Umberto Eco: “Quantos livros! Leu-os todos?”

Enviado por Gilberto Cruvinel

Umberto Eco: “Quantos livros! Leu-os todos?”

do Libriantichionline

Naturalmente o bibliófilo, também aquele que coleciona livros contemporâneos, é exposto à insídia do imbecil que te entra em casa, vê todas aquelas prateleiras e diz: “Quantos livros! Leu-os todos?”. A experiência cotiditana nos diz que esta pergunta é feita também por pessoas de quociente de inteligência mais que satisfatório. Diante desse ultraje existem, a meu entendimento, três respostas padrão.

A primeira bloqueia o visitante e interrompe todo questionamento, e é: “Não li nenhum, de outra forma porque os teria aqui?”. 

Essa, porém, gratifica o chato estimulando o seu senso de superioridade e não vejo porque se deva prestar-lhe este favor.

A segunda resposta chumba o chato em um estado de inferioridade e soa: “Já li mais, senhor, muito mais!” 

A terceira é uma variação da segunda e a uso quando quero que o visitante caia preso em um doloroso estupor. 

“Não”, lhe digo, “aqueles que já li, mantenho na universidade, estes são aqueles que devo ler na próxima semana.”

Visto que a minha biblioteca conta com cinquenta mil volumes, o infeliz procura somente antecipar o momento da despedida, alegando uma obrigação inesperada.

Aquilo que o infeliz não sabe é que a biblioteca não é apenas o lugar da sua memória, onde mantém aquilo que leu, mas o lugar da memória universal, onde um dia, no momento fatal, poderá encontrar aqueles que outros leram antes de você. É um repositório onde no limite tudo se confunde e gera uma vertigem, um coquetel da memória erudita.

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