Você sabia que Dom Quixote tem uma editora no Brasil? – Parte II, por Sebastião Nunes

Você sabia que Dom Quixote tem uma editora no Brasil? – Parte II

por Sebastião Nunes

Dom Quixote, pernas em cima da mesa e mãos cruzadas atrás da cabeça, fumava um charuto e pensava. Sancho, no sofá de visitas, pitava um cigarrinho de palha e folheava um jornal para analfabetos, desses com duas linhas de texto para cada foto.

– Ou temos uma ideia salvadora ou a vaca vai pro brejo – disse Dom Quixote. – Mas tem de ser uma grande ideia, dessas de vender milhões.

– Concordo, chefe – respondeu Sancho, passando as páginas. – Tô espremendo os miolos pra ver se sai alguma ideia genial.

– É mais fácil Deus pecar do que uma ideia genial sair de sua cabeça – disse Dom Quixote.

– Talvez seja verdade, chefe – anuiu Sancho. – Mas não custa tentar.

Dom Quixote sugou o charuto, fechou os olhos e começou a cochilar.

Sancho abriu a boca, deixou o jornal cair e deu um pulo do sofá.

– Eureka! – gritou ele. – Achei! Tive uma ideia genial!

Dom Quixote, que nunca botava fé nas ideias de Sancho, embora o admirasse como companheiro de aventuras, arregalou os olhos.

– E que ideia genial foi essa?

 

NASCE UMA IDEIA GENIAL

Sancho, que não era bobo nem nada, tirou a pérola da ostra:

– Que tal a gente publicar uma coleção de biografias com cantores famosos?

– Parece bom – disse Dom Quixote. – Mas cadê os cantores famosos?

– Ora, é muito simples – respondeu Sancho. – É só ler a página de variedades dos jornais para analfabetos que estão todos lá. Loucos para aparecer cada vez mais.

– Por exemplo? – indagou Dom Quixote.

– Anitta, por exemplo.

– Que Anita?

– Anitta com dois tês – corrigiu Sancho. – Uma mega star brasileira que partiu para uma carreira internacional e já começou a despontar.

– Despontar como?

– Ela se apresentou no Madison Square Garden em Nova Iorque mês passado, ao lado de outros notáveis latino-americanos.

– Faz sentido – ponderou Dom Quixote. – Mas ela sabe escrever?

– Que importância tem isso? – Entusiasmou-se Sancho. – Se ela não souber a gente aluga um jornalista e manda ele escrever. Esses jornalistas de aluguel topam qualquer coisa e cobram uma mixaria. Depois a gente bota ela pra assinar em parceria.

– Gostei – disse Dom Quixote. – Mais alguma sugestão?

 

CHOVEM IDEIAS GENIAIS

– Claro! – disse Sancho, todo animado. – Tem por exemplo a briga recentíssima de Wesley Safadão e Xand Avião, que tá pegando fogo.

– Ah, é? – espantou-se Dom Quixote, que nunca ouvira falar dos caras.

– Os fãs estão quase se pegando a unha – acrescentou Sancho. – Imagine dois livros que contem a briga. Venderia milhares, milhões!

– Mas será que os fãs deles sabem ler?

– E que importância tem isso? Eles comprariam pra ter livros sobre seus ídolos enfeitando as estantes. Principalmente se recheados de fotos provocativas.

– Provocativas como?

– Ah, sei lá – contemporizou Sancho. – Pelados, talvez. De sunguinha na praia. Na academia malhando, coisa do tipo. Quanto mais provocativas, melhor.

– E quem vai escrever?

– Deve ser fácil. Tem um site RD1, anunciando que “Garota safada”, dos Aviões do Forró, está perdendo para o Safadão. Depois um tal Leo Dias escreveu que os dois vivem se xingando e disputando pra ver quem faz mais show, quem tem mais fãs, quem cobra cachê mais caro – coisa de alto nível, como vê.

– Não sabia que você era chegado a uma ironia, Sancho.

–Perto dessa gente eu sou um gênio – declarou sem modéstia Sancho, arrepiando as penas da vaidade.

– Mas só essa briguinha não dá dois livros, Sancho.

– Claro que dá – teimou Sancho. – Nunca se sabe do que esses jornalistas de aluguel são capazes. Inventar, enfeitar, mentir e fofocar é com eles mesmo.

 

VIDA (E SUCESSO) QUE SEGUE

Empolgado, Sancho continuou:

– Tem zilhões de cantores arrebentando. Fiquei sabendo que o réveillon de um clube importante de Belo Horizonte reuniu Dilsinho, Zé Neto & Cristiano, Renan & Rafael – e foi o maior sucesso. Isso em BH. Imagine em São Paulo e no Rio.

– E quem são esses cantores? – perguntou Dom Quixote, sentindo-se o editor mais ignorante do mundo.

– Sei lá – respondeu Sancho. – Sei que fazem muito sucesso e, se fazem muito sucesso, com certeza venderão milhões de livros.

– Concordo com suas ideias, Sancho – disse convencido Dom Quixote. – A coleção pode se chamar “Caras do caralho”, e vamos com ela ressuscitar a editora.

– Isso aí, chefe – alegrou-se Sancho, sentindo-se um editor brilhante.

– Manda brasa, Sancho – disse Dom Quixote, recorrendo a uma gíria do tempo da pedra lascada. – O país tá uma merda só, a cabeça das pessoas tá uma merda só, que mal tem se nossa editora virar uma merda só?

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1 comentário

  1. Hits e books

    Para o público brasileiro, maduro e responsável, nada seria mais aprazivel do que juntar bandas, escândalos, disputas e tudo o que realmente faz sucesso.

    É o que é.

    São duas bandas e um cujuntinho que fazem uma bunda.

    É só mostrar que o sucesso é garantido. 

     

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