8 de junho de 2026

Sou um revisor de letras mortas, por Walfrido Vianna

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EU SOU UM REVISOR DE LETRAS MORTAS

Walfrido Vianna

Eu sou um revisor de letras mortas. Tenho sido e durante muito tempo ainda serei (talvez) um revisor de letras mortas. Quem dedica mais da metade útil do seu dia a zelar por artigos agora antigos, dispositivos sem mais valia, caputs ápodes em falecidas normas, é um revisor de letras mortas.

Um dia, estando a pesquisar a origem do meu nome, descobri: “Walfrido, do teutônico, o que dá a paz, o que vela os mortos, o que guarda os túmulos”. E isso, até há pouco, fez para mim sentido nenhum. Mas neste momento bem compreendo, evidente e óbvio como um girassol ao sol, que agora sou como Anúbis, o deus egípcio guardião das tumbas — que agora eu sou um revisor de letras mortas. Ah, com que zelo, com que cuidado, nos últimos anos pus-me a lavar, assear, higienizar, varrer, ensaboar, despoluir, espanar, escovar, esfregar, desempoar, desencardir, desenxovalhar, desenodoar, abluir, desinfetar, esterilizar, assepsiar, sanear, aclarar, desanuviar, desenevoar enunciados. 

Separava o joio do artigo, o cisco do inciso, a úsnea da alínea. Desenfarruscava parágrafos. E purificava dispositivos outros, como que a redimi-los de algum pecado ou de algo que lhes fosse nocivo à sua carne de legitimidade.

Mas agora eu sou um revisor de letras mortas. Como o anatomista que rearranja os tecidos num corpo sem vida, ou como sabe as vísceras num morto o legista. A alguns, confesso, eu os nutria com maior diligência. Pareciam-me mais caros que outros, muito embora sempre os tenha julgado como um pai que igualmente a seus filhos julga — ainda que em verdade deles nenhum tenha nascido de mim. Mas eram como se fossem. Ah, que lindeza este: “LVII – Ninguém será considerado culpado sem o trânsito em julgado da sentença penal condenatória”! E este então, que mimo: “X – São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito de indenização pelo dano material ou moral decorrente da sua violação”! E que belezura também: “LIV – ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”!

Mas o país que eu conhecia parece estar se desvanecendo. A Justiça fechou o expediente e está a meio-pau. E o que antes era Direito, na democrática normalidade, agora é fé, convicção, seita. Ou a mais obscena moralidade. Eu sou um guardião de letras mortas.

Walfrido Vianna é professor, escritor, bacharel em Direito pela USP e revisor da editora do Senado Federal.

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Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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8 Comentários
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  1. Brnca

    22 de outubro de 2016 5:18 pm

    Letras mais do que mortas

    Texto excepcional Walfrido. Mas você esqueceu umas letras mais do que mortas no Brasil atual: “todo poder emana do povo”. Será que algum dia elas voltarão a ser lembradas por aqui? Como bom revisor rabisque por favor na lateral de alguma página em ouro para que não desapareçam de vez.

  2. Schell

    22 de outubro de 2016 5:48 pm

    Parabéns pelo texto. Somos

    Parabéns pelo texto. Somos “animais raros” nessa selva midiática-(in)justiceira-de-convicções-de-pé-de-página, tudo sob os auspícios dos “guardiães infernais” que, sabem as lesmas, serão devorados pela História, mesmo que soframos enquanto isto.

  3. Edivaldo Dias Oliveira

    22 de outubro de 2016 5:58 pm

    .jaz, a letra da lei

    Um belo epitáfio para a carta magna que acaba de passar desta para…melhor? Bateu as botas, a cassuleta, vestiu o paletó de madeira.

    O que se procura agora é quem tenha a coragem de assumir o assassinato, pois resta claro que se trata de morte matada e não de morte morrida.

    Acusamos a oposição de serem, se não o mandante, o executor do crime, mas ela logo tira o seu da reta.

    Então passamos a acusar o Poder Midiatico como mandante efetivo, mas este se esquiva dizendo-se apenas terem relatado o assassinato sem nele ter interferido.

    O guarda, – poder judiciário – responsável pela segurança da jovem donzela é então apontado como quem a violentou em praça pública e depois a matou, mas este cinicamente não só não assume o estupro, como afirma que a jovem vive e passa muito bem ao contrário do que vemos e que nos saltam aos olhos. Diz ainda que a mesma está em pleno vigor de seus vinte e poucos anos e que nada nela foi violado, enquanto passeia sustentando-a diante de nossos olhos, como um Quincas Berro D’agua levado pelos amigos a passer depois de morto.

    Quem é que vai pagar por isso?  

    Quem sabe nós, o povo, não sabendo mais a quem recorrer e a quem acusar pelo feito, venhamos a ser acusados pelos seus algozes de sermos os responsáveis pelos malfeitos a ela causados.

    Faz sentido!

  4. antonio francisco

    22 de outubro de 2016 6:08 pm

    Senhor Walfrido Vianna, cuidado!

    Além de matar as letras, transformar leis em letras mortas, o que essa turma quer mesmo é acabar com elas, e – obviamente, se eles acharem útil  –  sumir com quem delas toma conta.

     

     

  5. Boeotorum Brasiliensis

    22 de outubro de 2016 9:32 pm

    Revisor de letras mortas

    Comovente e e um tristeza abissal. Deixo-me lágrimas nos olhos e o coração apertado.

    Estamos pranteando a democracia e este é o texto mais belo que alguém poderia ler ao pé do túmulo.

  6. peregrino

    22 de outubro de 2016 10:19 pm

    que maravilha de texto…

    parabéns

    de letras e palavras, muito mais que revisor, um joalheiro

  7. Maria de Fátima de S. Rocha

    22 de outubro de 2016 11:25 pm

    Sou um revisor de letras mortas…

     Já dissera Olavo Bilac em seu poema Barroco  Profissão de Fé:

    “…Invejo o ourives quando escrevo…”.

    Hoje, certamente, ele diria Invejo o Walfrido quando escrevo. E prosseguiria:

    “…Caia eu também, sem esperança, 
    Porém tranqüilo,
    Inda, ao cair, vibrando a lança, 
    Não, Em prol do Estilo, mas da   DEMOCRACIA !!!

  8. veras

    23 de outubro de 2016 1:21 am

    Belíssimo!

    Mostrou o cancro e colocou o dedo na ferida com elegância!

    Parabéns professor! E obrigada,

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