Do mar do Aral às águas mineiras: desastres anunciados, por Felipe Costa

Do mar do Aral às águas mineiras: desastres anunciados

Por Felipe A. P. L. Costa

A paisagem da superfície do planeta ainda é dominada pela presença de seres vivos – e.g., florestas, campos, barreiras de coral e, claro, as áreas de cultivo agrícola. O perigo maior está por trás das paisagens: quase metade de toda a produção primária líquida está sendo drenada para alimentar os negócios humanos.

Não seria exagero, portanto, dizer que a manutenção e o bom funcionamento dos sistemas ecológicos, cujos ‘bens e serviços’ sustentam a vida em escala planetária, dependem hoje dos caprichos de uma única espécie. Não bastasse o tamanho excessivo da nossa ‘pegada ecológica’, há exemplos de que mesmo intervenções fundamentadas em tecnologias tidas até então como ‘limpas, seguras e eficazes’ podem resultar em desastres expressivos.

A degradação do mar do Aral ilustra bem o que pode acontecer quando o autoritarismo político dos governantes é amparado pela soberba técnica de alguns burocratas.

Como secar um lago imenso

O mar de Aral – a rigor, um enorme lago interior – já foi o quarto maior lago de água doce do mundo, menor apenas que o mar Cáspio, o lago Superior e o lago Vitória. Situado na Ásia Central, entre o Uzbequistão e o Cazaquistão, o Aral chegou a ocupar quase 70 mil km2 (superior à soma dos territórios dos estados do Rio de Janeiro e de Sergipe).

O processo de destruição do lago foi resultado do tipo de ‘planejamento’ que prosperava na antiga União Soviética. A burocracia governamental, ignorando a opinião de cientistas que alertavam para as possíveis consequências negativas do empreendimento, decidiu que as águas dos dois rios que alimentavam o Aral (rios Amudar’ya e Syrdar’ya) seriam mais bem aproveitadas se fossem desviadas, abastecendo então áreas de cultivo agrícola. Foi quando a engenharia soviética entrou em ação…

Em pouco tempo, com mais de 90% de sua recarga natural comprometida, o Aral começou a secar: o nível do lago baixou, o volume armazenado diminuiu e as margens recuaram. Em 1987, o nível do lago já havia baixado 13 m, o volume diminuiu em dois terços e a área ocupada recuou cerca 27 mil km2 – tudo isso em relação aos valores registrados na década de 1960.

O fundo exposto do lago estava coberto de sal e o grau de salinidade da água que havia sobrado triplicou. Muitos peixes desapareceram e com eles boa parte da fauna associada. Milhares de pescadores perderam sua fonte de renda e comida. Tempestades de areia e sal passaran a ser frequentes. O clima mudou. A poeira suspensa no ar e a péssima qualidade da água (salobra e contaminada por fertilizantes e venenos químicos utilizados nas lavouras) facilitaram a incidência de doenças, particularmente entre as crianças.

A própria lavoura de algodão – razão pela qual a burocracia soviética decidiu desviar o curso dos rios que alimentavam o Aral – começou a sofrer. As mudanças climáticas ocorridas na região encurtaram a estação de crescimento, a tal ponto que a cultura deixou de prosperar em diversas áreas próximas ao lago, as quais foram então abandonadas. O abandono da cultura de algodão não deixa de ser um lado triste e irônico de toda essa história, embora talvez ainda não seja o capítulo final.

Com o recuo das margens, o que antes era um único lago foi dividido em dois. Em 1987, já se falava em Pequeno Aral, ao norte, e Grande Aral, ao sul. Este último começou a se dividir em duas porções, a do leste (maior) e a do oeste (menor). O mar do Aral continuou se fragmentando, formando uma sucessão de corpos d’água cada vez mais rasos e menos volumosos, e o pior: desconectados entre si – a desconexão, por si só, acelera a perda de água. Então, em 2014, a porção leste secou completamente. Assim, aquele que já foi um imponente ‘mar interior’ está a caminho de se converter em uma coleção de ‘poças mortas’, isoladas e perdidas em meio a uma paisagem hostil.

Exaurindo as águas substerrâneas

Não temos mares interiores no Brasil, mas temos rios, florestas e reservatórios de água em diferentes estágios de degradação. A despeito das especificidades (e.g., a quantidade de areia acumulada no fundo de um rio, o número de espécies perdidas em uma floresta ou o volume de água armazenada em um reservatório), a dinâmica de todos esses sistemas tem algo em comum: depois que o grau de degradação ultrapassa um limiar mínino, o processo tende a prosseguir por conta própria e a um ritmo cada vez mais vigoroso, de sorte que as tentativas de frear ou reverter o processo têm cada vez menos chances de sucesso.

No caso dos reservatórios de água, por exemplo, é bem possível que já estejamos presenciando os últimos dias de alguns deles. No ritmo atual, o abastecimento público seguramente irá piorar nos próximos anos, embora seja pouco provável de que tenhamos um colapso generalizado. Ocorre que, para reverter ou ao menos frear a degradação, os administradores terão de alocar parcelas crescentes do orçamento público; muito mais, por exemplo, do que seria necessário gastar para impedir (preventivamente) que o sistema ou partes dele entrassem nesse processo.

Tome nota: a omissão política, assim como a imperícia técnica, custa caro e, cedo ou tarde, todos nós teremos de pagar esse preço. Na verdade, muitos de nós já estamos pagando. Veja o que acontece hoje em tantas cidades brasileiras, onde o consumo de água mineral parece ter se convertido em um hábito generalizado. Raramente justificável, trata-se de uma prática particularmente perversa: como a água, nesses casos, é de origem subterrânea, a exploração excessiva e a consequente exaustão das fontes – o que está em curso em várias cidades mineiras, como Caxambu, Cambuquira e São Lourenço – só será percebida pelo público no estágio final do processo.

[Nota: versão algo diferente integrou um artigo publicado no Observatório da Imprensa, em 10/2/2015; para conhecer artigos e livros do autor, ver aqui; para informações sobre o livro mais recente do autor, O evolucionista voador & outros inventores da biologia moderna (2017), inclusive sobre o modo de aquisição por via postal, ver aqui.]

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