Publicado originalmente em 24.03.2003, na Folha
Antes dos 13 anos, declarei guerra a meu pai. Eu passara para o terceiro ano do ginásio, mudou o irmão Marista titular da classe, e tive a oportunidade de tirar o primeiro lugar, algo que não conseguira nos dois anos anteriores.
Fui para casa de boletim na mala e peito estufado, e o velho nem ligou. À noite, no encontro de pais e alunos no Marista, um pai chegou perto de nós, saudou o meu feito e indagou se manteria a colocação. Seu Oscar respondeu, irritado: “Problema dele”. Anos depois, Chafik, seu melhor amigo, me contou que ele não se conformara com minha decisão de, aos 12 anos, me tornar jornalista, e não seu sucessor na Farmácia Central.
Desde aquela noite de 1963 um muro se ergueu entre nós. No mês seguinte caí para 7º da classe, no terceiro mês para 15º, do quarto mês em diante fui o último para o todo e sempre. Puni o seu Oscar a cada prova malfeita, a cada gazeta engendrada, a cada rebelião contra os irmãos. Mas, nos momentos cruciais, consegui o seu apoio, especialmente no dia em que o reitor Lino Teódulo foi à minha casa com acusações falsas, em represália à minha militância estudantil. Disse-lhe na cara que ele estava mentindo, e meu pai me apoiou.
Nem isso quebrou as nossas barreiras. Eu chegava em casa antes de meu pai chegar, refugiava-me na tia Rosita na hora do jantar. Depois, quando ele descia de novo para fechar a farmácia, corria para casa, para dormir antes que ele voltasse de vez. Mas de manhã bebia cada som que ele emitia, cada gesto de ansiedade, andando para lá e para cá no corredor de casa, os gemidos de quem carrega os fardos do mundo. E me punia por não poder ajudá-lo.
Ao longo da vida, guardei em frascos de cristal os poucos momentos de emoção que consegui compartilhar com ele, como o garimpeiro que procura a pepita na bateia. Registrei seu choro na morte da tia Marta, as lágrimas na missa de sétimo dia do vô Issa, seu sogro, a última ida a Poços de Caldas, para ser informado da morte de seu melhor amigo, e seu olhar quando divisou a cidade ao longe. Mais tarde, acompanhei seu silêncio quando tia Rosita morreu. Não contamos nada para ele, e ele nunca mais perguntou dela, para não ouvir a resposta que temia.
E me lembrei para sempre do dia em que o critiquei na casa do vô Issa por ter comprado um bilhete de loteria enquanto estávamos acampados por lá, procurando casa para alugar em São Paulo. Ele saiu para a rua, fui atrás e pedi a Deus as palavras que me permitissem explicar o que sentia. Abracei-o, aquele homem alto, chorando, e falei, falei e falei, disse-lhe que ele continuava o centro da família e que minha preocupação era apenas para que não demonstrasse desespero indo atrás de miragens. E só serenei quando ele se acalmou e me olhou com olhar de pai agradecido.
O segundo derrame chegou 12 anos depois do primeiro. Só depois de morto e enterrado comecei minha longa caminhada atrás de meu pai. Passei a buscá-lo em cada contemporâneo, em cada amigo. Com as velhas senhoras de Poços descobri o galanteador; com os fregueses mais humildes da farmácia, uma generosidade que nunca pressenti.
Com os amigos, a pessoa aberta e alegre que submergiu com a crise da farmácia, mas que continuou sendo o mais gentil dos poços-caldenses.
E, quanto mais o buscava, passava a descobrir o inverso, a busca que ele fazia de mim. Diariamente meu pai levava minhas irmãs ao Colégio São Domingos, e, na volta, pegava um amigo meu para almoçar e saber notícias minhas de São Paulo. Antonio Candido me falou do orgulho com que ele relatava minhas primeiras reportagens. O padre Trajano me contava das notas que levava ao “Diário de Poços” relatando cada vitória em festival, em concurso literário. E minha mãe me contou que, no auge da minha crise de adolescência, ela perdeu a fé no meu futuro, e ele acreditou.
Às vezes sinto o travo da última conversa que não houve, dos beijos que não lhe dei. Mas em algumas noites o sinto ao meu lado, daquele modo silencioso com que ficava com a tia Rosita, sem nada falar, porque palavras eram desnecessárias. Apenas me olhando com aquele olhar de quem finalmente se fez entender.
O homem generoso
Seu Oscar era de uma generosidade sem par. Mas não a alardeava nem dentro de casa.
Fui descobrindo aos poucos.
Uma vez, no Paláce Hotel,, o senhor que limpava a piscina, já bem idoso, contou que passou um dia em frente à farmácia e ficou olhando a vitrine com brinquedos. Na época de Natal, as farmácias vendiam brinquedos. Meu pai se aproximou e perguntou se queria levar algum para os filhos. Ele disse não ter dinheiro. Imediatamente, seu Oscar mandou-o escolher os brinquedos com a máxima:
- Presente para os filhos, no Natal, é tão relevante quanto remédios.
O segundo caso foi um vendedor de pipocas, que costumava ter ponto em frente o cine Gazeta, em São Paulo. Uma vez ele foi ao meu escritório. Como eu estava no táxi, em direção ao aeroporto, minha secretária o colocou no telefone, e ele me contou sua história.
Tinha problemas motores. Não conseguia andar. Ele e a mãe foram para Poços e fizeram ponto em frente a Farmácia Central, pedindo esmola. Meu pai o colocou no carro, então, trouxe até a Beneficência Portuguesa para tratamento. Depois, deu-lhe dinheiro para comprar o carrinho de pipoca.
Era uma grande pessoa, e com enorme vocação de jornalista. Tanto que colaborava com a Gazeta de Farmácia com uma coluna que falava sobre o boticário do interior. Foi lá que consegui essa crônica.

Ivan Arruda
13 de janeiro de 2014 10:19 pmOutra bela e emocionante
Outra bela e emocionante história que nos faz relembrar um pouco da nossa própria história.
Walter o primeiro
13 de janeiro de 2014 10:52 pmDe certa forma eu e meu pai
De certa forma eu e meu pai
Josias Pires
13 de janeiro de 2014 11:15 pmDepoimento
Depoimento maravilhoso!
Obrigado, LN!
Afonso Braga
13 de janeiro de 2014 11:26 pmMe lembrou desta…
[video:http://www.youtube.com/watch?v=krGG4n_NlQ8%5D
iron
13 de janeiro de 2014 11:53 pmAdolescencia, é a fase que
Adolescencia, é a fase que falamos e fazemos coisas que não desejamos. Talvez a expiação da culpa nunca seja suficiente e nunca termine. É triste.
João Bosco Rocha
14 de janeiro de 2014 12:50 amMe Fez Recordar
Me fez recordar a minha relação com o meu pai. Somente depois que ele partiu é que pude começar a compreendê-lo e perceber o grande esforço dele para nos educar, família de muitos filhos.
Carlos Bartolomeu
10 de setembro de 2025 8:41 amSua definição de adolescência é perfeita. A angústia dela consequente não tem fim. Mas não me parece que isso seja triste, pois é fundamental para construção de uma vida melhor.
Zurprizes
14 de janeiro de 2014 12:57 amUau!
Uau, lindíssimo relato….
Helio J. Rocha-Pinto
14 de janeiro de 2014 1:31 amBela e tocante narrativa!
Bela e tocante narrativa!
Claudio Melo
14 de janeiro de 2014 1:51 amO Pai eterno te ama com uma
O Pai eterno te ama com uma intensidade indescritível e anseia que, em meio aos muitos compromissos, você passe a enxergá-lo nas sutilezas e concatenações desta estada. E não se omita em buscá-lo, explanando suas inquietações e incertezas. Algo íntimo, ímpar e confessional como só os detentores de um inconformismo juvenil, mesmo em longevas andanças, conseguem traduzir. Pv 31.16 – Coroa de honra são as cãs, quando elas estão no caminho da justiça -.
Tenente Aldo Raine
14 de janeiro de 2014 2:44 amNada de eufemismo .Apenas o
Nada de eufemismo .Apenas o reconhecimento a um grande jornalista que se superou e se supera a cada texto que escreve,principalmente quando utiliza sua incomparável verve romântica,como nesta comovente homenagem ao Pai,ao lê-lo o mais rude dos humanos leva aos olhos o dorso das mãos,para enxugar as primeiras lágrimas quê brotam.Parabéns Luis Nassif.
Sandra Maria
14 de janeiro de 2014 11:20 amPara você, Nassif, um verso
Para você, Nassif, um verso de Adélia Prado: “O melhor do amor é sua memória” (In: Bagagem).
Muito emocionante seu texto!
Mello
14 de janeiro de 2014 11:57 amTambém tive uma trajetória
Também tive uma trajetória parecida, Nassif.
Estupidamente.
Mesmo sendo mais velho nunca deixei de beijar o meu pai, como uma criança. Em sua casa, ele gostava de ficar deitado, lendo. Muitas vezes, deitava ao seu lado e até cochilávamos.
Acho que não tive o suficiente, de vida com ele, embora tenha tido muito.
Se pudesse voltar, teria mais!!
Nossos pais deveriam ser eternos…
-Charlie-
14 de janeiro de 2014 12:35 pm–
Nassif regula em idade com meu pai, sendo ambos da chamada geração “Baby Boom”.
Interessante observar que esse relato de distanciamento entre pai e filho, esse conflito geracional, a falta de diálogo, é muito comum entre boomers e seus pais.
Em compensação, os boomers e seus filhos, a Geração Y em diante, têm uma relação completamente diferente.
Parabéns pelo tocante texto.
euclides santa cruz
14 de janeiro de 2014 12:51 pmComentário
Nassif, fiquei emocionado com seu texto. Posso dizer que vivi quase que a mesma relação com meu pai, que hoje é meu único ídolo. Parabéns!
Cardoso
14 de janeiro de 2014 1:12 pmDesconcertante.
É a realidade de muitos filhos.
E este texto insólito, no meio de tantos comentários duros, nos faz lembrar esta frase do Che:
“Hay que endurecerse, pero sin perder la ternura jamás. – “
Durvalino
14 de janeiro de 2014 1:44 pm…. doces palavras Nassif
…. doces palavras Nassif .!
Marcio Cruzeiro
14 de janeiro de 2014 2:01 pmNassif, que loucura ….fico
Nassif, que loucura ….fico aqui imaginando sua Emoção ao escrever Esse Texto…..nos remete a algum lugar no passado…..onde alguma bobagem que fizemos, ou falamos…..Hj. temos certeza…..não passou de bobagens.
Parabéns por vir aqui de peito aberto dar esse depoimento……
Sérgio Rocha
14 de janeiro de 2014 2:28 pmCaro Nassif,
Bela história,
Caro Nassif,
Bela história, no fundo é o sentimento que transforma coisas e pessoas.
Sérgio
Poder Tradutor
14 de janeiro de 2014 2:46 pmFeliz aniversário a todos
Nassif mas todo mundo tá aniversariando hoje nunca vi, na minha familia tem uma porrada, o Wathasp hoje foi só dia de dar parabéns..rs
Sandro_Araujo
14 de janeiro de 2014 5:27 pmMuitos de nós nos encontramos
Muitos de nós nos encontramos no texto. A crise na relação filho-pai é uma constante. Como pai, é difícil ver o filho buscando caminhos diferentes daqueles que planejamos. Como filho, é impossível não querer ter luz própria. Ao final da jornada, buscamos sempre reencontrar a “pepita única”, talvez sem saber que temos dentro de nós mesmos aquela força vinda do nosso genitor. Realmente não deve ter sido fácil escrever as palavras. Onde quer que esteja, sei que o velho Oscar tem orgulho do Luís!
matuto
14 de janeiro de 2014 8:01 pmAmor e Porre.
Só muito amor cria um texto desses.
Com meu pai faltou apenas tomar um porre juntos.
Angela Cristina P Laranjeira
14 de agosto de 2022 12:53 pmSó posso dizer Nassif: que maravilha! Muita emoção.
eugenio pierrobon neto
14 de agosto de 2022 6:39 pmTive a oportunidade de ler este artigo quando da sua publicação e me trouxe lágrimas ao me trazer lembranças semelhantes de meu pai . Felizmente revejo sua publicação agora .. novamente lágrimas…mas de saudades …parabéns Nassif e obrigado por compartilhar a tua Luz….feliz dias dos pais …
Isabel Borgert
14 de março de 2025 9:36 pmOlá
Sou Isabel ,moro em Curitiba. Achei verdadeiramente espetacular esse texto.Te acompanho no GGN e em outros podcasts.
Sou sua fã.
Um abraço das Araucarias😍
Wagner Gonçalves
12 de agosto de 2025 6:17 pmLuiz Nassif: linda a história do seu pai. Uma grandeza de alma ímpar, humano , profundamente digno. Na verdade, “a vida é feita de heróis anônimos.” E ele foi e é um deles. O artigo a Caridade, tão claro e humano, publicado, no final, completa, com maestria, seu texto. Parabéns.