Um dos personagens mais solicitados no país – devido à carência de oferta – são os mercadores de ideologia, pessoas bem dotadas intelectualmente, que se oferecem para formular propostas nacionais para grupos econômica, politica e militarmente poderosos, mas de escassa formação intelectual para projetos de poder.
Nenhuma surpresa.
Nenhum projeto nacional sobrevive apenas de técnica, planilhas, crítica de costumes, coturnos ou políticas públicas. É a ideologia — entendida aqui como visão de mundo, valores e narrativa — que dá direção, sentido e coesão ao projeto. Sem ela, as demandas setoriais perdem legitimidade.
É a ideologia que constrói um sentido coletivo de propósito, sem o qual não existe mobilização nacional. Projetos sem ideologia viram políticas isoladas, não estratégias de poder.
Desde o Plano Real, a ideologia dominante foi a do mercado financeiro, da subordinação total da política monetária, cambial e de crédito aos interesses do mercado. Ou seja, o projeto de país era não ter projeto.
A falta de um projeto verdadeiramente nacional criou um vácuo, que começa a ser preenchido de várias formas.
Hoje em dia, os principais demandantes são:
* ruralistas;
* militaristas;
* órfãos do bolsonarismo.
Estão fora os grupos de esquerda, centro-esquerda e liberais, restrito às disputas sobre temas sociais, identitários e, agora, de segurança.
Os três principais ofertantes são:
* Aldo Rebello
* Roberto Mangabeira Unger
* Ciro Gomes.
Cada qual com suas virtudes e pecados. Vou me restringir à análise das principais bandeiras levantadas, apenas para mostrar as ideias que estão na vitrine.
1) Idéia de Nação
Todo projeto de país tem que partir do conceito de Nação. Por isso, as bandeiras mais proeminentes são o nacionalismo e a soberania.
- Aldo Rebelo: Unidade territorial, identidade cultural e soberania como fundamentos históricos da nação.
- Ciro Gomes: Nação como projeto econômico-político de desenvolvimento com redução de desigualdades.
- Mangabeira Unger: Nação como experimento institucional — criatividade coletiva e reinvenção democrática.
2) Papel do Estado
- Aldo: Estado forte, coordenador e protetor da soberania; foco na infraestrutura básica e na produção nacional.
- Ciro: Estado planejador, tecnocrático, com metas e coordenação entre política fiscal, monetária e industrial.
- Mangabeira: Estado experimental e empreendedor, capaz de reinventar modelos e criar novas formas produtivas.
3) Reindustrialização
- Aldo: Reindustrialização como defesa da soberania e da integridade territorial.
- Ciro: Reindustrialização como motor do crescimento, gerenciada por política industrial ativa e crédito direcionado.
- Mangabeira: Reindustrialização via democratização da inovação e transformação da estrutura produtiva.
4) Soberania e Relações Exteriores
- Aldo: Soberania militar, cultural e territorial; crítica ao alinhamento automático e defesa de multipolaridade.
- Ciro: Soberania econômica e tecnológica; postura independente, mas pragmática no comércio e diplomacia.
- Mangabeira: Soberania como autonomia criativa; multipolaridade como espaço para reinventar instituições.
5) Educação
- Aldo: Papel social e cultural; integração nacional; reforço da identidade brasileira.
- Ciro: Pilar central; ensino integral, técnico, baseado no modelo cearense.
- Mangabeira: Motor da inovação; currículos flexíveis; escolas como laboratórios de criatividade.
6) Reforma institucional
- Aldo: Fortalecer instituições existentes (Forças Armadas, Estado nacional, cultura cívica).
- Ciro: Modernizar e racionalizar para eficiência (reforma tributária, administrativa, política).
- Mangabeira: Transformar profundamente as instituições e permitir experimentação democrática.
7) Inclusão social
- Aldo: Coesão nacional, trabalho, cultura e proteção do território.
- Ciro: Emprego, renda, crédito produtivo e políticas sociais integradas.
- Mangabeira: Inclusão via poder e inovação, não apenas via renda.
8) Complexo industrial de defesa
- Aldo: Central; parte indissociável da soberania nacional.
- Ciro: Importante como vetor tecnológico e soberania estratégica.
- Mangabeira: Relevante como plataforma inovadora, mas não eixo ideológico.
9) Segurança Pública
- Aldo: Ordem pública como função civilizatória do Estado, não como guerra aos pobres. É crítico de aventuras militares e de uso político da farda..
- Ciro: problema de coordenação federativa, tecnologia e gestão, sem militarização.
- Mangabeira: parte da democratização da oportunidade e da reinvenção das instituições.
José de Almeida Bispo
19 de novembro de 2025 8:06 amO senhor Mangabeira… fala português?
samuel
19 de novembro de 2025 8:33 amEnquanto isso na sala da justiça, os principais nomes da esquerda dominante(Psol, Pt e agregados) estão se empenhando em empurrar goela abaixo a estúpidez da linguagem neutra, a criminalização do homem hétero e o aparelhamento das instituições.
André LB
20 de novembro de 2025 12:38 pmInteressante o quanto seu preconceito caminha de braços dados com sua desinformação.
https://www.cnnbrasil.com.br/politica/lula-sanciona-lei-que-proibe-uso-de-linguagem-neutra-pelos-governos/
Euclides Roberto
19 de novembro de 2025 1:08 pmO problema é o COMO esses atores prescrevem cada um desses ítens. Problemático.
Rafael
19 de novembro de 2025 4:32 pmNo Brasil, desde 1930 tem dois times em disputa:
“Nacional – desenvolvimentista – includente” X “Dependente – financista/primário-exportador – concentrador/excludente”.
Os três personagens têm um “conjunto coerente de ideias”, uma ideologia; porém, não mobilizam as massas.
Servem mais de linha auxiliar, para dividir a torcida do primeiro time, do que para disputar poder.
Detalhe, os militares de 1964 pertenciam, apesar do aparente nacionalismo, ao segundo time. Nacionalista é, necessariamente, inclusivo. Concentrar renda, como fizeram os governos militares, enfraquece o desenvolvimento nacional. Logo, fortalece o país, relativamente, mais forte, que desde 1945 é o EUA. Ao menos no ocidente.
Victor Lima
19 de novembro de 2025 10:29 pm(“os mercadores de ideologia, pessoas bem dotadas intelectualmente,”). Francamente não sei de que compêndios foram escavadas todas as definições apresentadas para caracterizar cada um dos doutos ideólogos citados. São apenas 3 imbecis que palram imbecilidades há anos, para a plateia inculta e bela, pelo autor identificados como ruralistas, militares e órfãos do bolsonarismo, realmente a “nata” do pensamento nacional. A constatação de sempre: Vai faltar capim.
Cidadão sem cidadania
19 de novembro de 2025 11:13 pmCiro e Aldo formariam uma bela dupla , os dois são a favor da reendustrializacao e totalmente contra a mais polícia, guarda civil agindo como polícia jamais , um bom pensamento, os dois são bons de história e sabem que o guarda da esquina está e ficará pior , precisamos de educação saúde e renda , guarda civil só como está na constituição cuida de praça e prédio públicos e não como hoje até rota guarda tem .
Fábio de Oliveira Ribeiro
23 de novembro de 2025 9:56 amAristóteles disse que o ser humano é un animal político. A internet o transformou num animal virtual, num pet inapto para a política que pode ser estimulado a fazer ou deixar de fazer algo, a votar ou não votar em algo em alguém.
Maquiavel removeu da política quaisquer considerações éticas, morais ou religiosas. Mas foram os engenheiros de TI e donos de Big Techs introduziram na política os algortítimos para transforma-la num espaço de permanente anomia capaz de se propagar do ambiente virtual para o real.
Hobbes disse que o homem é o lobo do homem, cabendo ao Leviatã garantir a proteção dos cidadãos desde que eles abram parcialmente mão de sua liberdade individual. Os donos de plataformas de internet tiveram liberdade total não apenas devorar os dados dos usuários, mas para criar o ambiente em que o próprio Leviatã foi confinado.
O homem é virtuoso e a sociedade o corrompe, disse Rousseau. Agora são os algoritmos que corrompem tanto o homem quanto os cidadãos. Mas quando eles são corrompidos os donos deles podem exigir a garantia de seus direitos de propriedade intelectual.
Clauzewitz disse que a guerra é a continuação da política por outros meios. Na internet, a política por outros meios é a continuação da guerra virtual entre os usuários, mas dentro dos limites estabelecidos pelos barões dos dados.
Karl Marx chegou á conclusão de que cada modo de produção econômico determinava a superestrutura política das sociedades humanas. Agora o que até mesmo o capitalismo se tornou refém da internet e a superestrutura das sociedades são deformadas pelas exigências tecnológicas computacionais, o marxismo se tornou anacrônico. Ele não é capaz de explicar como e porque as classes sociais antagônicas foram aprosionadas por uma dinâmica tecnológica cuja principal caraterística é operar efeitos no mundo real existindo apenas como fluxos de dados controlados por algoritmos.
Hannah Arendt disse que a política existe no espaço voluntariamente criado pelos seres humanos. Esse espaço pode agora ser aumentado, diminuído e esgarçado por algoritmos que sopram bolhas virtuais destinadas a explodir nas ruas de qualquer país.
Mao Tsé-tung disse que a política é guerra sem sangue. A guerra sem sangue agora é travada nas redes sociais, mas os donos delas são os únicos realmente que podem arbitrar o resultado pois eles podem impulsionar alguns conteúdos e invizibilizar outros.
A filosofia política nunca mais será a mesma. Ela se tornou refém de uma tecnologia privada que rapidamente se apropriou da esfera pública para orientar e reestruturar o debate político e controlar a agenda estatal. Submetidos às dinâmicas sociais ditadas por algoritmos nós agora temos o dever de repensar a política para libertá-la dos limites em que ela foi confinada. Mas isso não poderá ser feito com base nas obras de Aristóteles, Maquiavel, Hobbes, Rousseau, Clausewitz, Karl Marx, Mao Tsé-tung e Hannad Arendt.
Fábio de Oliveira Ribeiro
23 de novembro de 2025 10:46 amNo comentário que publiquei tem uma inconsistência: Rousseau.
Eis a questão roussoneana reformulada:
O homem é naturalmente virtuoso e a sociedade o corrompe, disse Rousseau. Ele também afirmou que a vontade geral não deveria ser desvirtuada por interesses pessoais mesquinhos. Agora são os algoritmos que manipulam a vontade geral e corrompem tanto o homem quanto a sociedade. Até mesmo os índios podem ser corrompidos nas plataformas de internet. Mas quando os algoritmos são corrompidos por hackers os donos deles podem exigir a garantia de seus direitos de propriedade intelectual e industrial.