A menina adorou o capuz, mas se apressou em dar uma declaração à imprensa dizendo que o vermelho, embora fosse uma bela cor que remetia a vários significados, inclusive políticos e esportivos, não deveria ser tomado como a sua cor preferencial. Disse também que, em outros momentos, estaria aberta a ter outros capuzes, de outras cores, e não necessariamente monocromáticos, desde que o acaso, ou outro presente, assim o permitisse.
Um dia, a mãe de Chapeuzinho Vermelho pediu a ela que levasse para a sua avó, que momentaneamente não gozava de plena saúde, uma refeição balanceada e de baixas calorias, feita com legumes e temperos frescos, e orgânicos, naturalmente, comprados numa feira de comércio justo.
Embora as residências fossem um pouco distantes, o gesto da mãe não deveria ser interpretado como exploração de trabalho infantil, dados os laços afetivos existentes entre as três mulheres das distintas gerações, e o aceite pronto e quase voluntário da menina. É preciso acrescentar que a mãe estava ciente de que o mau momento por que passava a saúde da sua progenitora não envolvia possibilidade de contágio, e portanto, não ofereceria qualquer risco à criança. Tampouco, deveria ser considerada omissão ou terceirização dos respectivos deveres por parte da mãe, já que esta tinha claro que uma missão como essa não só elevaria ainda mais o apego entre a neta e a avó, como também propiciaria à menina um pouco de atividade física de baixo-impacto, além de uma enriquecedora experiência de contato com a natureza que incentivaria sua autonomia.
De mais a mais, hoje em dia, todos temos a sorte de saber que uma das coisas que as pessoas bem sucedidas sempre souberam e nunca contaram, é que o contato simultâneo das crianças com a natureza preservada e a terceira idade incentiva uma postura de respeito e conservação tanto ambiental como humana, numa perspectiva de atuação construtiva e cidadã.
O pai de Chapeuzinho não foi consultado, já que, por esses percalços da vida amorosa, não morava com a mãe de Chapeuzinho, a quem pertencia a guarda da menina; e embora não mais se amassem como casal, a postura era de mútuo respeito. O pai estava com a pensão em dia, e visitava regular e pontualmente a filha, com quem passava fins-de-semana alternados dos quais ela muito desfrutava. O fim da relação dos pais deveu-se à opção homoerótica do pai, tendo ele assumido uma união estável com seu companheiro; por isso, as visitas à casa paterna permitiam à menina uma convivência com um leque de relações amorosas de maior diversidade.
O pai era músico profissional, se ocupava de oficinas de hip-hop na periferia que visavam a recuperação dos jovens através da produção cultural como uma estratégia preliminar do processo de reinserção no mercado de trabalho e na sociedade, além de também prestar consultoria na área de responsabilidade social corporativa. Tal situação, aliada ao fato do companheiro do pai atuar na organização Médicos sem Fronteiras, era fonte de ricas vivências para que a menina compreendesse a importância de uma visão globalizada da solidariedade.
Portanto, o fato do pai não ter sido consultado não deveria ser tomado como desautorização da legitima autoridade paterna, mas sim, como uma situação menor e que não feria as diretrizes básicas da educação acordadas junto ao juiz e as assistentes sociais quando da elaboração do fim da relação, e referendadas posteriormente na terapia de casal.
A senhora da melhor idade, avó da menina em questão, morava sozinha no outro lado de uma mata nativa tombada pelo IBAMA e preservada graças a uma ONG e à ação corajosa de grupos ecológicos. Embora o caminho não oferecesse perigo, a mãe da menina deu-lhe claras instruções sobre o roteiro a ser seguido até a casa da avó, alertando-a, e transmitindo de uma maneira serena, a confiança de que a filha saberia discernir sobre qualquer ameaça que porventura viesse a encontrar. E passando protetor solar fator 60 na menina, despediu-se afetuosamente antes de sair para uma reunião de um de seus grupos de trabalho voluntário.
Apesar disso, a menina seguiu por outro caminho, mais longo e tortuoso. Um raciocínio apressado poderia levar a pensar em oposicionismo à figura materna, mas também poderia ser considerada uma saudável tentativa de abrir novos caminhos, uma demonstração de curiosidade e confiança em si, necessárias para desbravar novos territórios, uma vez que, visando o desenvolvimento desses potenciais, Chapeuzinho freqüentava uma escola cuja proposta pedagógica moderna e diferenciada se baseava no estímulo do espírito crítico, da autonomia nas escolhas e da capacidade da criança de lidar com novos desafios e traçar estratégias para sua superação.
E assim aconteceu que, ao sair de uma curva do caminho imprevisto, Chapeuzinho se viu cara a cara com um lobo que, por ter nascido numa classe excluída e numa época anterior às ações afirmativas, cresceu num mundo sem cotas para lobos e, conseqüentemente, não teve muitas chances na vida, muito menos estímulo para estudar, e que além de estar desempregado, por descaminhos da vida, tinha o que se chama preconceituosamente de maus antecedentes criminais.
Apesar de ter sido alertada pelos pais, por diversos professores, pelos tios e pelas propagandas educativas para sua faixa etária para não falar com estranhos, de posse da consciência das aptidões e da inteligência emocional necessárias para lidar com um mundo cada vez mais competitivo e marcado pela mudança, Chapeuzinho ignorou essa abordagem conservadora e decidiu enfrentar o imprevisto de uma forma participativa e transparente, conforme aprendeu xeretando nos livros usados pela mãe no MBA, e por isso, foi logo se apresentando e falando com firmeza e desenvoltura dos seus planos de ir até a casa da avó.
Com aparente temor, o lobo se aproximou e, quase sussurrando, pediu que ela também falasse baixo, e contou que estava em liberdade condicional e que só tinha conseguido essa regalia depois da conversão ao vegetarianismo e à não-violência, na qual foi ajudado por um cão pastor que pregava junto ao serviço penitenciário. Disse também, que estava na floresta procurando morangos e amoras silvestres, e orgânicos, naturalmente, e que, se os outros membros da sua matilha que rondavam as vizinhanças sequer sonhassem que ele havia encontrado, sem comer, uma fonte tão nobre e abundante de proteína animal, seria descoberta finalmente a sua traição à ética grupal e, adeptos que eram da prática do jiu-jitsu e outras artes marciais com finalidades violentas, certamente lhe dariam uma surra exemplar antes do banimento definitivo para a cidade onde, como ela bem podia imaginar, a sua vida valeria menos do que um grão de carne de soja transgênica.
Com espírito solidário, Chapeuzinho se sensibilizou com a história do lobo e vislumbrou a possibilidade de haver convergência entre os seus caminhos e ações e os daquele lobo desamparado, e pensando nas possibilidades de ampliar o seu leque de projetos e de aperfeiçoar uma ação já em curso, convidou-o para ir até a casa da avó, onde eles poderiam se refugiar para continuar a conversa em segurança.
Quando lá chegaram, encontraram a avó que saía de casa aparentando a mais perfeita saúde, e diante da surpresa da menina, a senhora explicou que graças ao uso de homeopatia, reiki e doses massivas de pensamento positivo, havia despertado naquele dia sentindo-se plenamente recuperada, e por isso, havia decidido retomar suas atividades normais. Disse-lhes que se sentissem à vontade para usufruir da sua casa, mas que a desculpassem, pois tinha que sair imediatamente para não chegar atrasada ao encontro semanal do seu grupo de estudos na Universidade da Melhor Idade, no qual se dedicava à pesquisa das diferentes áreas do conhecimento que evidenciavam o Imaginário como um lugar entre-saberes que propicia um tecido-textura de transdisciplinaridade num pluralismo de abordagens ou, em linguagem mais simples, um politeísmo epistemológico pós-moderno num viés desconstrutivo.
Numa manifestação clara e inequívoca de abertura e flexibilidade do seu espírito empreendedor, Chapeuzinho encarou aquela mudança imprevista nos planos como uma oportunidade, e aceitou o convite da avó para ficar e conhecer melhor o seu novo amigo. Embora conversasse sempre utilizando um discurso do mais alto nível de correção, na sua inocência de menina, acabou fazendo referências ao tamanho incomum de certas partes anatômicas do lobo, como olhos, nariz, orelhas, boca etc., e esse rumo da conversa, especialmente a partir do etc., foi fazendo o lobo fraquejar, e vencido pelos baixos instintos provindos das camadas mais recônditas de seu DNA, esse produto de milhares de anos de seleção natural e que o condicionava a atitudes nem sempre adequadas, num ímpeto de agressividade não desejada e descontrolada, o lobo avançou sobre a menina numa atitude inamistosa e com objetivos não muito claros.
Um caçador, que por acaso passava por ali, presenciando a ação do lobo, julgando que se configurasse uma intenção clara de atentado contra a integridade física de uma menina indefesa, atirou com sua carabina numa área não vital do corpo do lobo, ligando em seguida para o 190 para chamar a polícia que, não só compareceu prontamente ao local, como encaminhou o lobo ao hospital penitenciário e deu voz de prisão ao caçador.
No seu depoimento à policia, o caçador alegou que tudo não passava de um lamentável mal-entendido, que havia utilizado uma arma que possuía apenas para fins decorativos em sua casa de campo, e que havia atirado no lobo apenas para evitar o que ele supunha que fosse uma eminente agressão à menina.
Representantes do Grupo de Defesa dos Direitos Lupinos alertando para o fato de que não houvera uma tentativa prévia de abordagem pacífica para verificar, através do diálogo, se realmente haveria uma agressão em curso, salientaram que o episódio reproduzia o que as estatísticas não paravam de apontar: a posse não responsável de armas de fogo era fonte de acidentes com danos irreparáveis para os envolvidos, ficando provado que, se a população estivesse desarmada, muita fatalidade seria evitada e essa história teria tido outro desfecho.
O caçador enfrentou um processo público por uso abusivo de força; a sociedade protetora dos animais o acusou de atentar contra uma espécie em extinção; e o IBAMA, descobrindo que o caçador não estava com a autorização para caça em dia, e que tampouco era temporada de caça, abriu um processo por tentativa de caça ilegal, além de ter aplicado as multas e demais sanções previstas no código florestal brasileiro.
Já os advogados do caçador, alegaram que ele foi traumatizado na infância por histórias infantis ameaçadoras, que sua conduta se atribuía a um automatismo defensivo, e solicitaram uma avaliação por uma equipe de psicólogos do GSVTCCFV, Grupo de Solidariedade às Vítimas de Traumas Causados por Contos de Fadas Violentos, especialistas nesse tipo de abuso. Atualmente, o caçador está freqüentando um grupo de ajuda mútua que apóia pessoas interessadas em abandonar a dependência das armas de fogo, e já está há seis meses em abstinência.
Chapeuzinho Vermelho fundou uma ONG que para a recuperação de lobos infratores e tem percorrido o país proferindo palestras nas quais, mediante módicas compensações financeiras para cobertura estrita das suas despesas, defende a implantação de um Sistema de Garantia de Direitos dos Predadores não Carnívoros para estimular a proteção integral desses animais como base para o seu crescimento e desenvolvimento como sujeitos críticos, empreendedores e cidadãos.
Recentemente, a garota recusou um convite para posar nua para um ensaio da Playboy, não sem antes avaliar cuidadosamente junto à sua consultoria de imagem, se não seria o caso de incorporar linguagens mediáticas mais pro-ativas à sua ação socialmente responsável, mas acabou concluindo que isso não passaria de uma efêmera e ridícula notoriedade que serviria apenas para alimentar o furor da sociedade patriarcal porco-chovinista em transformar as mulheres em meros objetos de consumo.
O lobo, depois de conseguir um habeas-corpus no STF de Brasília, escreveu o livro Quando o Lobo Chorou, com prefácio do Dr. Xiniaí Xique, no qual conta sua conversão total ao vegetarianismo graças ao apoio que recebeu da ONG de Chapeuzinho, bem como ao perdão de sua ex-vítima, fatos que ele reconhece como tendo sido determinantes do seu despertar para a importância da formação de novas gerações comprometidas com a preservação e melhoria das relações interespecíficas do planeta e que o levou a trabalhar como voluntário permanente em programas dessa natureza.
Sua mais recente aparição na mídia se deu quando veio a público para lamentar o fato de o cão pastor que tanto o ajudou na conversão ao vegetarianismo, ter sido flagrado e preso em companhia da esposa no aeroporto de Miami, onde o casal tentava entrar no país sem declarar 500 kg de picanha argentina escondidos em sacos de carne de soja; orgânica, naturalmente.
MORAL DA HISTÓRIA: Chapeuzinhos do mundo uni-vos, não existe um caminho certo, o caminho se faz ao andar. Ouse, pois não tens nada a perder senão os grilhões da sociedade patriarcal machista.
http://www.marioedianacorso.com/chapeuzinho-vermelho-versao-politicamente-correta
jc.pompeu
15 de novembro de 2013 12:21 amcontos populares e a história das mentalidades
O historiador Robert Darnton (1939-), pesquisador de Harvard e Oxford, é especialista em história da França do século XVIII também conhecida como Antigo Regime (os arquivos do Antigo Regime são excepcionalmente ricos e sempre é possível fazer perguntas novas ao material antigo.). Entre outros livros, na chave da história das mentalidades, onde une história e antropologia, ele escreveu o livro de ensaios: O Grande Massacre de Gatos – e outros episódios da história cultural francesa. O primeiro ensaio chama-se: Histórias que os camponeses contam: O significado de Mamãe Ganso. Ele abre o estudo com uma versão do “Chapeuzinho Vermelho” diferente das edulcoradas versões conhecidas de Charles Perrault e dos irmãos Grimm; que é a do conto mais ou menos como era narrado em torno às lareiras, nas cabanas dos camponeses, durante as longas noites de inverno, na França do século XVIII (extraídos de Paul Delarue e Marie-Louise Tenèze, Le Conte populaire français, que oferecem todas as versões recolhidas de cada conto, juntamente com informações retrospectivas de como foram tomados de fontes orais.).
Certo dia, a mãe de uma menina mandou que ela levasse um pouco de pão e de leite para sua avó. Quando a menina ia caminhando pela floresta, um lobo aproximou-se e perguntou-lhe para onde se dirigia.
– Para a casa de vovó – ela respondeu.
– Por que caminho você vai, o dos alfinetes ou o das agulhas?
– O das agulhas.
Então o lobo seguiu pelo caminho dos alfinetes e chegou primeiro à casa. Matou a avó, despejou seu sangue numa garrafa e cortou sua carne em fatias, colocando tudo numa travessa. Depois, vestiu sua roupa de dormir e ficou deitado na cama, à espera.
Pam, pam.
– Entre, querida.
– Olá, vovó. Trouxe para a senhora um pouco de pão e de leite.
– Sirva-se também de alguma coisa, minha querida. Há carne e vinho na copa.
A menina comeu o que lhe era oferecido, e enquanto o fazia um gatinho disse: “Menina perdida! Comer a carne e beber o sangue de sua avó!”
Então, o lobo disse:
– Tire a roupa e deite-se na cama comigo.
– Onde ponho meu avental?
– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dele.
Para cada peça de roupa – corpete, saia, anágua e meias – a menina fazia a mesma pergunta. E, a cada vez, o lobo respondia:
– Jogue no fogo. Você não vai precisar mais dela.
Quando a menina se deitou na cama, disse:
– Ah, vovò! Como você é peluda!
– É para me manter mais aquecida, querida.
– Ah, vovó! Que ombros largos você tem!
– É para carregar melhor a lenha, querida.
– Ah, vovó! Como são compridas as suas unhas!
– É para me coçar melhor, querida.
– Ah, vovó! Que dentes grandes você tem!
– É para comer melhor você, querida.
E ele a devorou.
“Qual é a moral dessa história? Para as meninas é clara: afastem-se dos lobos. Para os historiadores, parece dizer algo sobre o universo mental dos camponeses, no inicio dos tempos modernos.” Darnton refuta as exegeses psicanalíticas de “Chapeuzinho Vermelho” feitas por Erich Fromm e Bruno Bettelheim (O psicanalista nos conduz para um universo mental que nunca existiu ou, pelo menos, que não existia antes do advento da psicanálise).
Os contos populares são documentos históricos. Surgiram ao longo de muitos séculos e sofreram diferentes transformações, em diferentes tradições culturais. Longe de expressarem as imutáveis operações do ser interno do homem, sugerem que as próprias mentalidades mudaram.
Não inteiramente, no entanto, porque “Chapeuzinho Vermelho” tem uma aterrorizante irracionalidade, que parece deslocada na Idade da Razão. Na verdade, a versão dos camponeses ultrapassa a dos psicanalistas, em violência e sexo. (Seguindo os Grimm e Perrault, Fromm e Bettelheim não mencionam o ato de canibalismo com a avó e o strip-tease antes de a menina ser devorada.) Evidentemente, os camponeses não precisavam de um código secreto para falar sobre tabus.
As outras histórias de Mamãe Ganso dos camponeses franceses têm as mesmas características de pesadelo. Numa versão primitiva da “Bela Adormecida” (conto do tipo 410), por exemplo, O Príncipe Encantado, que já é casado, viola a princesa e ela tem vários filhos com ele, sem acordar. As crianças, finalmente, quebram o encantamento, mordendo-a durante a amamentação, e o conto então aborda seu segundo tema: as tentativas da sogra do príncipe, uma ogra, de comer sua prole ilícita. […] Num dos primeiros contos do ciclo de Cinderela (conto do tipo 510B), a heroína torna-se empregada doméstica, a fim de impedir o pai de forçá-la a se casar com ele. Em outro, a madrasta ruim tenta empurrá-la para dentro de um fogão, mas incinera, por engano, uma das mesquinhas irmãs postiças. Em “João e Maria” (“Hansel e Gretel”, conto do tipo 327), na versão dos camponeses franceses, o herói engana um ogro fazendo-o cortar a garganta de seus próprios filhos. Um marido devora uma sucessão de recém-casadas, no leito conjugal, em “La Belle et le monstre” (conto do tipo 433), uma das centenas de contos que jamais chegaram a ser incluídos nas versões publicadas de Mamãe Ganso. Num conto mais desagradável, “Les trois chiens” (conto do tipo 315), uma irmã mata seu irmão escondendo grandes pregos no colchão de seu leito conjugal. No conto mais maligno de todos, “Ma mère m’a tué, mon père m’ a mange” (conto do tipo 720), uma mãe faz do filho picadinho e o cozinha, preparando uma caçarola à lionesa, que sua filha serve ao pai. E por aí vai, do estupro e da sodomia ao incesto e ao canibalismo. Longe de ocultar sua mensagem com símbolos, os contadores de histórias do século XVIII, na França, retratavam um mundo de brutalidade nua e crua. […]
Comer ou não comer, eis a questão com que os camponeses se defrontavam em seu folclore, bem como em seu cotidiano. […] A subnutrição e o abandono dos filhos pelos pais estão juntos em vários contos, […] A procura por comida pode ser encontrada em quase todos eles, mesmo em Perrault, na qual aparece sob forma burlesca, em “Os desejos ridículos”. […] O desejo habitualmente é por comida, nos contos dos camponeses, e jamais é ridículo. […] Comer até se encher, comer até a exaustão do apetite, era o principal prazer que tentava a imaginação dos camponeses e que eles raramente realizavam em suas vidas. […] Na maioria dos contos, a satisfação dos desejos se torna um programa para a sobrevivência, não uma fantasia ou uma fuga. Apesar de ocasionais toques de fantasia, portanto, os contos permanecem enraizados no mundo real. […] As famílias dos camponeses não podiam sobreviver, no Antigo Regime, a menos que todos trabalhassem, e trabalhassem juntos, como uma unidade econômica. Os contos populares mostram, constantemente, pais trabalhando nos campos, enquanto os filhos recolhem madeira, guardam as ovelhas, pegam água, tecem a lã, ou mendigam. Longe de condenarem a exploração do trabalho infantil, ficam indignados quando não ocorre. Em “Les Trois Fileuses” (conto do tipo 501), um pai decide livrar-se de sua filha porque “ela comia mas não trabalhava”. […] Os contos, inevitavelmente, colocam esposas de camponeses junto à roda de fiar, depois de um dia cuidando do gado, carregando lenha ou ceifando feno. […] E, mesmo o casamento representando a aceitação de uma nova carga de trabalho e o novo perigo do parto, a moça pobre precisava de um dote para casar-se – a não ser que ficasse com um sapo, um corvo ou alguma besta horrenda. Os animais nem sempre se transformam em príncipes, embora essa fosse uma forma comum de escapismo. […]
Os narradores camponeses abordavam os mesmos temas e lhes faziam modificações características, os franceses de uma maneira, os alemães de outra. Enquanto os contos franceses tendem a ser realistas, grosseiros, libidinosos e cômicos, os alemães partem para o sobrenatural, o poético, o exótico e o violento. Naturalmente, as diferenças culturais não podem ser reduzidas a uma fórmula – astúcia francesa contra crueldade alemã – , mas as comparações possibilitam que se identifique o tom peculiar que os franceses davam às suas histórias; e a maneira como eles contam histórias fornece pistas quanto à sua maneira de encarar o mundo. […]
Sem fazer pregações nem dar lições de moral, os contos franceses demonstram que o mundo é duro e perigoso. […] Não há lógica alguma nesse universo. Os desastres ocorrem de maneira casual. Como a Peste Negra, não podem ser previstos nem explicados, devem ser, simplesmente, suportados. Mais da metade das 35 versões registradas de “Chapeuzinho Vermelho” terminam como a versão contada antes, com o lobo devorando a menina. Ela nada fizera para merecer esse destino; porque, nos contos camponeses, ao contrário dos contos de Perrault e dos irmãos Grimm, não desobedece a sua mãe nem deixa de ler os letreiros de uma ordem moral implícita, escritos no mundo que a rodeia. Ela, simplesmente, caminhou para dentro das mandíbulas da morte. E a natureza inescrutável e inexorável de calamidade que torna os contos tão comoventes, e não os finais felizes que eles, com frequência, adquirem, depois do século XVIII.
Como nenhuma moral discernível governa o mundo em geral, o bom comportamento não determina o sucesso, seja na aldeia ou na estrada, pelo menos nos contos franceses, em que a esperteza toma o lugar do pietismo dos alemães. […] Os contos não advogam a imoralidade, mas desmentem a noção de que a virtude será recompensada ou de que a vida pode ser conduzida por qualquer outro princípio que não uma desconfiança básica. […]
Os contos franceses não mostram nenhuma simpatia por idiotas da vida ou pela estupidez sob qualquer forma, inclusive a dos lobos e ogres que não conseguem comer suas vítimas imediatamente (contos do tipo 112D e 162). A estupidez representa a antítese da velhacaria; sintetiza o pecado da simplicidade, um pecado mortal, porque a ingenuidade, num mundo de vigaristas, é um convite ao desastre. Os herois estúpidos dos contos franceses são, portanto, falsos estúpidos, como Petit Poucet e Crampouès (contos do tipo 327 e 569), que fingem ser estúpidos para conseguir manipular melhor um mundo cruel, mas crédulo. Chapeuzinho Vermelho – sem o capuz vermelho – usa a mesma estratégia nas versões do conto francês, em que ela escapa viva. “Tenho de me aliviar, vovó”, diz ela, quando o lobo a agarra. “Faça na cama mesmo, querida”, responde o lobo. Mas a menina insiste e então o lobo lhe permite ir lá fora, amarrada numa corda. A menina amarra a corda numa árvore e foge, enquanto o lobo puxa e chama, sem mais paciência para esperar. “O que é que você está fazendo, cagando uma corda?” Na verdade, à maneira gaulesa, o conto narra a educação de uma velhaca. Passando de um estado de inocência para outro de falsa ingenuidade, Chapeuzinho Vermelho vai para a companhia do Pequeno Polegar e do Gato de Botas.”
O Grande Massacre de Gatos – e outros episódios da história cultural francesa, de Robert Darnton. Tradução de Sonia Coutinho. Editora Graal, 2011.