Ex-secretária do MCTI pede mobilização por soluções contra mudanças climáticas

Em entrevista, pesquisadora da UFRGS defende uma 'Diretas Já' do clima e destaca pressões por uma nova política de Estado

Márcia Barbosa, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sil (UFRGS). Foto: Luara Baggi (ASCOM/MCTI)

Do Brasil de Fato

‘Precisamos de uma ‘Diretas Já’ do clima’, defende pesquisadora da UFRGS

Líder de um grupo de 100 pesquisadores que elabora um plano de enfrentamento da crise climática no Rio Grande do Sul, a física Márcia Barbosa, da Universidade Federal do Rio Grande do Sil (UFRGS), passou antes pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) do governo Lula (PT), onde dirigiu a Secretaria de Políticas e Programas Estratégicos. Da equipe, pesquisadores e pesquisadoras vêm das universidades federais, das comunitárias, dos institutos de pesquisa de dentro e fora do estado.

“São as pessoas que estão incomodadas com essa situação que estão se auto-organizando para pressionar o Estado para criar os instrumentos para que essa solução ocorra”, detalha Márcia. “Ninguém demandou isso. Nós pedimos. Estamos pressionando gestores e gestoras para nos ouvirem. É uma autogestão, um método novo de pressionar por uma política de Estado”, reforça.

Membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Academia Mundial de Ciências (TWAS), ela teve um encontro com a imprensa alternativa. A reunião foi organizada pelo site Brasil Progressista e dele participaram Katia Marko, do Brasil de Fato RS, Moisés Mendes, do Diário do Centro do Mundo e do Extra Classe, Letícia Fontoura, da Rede Integração, Igor Pereira, do Pão com Ovo, Julian Lisboa, do Brasil Progressista, e Guilherme Oliveira, da TVT.

A seguir, uma versão resumida do debate. 

Letícia Fontoura: Você comentou numa entrevista que precisamos de “Diretas Já” do clima. O que seria esse movimento?

Márcia Barbosa: Nós precisamos que as pessoas demandem, assim como foram as “Diretas Já”. Era um momento em que a população foi para as ruas para poder votar direto para presidente. As universidades, a sociedade, todo mundo tem que se mobilizar para dizer: “eu quero soluções resilientes para esses impactos das mudanças climáticas, quero que as estradas sejam resilientes, que as pontes, que a minha casa seja resiliente, quero ter um futuro”. Isso significa mobilização popular. Não é uma questão que o poder vai facilmente responder. Por quê? Porque qualquer ação de resiliência vai demorar para acontecer.

Vai ter que ter dinheiro, infraestrutura, tudo demora, e a política pensa em janela de quatro anos. Então, não é conveniente. A questão climática não é uma verdade conveniente, não é? Precisamos que essa população tão sofrida, essa comunidade acadêmica que há tempos avisa que vai acontecer esse evento, que isso se coordene como um movimento. Precisamos atuar coletivamente para que as políticas coordenadas sejam para prevenir contra os impactos, mas, ao mesmo tempo, para ter um plano no Brasil de redução de emissões (de CO2) e de confrontar as emissões dos outros países também.

Estamos sofrendo na carne. Precisamos exigir que o mundo pare de emitir CO2 também. Precisamos de “Diretas Já” do clima.

Igor Pereira: Como entende que deveria ser resolvido esse impasse da greve dos servidores técnicos e docentes? Quando a universidade se apresenta em crise, temos uma crise da sociedade também. Existe uma crise das universidades? Essas greves demonstram isso? Como seria a melhor forma de encaminhar essas questões que se colocam?

A greve por parte dos técnico-administrativos e parte do corpo docente é legítima. É legítima porque vivemos um processo, há alguns anos, de desmerecimento do conhecimento acadêmico. Não preciso retornar a momentos do governo Bolsonaro em que se falava mal da universidade. Mas é mais antigo. O crescimento do que vou chamar de neoliberalismo nas estruturas do Estado tentou reduzir a universidade e incentivar um outro tipo de formação dado por setores privados. Então, no mundo, a universidade vive uma crise. Por quê? Porque, por um preço que não é muito elevado, consegue uma certa formação que dá uma vida.

A crise da universidade, num certo sentido, é global. Muito porque a visão neoliberal se entranhou na maior parte dos Estados, principalmente no Norte Global. No Brasil, não é diferente. Vivemos esse enxugamento e, como o sistema é federal, houve uma diminuição dos recursos e dos investimentos. Entendo que essa crise eclode com a questão das greves. Mas, curiosamente, quando a gente entra em crise, como foi o caso da pandemia ou como agora no Rio Grande do Sul, as universidades vão e se apresentam para mostrar o melhor que tem do seu conhecimento e também para dar acolhimento à população.

Então, mesmo tão maltratada, quando tem o espaço, a universidade vai lá e se apresenta. Ela se apresenta, como foi na pandemia mas, passada a pandemia, volta para dentro da caixa, para o seu universo fechado. O que diminui o diálogo com a população, que é quem paga esse conhecimento. Meu receio é que, passada essa emergência climática, a universidade volte para dentro da caixa. E o que a gente precisa é sair da caixa em definitivo, é permear. A universidade vai ter que se transformar em uma espécie de éter, algo que permeia todo o tecido social. Ela, com isso, ela se justifica.

A universidade que sai da caixa, que participa da vida de toda a sociedade, é a construção que vai fazer as universidades mundiais saírem desse momento de crise que enfrentam. Não é simples, gente. Porque a caixa, para nós acadêmicos, é muito confortável. É muito confortável conviver com aquelas pessoas que falam a mesmíssima linguagem da gente. Mas, se a gente continuar só dentro da caixa, não vamos sobreviver.

É muito importante que, neste processo, a gente se abra. Nessa abertura, eu tenho uma minúscula esperança que a população compreenda o papel do conhecimento. Isso é quase uma ousadia da minha parte, mas Max Weber dizia que tinham três autoridades que a sociedade reconhecia. A dos anciões, que é tipo o poder eleito, a da lei e a das pessoas carismáticas.

Essa rede que a gente está desenhando agora é uma minúscula sementinha dessa visão de pessoas que se juntam sem demanda e que, portanto, como não tem uma demanda para elas, vão continuar juntas mesmo, aconteça o que acontecer. Que constroem um conhecimento, que querem que esse conhecimento seja construído com a comunidade.

Guilherme Oliveira: Como vê essa questão do governador Eduardo Leite trazer a iniciativa privada para orientar o estado nesse momento de crise? Não se chama a UFRGS, mas sim o Instituto Ling?

Primeiro, o grande problema que tivemos aqui foi a desestruturação de órgãos do próprio estado. Quando se tem uma crise, o estado deveria ter como apoio uma estrutura que, para economizar dinheiro, foi sendo fechada. Órgãos de pesquisa foram fechados. Depois houve uma flexibilização das leis ambientais, que também é parte do processo da catástrofe.

Quando a gente vai resolver o problema, o estado, não reconhecendo o que chamo de autoridade do conhecimento, vai buscar uma consultoria. Por que uma consultoria? Por uma visão de que a consultoria tem uma bala de prata. É o que as consultorias oferecem. Uma coisa de curto prazo dizendo que vai resolver o problema. Quando, na verdade, o que precisamos é reconstruir e construir instrumentos perenes no Estado que vão nos ajudar a enfrentar essa emergência e as as futuras que virão. Que é uma solução mais cara, mais demorada, mas é a construção baseada no conhecimento.

O grupo que a gente coordena já deu várias ideias. Uma delas é que, para resolver as diversas questões que o estado está enfrentando, bastava abrir um edital para buscar consultorias nas universidades. E teriam que ser editais customizados, ou seja, essa região aqui vai abrir um edital para essa região.

E, como as universidades no Rio Grande do Sul são capilarizadas, seria possível que aquela universidade da região resolvesse e desse a consultoria para aquela mesma região. É a pessoa que está morando lá que vai resolver o problema. Temos capacidade para dizer como tratar a beira dos rios, como fazer o ordenamento territorial, como resolver o problema das encostas. Se muda ou não uma cidade de lugar e, se decidir que vou mudar, como faço isso? Faço dialogando com aquela comunidade porque é uma ruptura histórica violenta mudar pessoas de lugar.

Temos os instrumentos para fazer isso. Existem, inclusive, modalidades de editais super rápidos para se poder fazer esses projetos rapidamente. O que está acontecendo agora foi previsto pelas universidades. A solução está lá no freezer de cada pesquisador e pesquisadora prontinho para sair. Se abrir um edital para dar uma consultoria, está aqui a resposta.

Eu imagino que o governador tenha ficado muito sem saber para onde ir quando deu essa emergência. Se você não conhece quem são as pessoas dentro do seu conteúdo de universidades que têm as capacidades não consegue chamar imediatamente uma pessoa ou outra. O edital te permite achar aquela pessoa que sabe dar a resposta.

Moisés Mendes: Com quem vocês estão interagindo do setor público? Esse setor público não quer interagir com universidade, não quer interagir com ninguém. Com quem estão interagindo agora e como é que, se estão interagindo, como está sendo conduzida essa relação com quem, afinal de contas, vai tomar decisões?

A gente fez um rascunho inicial das iniciativas que, depois, o grupo vai discutindo e vai aprofundando. Consegui levar o Pacto Alegre ao prefeito de Porto Alegre e para o governador de estado. Também consegui levar para o (ministro Paulo) Pimenta, que coordena o ministério esse de emergência aqui do Rio Grande do Sul. Mas muitas das coisas que propomos não são federais. São estaduais. O ente mais importante para a gente chegar nesse momento é o governador.

Consegui entrar em um dos comitês – são cientistas convidados para discutir – do governo estadual. Mas o processo é muito lento. São várias pessoas de várias instituições discutindo ideias e tenho certeza que esse projeto só vai ficar pronto depois que acabar o dinheiro. O dinheiro que veio para fazer essa reconstrução. Tenho certeza que se eu disser que, para reconstruir as cidades, vamos precisar olhar o grupo de bacias que já existe e aí olhar como vamos tratar as margens, vamos ter que fazer um ordenamento de território, uma resposta complicada, essas pessoas vão ficar muito mais inclinadas a ouvir uma consultoria.

O estado quer uma solução rápida que as consultorias vão dar. Vão dizer “constrói assim e assim” e, daqui a dois anos, estamos inundados de novo.

O processo não é rápido mas, no longo prazo, vai dar soluções resilientes. Temos que começar já a construir um centro que atue na gestão de risco. Se não começar hoje daqui a cinco meses ninguém mais vai lembrar dessa emergência climática. Alguém está lembrando muito do final do ano passado? Alguém lembra da seca da Amazônia?

Vou ser muito feliz se conseguir convencer o governo estadual a separar recursos para contratar consultorias para analisarem os projetos que as prefeituras vão mandar de reconstrução. Só analisar os projetos já vai ajudar esses projetos. E se algum prefeito ou prefeita quiser discutir seus projetos com esse grupo estaremos de portas abertas para discutir isso. A gente precisa de uma solução que pare de pé e que dialogue com a comunidade local.

Katia Marko: Li a biografia do Victor Jara e, nela, a esposa dele, que escreveu o livro, contava de um terremoto no Chile que desabrigou muita gente. E fala do importante papel das universidades naquele momento, abrigando as pessoas e dando assistência. É essa visão, esse éter, esse desmanchar da universidade na comunidade e na sociedade. Mas temos as escolhas políticas dos nossos governos, como o nosso governo estadual. Escolhas neoliberais, de estado mínimo e de flexibilização das leis ambientais. Como, realmente, conectar essa visão e esses projetos da universidade com esses governos que temos hoje, tanto no estado quanto na prefeitura de Porto Alegre?

Primeiro momento é agora na reconstrução. Existe dinheiro vindo do governo federal, existe oportunidade de dinheiro, de recursos, vindos do BID. Ele oferta só se for usado para a ciência. Ele põe essa condição… Parte desse recurso o governo estadual poderia trazer e utilizar a Fapergs, que é a nossa fundação do estado, para criar consultorias para as prefeituras. A prefeitura não iria gastar. Isso é a curto prazo.

A longo prazo, tinha um projeto que começamos a discutir enquanto eu estava no Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), junto com o Ministério do Meio Ambiente, que é alocar recursos para as prefeituras que terão emergências climáticas em todo o país para elas se prepararem.

Obviamente, precisaria identificar porque a Rede Clima e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) sabem quais são as áreas de risco, tanto para chuva, seca, vendaval, e ter os órgãos reguladores para garantir que prefeitos e prefeitas usem o recurso para se prepararem. Não é só pelo Rio Grande do Sul que vamos ter que fazer isso. Temos que fazer para todo o país. Por quê? Porque vamos enfrentar secas da Amazônia, vamos também enfrentar secas, provavelmente, no Mato Grosso. Sabemos as regiões que vão ter problemas, então precisamos financiamento específico para as prefeituras buscarem esse preparo. Onde têm que buscar? Ah, aí temos que criar esse centro de gestão de risco.

Não é uma competição para o Cemaden ou o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia). É um centro que acompanha os alertas treinando a população, fornece curso, comunicação, treinamento para gestor, para defesa civil, e ajuda os trabalhos do Cemaden expandindo as regiões de risco.

É um centro que faz um serviço com ciência. Vai ajudar a população, inclusive as crianças, através do aprendizado sobre clima na escola. Quando tiver uma emergência climática, a prefeitura já vai ter estabelecida toda uma estratégia do que fazer. Seja chuva, seca ou vendaval.

Então, nesse momento de emergência, precisamos criar consultorias competitivas no sentido de que pesquisadores e pesquisadoras vão competir para isso, de rápida duração, para ajudar as nossas prefeituras a se organizarem.

Julian Lisboa: Você vislumbra que teremos que fazer um drástico replanejamento estrutural do Rio Grande do Sul, tendo em vista que o estado fica em um corredor de rios voadores e frente a um paredão de umidade que vem do desmatamento da Amazônia? São questões que vão influir na economia, na reconstrução das cidades. Podemos ter uma ideia da dimensão disso e de quanto afetará o futuro do Rio Grande do Sul que vai ter que fazer mudanças para se adequar a esse novo quadro?

Quando olhamos o futuro, temos que passar a nos enxergar como muitos países do mundo se enxergam. Muitos países tem, ocasionalmente, terremotos. Eles sabem quando vai ter um terremoto? Não. Convivem com essa possibilidade constante de ter um terremoto.

Tem países que convivem com a possibilidade constante de ter um tufão, um furacão, que sempre tiveram isso. Nunca tivemos isso mas, de agora em diante, com as mudanças climáticas, que tem a ver com o desmatamento na Amazônia, mas também com o Atlântico mais quente… Não sabemos exatamente quando teremos essas emergências. Sabemos que haverá mas, assim como o terremoto, não sabemos quando. Portanto, vamos ter que nos preparar para sempre que é o que esses países fazem.

Países que têm essas emergências climáticas constroem suas casas preparadas para a emergência climática. Ensinam nas escolas o que as pessoas têm que fazer. Qualquer criança sabe o que fazer quando tiver um tufão, um furacão, um terremoto. Nós éramos privilegiados, não tínhamos isso. Mas uma combinação das nossas emissões com as emissões de CO2 do resto do mundo e um monte de desmatamento que a gente fez nos moveram para essa situação. E as emissões de CO2, não somos nem os maiores culpados. Estamos sofrendo graças à Inglaterra, aos Estados Unidos, à Alemanha, à França que enriqueceram emitindo CO2 e agora vamos sofrer as consequências.

Temos que estar preparados mas, ao mesmo tempo, não podemos piorar a situação. Vamos ter que controlar também as nossas emissões. É um trabalho enorme, Vamos ter que nos reeducar, preparar as nossas habitações, as nossas estradas, as nossas pontes. Vamos ter que pensar como transformar as encostas em mais resilientes.

Como fortalecer as encostas? Como fortalecer as bacias? Como fortalecer a população que vive mais próxima do rio? O que fazer com o setor agrícola? Como reorganizar isso de maneira que seja mais resiliente? E tem respostas para isso. Existem projetos já testados de combinação de reflorestamento, com plantio agrícola e pecuária. Tudo, como eu disse, está ali no freezer, pronto para a gente ser chamado, descongelar, e a refeição está pronta. Mas a comunidade acadêmica precisa ser convidada.

Esse grupo, a Rede Emergência Climática e Ambiental, até o momento não está assim, super convidada para dar palpite, mas nem é isso que a gente quer. Queremos que tenhamos editais que convidem globalmente a comunidade acadêmica. Não precisa ser esse nosso grupo. Globalmente. Esperar que indivíduos deem as respostas mágicas vai ser muito ruim, mesmo que sejam pessoas que opinem na universidade.

Igor Pereira: O que que permitiu que a gente vivesse essa tragédia que estamos vivendo? Por que chegamos aqui? Me parece que toda a conversa que tivemos nos leva à ideia da ausência do projeto, daquilo que foi demonizado por muito tempo, que é o Estado planejando ações no território, uma ideia de projeto nacional, que parece estar ausente. Foi demonizado por uma ideia neoliberal que diz que é cada um por si e tem que deixar a iniciativa privada livre para fazer o que quiser…

As pessoas estão aí resolvendo, estão ajudando a salvar,  parece assim que o Estado não é necessário porque tem uma auto-organização das pessoas, e aí pode até – como eu li num jornal –  dizer quer “o indivíduo venceu”. É uma ilusão porque nós estamos “resolvendo” muito mal o problema com o esforço imenso das pessoas. Por quê? Porque não tem coordenação.

A UFRGS poderia estar trabalhando muito melhor se tivesse coordenação. O Estado poderia estar trabalhando muito melhor se estivesse preparado para ter uma coordenação e uma coordenação entre estados, municípios, união? Fica uma confusão de que cada um está tentando cumprir tudo e se perde a coordenação entre os diferentes atores.

Então, ter um Estado que tenha serviços permanentes, que conheça o problema, cada um sabendo fazer o seu papel, apoiando o cidadão e a cidadã no momento de crise. Precisamos saber exatamente o que fazer e tendo a segurança de que o Estado vai resolver as questões intermediárias. É fundamental. Tanto para o Estado quanto para uma universidade.

A UFRGS estava com duas informações contraditórias sobre a volta às aulas. Por quê? Quando não tem liderança, começas a ter informações contraditórias. E o fato de não ter essa gestão faz o cidadão e a cidadã desconfiar desse Estado. “O que será de mim agora? Qual vai ser o meu futuro?” Não se confia que o Estado está pensando no que fazer e sabe o que fazer, que são duas coisas distintas.

Quando você desestrutura o Estado dos órgãos que poderiam te dar o apoio fica muito difícil decidir. Precisamos criar um movimento que garanta que, a partir de agora, o Estado vai estar estruturado para apoiar o cidadão e a cidadã não só para as chuvas, mas para as secas e os tornados que virão. Para tudo o que quem trabalha com mudanças climáticas vem alertando há muito tempo.

Não só preparar cidades, mas também a agricultura familiar, a grande agricultura, preparar esse estado. Temos bombas em Porto Alegre que ainda estão desligadas. Não podemos mais deixar de ter um sistema de bombas que tenham monitoramento. Ter sistemas de eletricidade que tenham monitoramento. Precisamos também olhar o equipamento urbano e ter esse equipamento monitorado.

É muito trabalho mas se não começar a fazer isso agora, daqui a dois anos vamos estar enfrentando isso de novo. Essa conta não é só do Rio Grande do Sul. Não é só do Brasil. Estamos sofrendo com mudanças climáticas por uma conta que enriqueceu alguns países do mundo. E eles têm também que estar pagando para a gente se preparar. Estes países têm responsabilidade com o Brasil, com as ilhas que vão desaparecer, com o impacto na África.

Moisés: Hoje tive uma discussão com a minha mulher, que é psicóloga e fica questionando o meu saber absoluto de jornalista sobre essa PEC das áreas de Marinha. A gente não saberia da evolução dessa PEC se não fosse a briga do Neymar com a Luana Piovani porque isso aí passou pela Câmara há quase dois anos e meio. E o relatório final, que foi aprovado, é do (deputado) Alceu Moreira, aqui do Rio Grande do Sul. Eu me sinto absolutamente ignorante por não saber disso. Como é que eu descubro isso pela Luana Piovani? E que esperança podemos ter se os caras estavam abrindo a porteira para a boiada da apropriação das áreas de Marinha? Eu queria que tu falasse sobre isso.

Vamos começar sobre o porquê das pessoas terem tão pouca informação. Sinto muito, Moisés, mas é culpa de vocês. A informação tem que vir dos jornalistas…

Moisés: Já concordo, sem contestação nenhuma.

Mas tem que vir de um jeito que as pessoas entendam também. É como fazer divulgação científica. Acho que o jornalista não traz esse assunto tão fácil de maneira que interesse à população. E fácil significa contextualizar. Tu vais perder a tua praia, que é a coisa mais democrática possível e imaginável. Essa discussão pode ser trazida de um jeito mais fácil para a população entender. E mais contundente.

Temos muito trabalho a fazer. Às vezes, as pessoas não estão sabendo de mudanças climáticas porque a nossa linguagem é um pouco sofisticada. Precisamos simplificar a linguagem e estar conversando o tempo todo sobre o assunto. Nós, pesquisadores e pesquisadoras, sabemos dar aula mas não é a mesma coisa que falar em público. Precisamos sair mais, brigar mais.

Moisés: É muito interessante o que você está dizendo. Os jornais tinham estruturas que facilitavam essa compreensão e hoje não têm mais. As estruturas de redação tinham um compromisso com essa facilitação por uso dessa linguagem que pudesse ser percebida pela grande maioria. Isso não existe mais. Esse é um problema. Por quê? Porque tem uma ação deliberada, que tem em todo o setor público, que tem na imprensa, em toda área que tem poder, no sentido de transformar essa informação não acessível, assim como essa questão da praia. Por exemplo, eu me sinto ignorante por não ter sabido antes. Isso que você está falando é uma coisa que, deliberadamente, foi destruída nas redações. O Estadão, um jornal ultraconservador, tinha dentro da redação, ainda na ditadura, os melhores repórteres ambientalistas do Brasil. A Zero Hora, quando eu entrei no fim dos anos 1980, tinha três repórteres que cuidavam de ecologia. Houve uma destruição do setor público, da universidade, das redações, de forma deliberada, nos últimos anos. Cada vez temos menos gente para tentar facilitar essa informação.

Sim, está na hora de um outro “Diretas Já”. Está na hora da gente se libertar desse modelo neoliberal. Quando eu digo “Mudanças Climáticas Já”, a gente pode pegar esse tema e sair e conversar com a população.

Na questão climática, o Brasil tem uma chance maravilhosa de ser uma liderança. Por quê? Porque os outros países que enriqueceram emitindo CO2, estão aprisionados por uma indústria que depende disso. No Brasil, a indústria não é muito forte. Então, temos os instrumentos para ser o país que vai carregar essa disrupção sobre o modelo econômico.

Podemos, nesse casamento da população mais imprensa e universidade inventar um novo modelo, inclusive de desenvolvimento econômico. Eu sou absurdamente otimista. Se a pessoa não é otimista não sobrevive em ciência. Ciência é todos os dias acreditar que vais descobrir uma coisa nova. Temos a obrigação de trazer um futuro para essa população. E isso só se faz com o conhecimento.

Katia Marko:  A gente está falando aqui da reconstrução, do material, mas tem todo o imaterial. Fico pensando nas crianças que viveram todos esses traumas e que depois tiveram que ir para um abrigo e, talvez, viveram outros traumas. O que vai ser dessa geração? O que vai ser das pessoas que passaram por tudo isso? Muitas não querem nem voltar para as suas casas. Pessoas dos assentamentos do MST em Eldorado do Sul, não querem mais viver lá. Porque é muita dor. Como a universidade pode ajudar também nessa questão? 

Quando entrei no ministério, a minha secretaria tinha um dinheiro muito pequenininho, menor do que, por um ano, o dinheiro que um deputado federal tem para fazer emendas parlamentares. Então, eu tinha que ser muito estratégica. E uma das áreas em que decidimos fazer um edital era para entender como estava a saúde mental no pós-pandemia. Isso no ano passado. E, curiosamente, o grupo de pesquisas que ganhou financiamento para entender saúde mental foi daqui da UFRGS. Montou uma super rede, coordenada pelo professor Flávio Kapczinski.

Ele me disse que era preciso focar nessa questão, explicando que as pessoas já estão andando por Porto Alegre abatidas. Que pessoas que perderam tudo vão para um extremo de impacto. E ele tem essa rede que ele chama de Saúde Global. É uma palavra holística. É o todo.

Tivemos uma reunião com a Sociedade Brasileira do Progresso da Ciência, a Academia Brasileira de Ciências e a Academia de Medicina para trabalhar essa questão. Inclusive pensando em construir uma estrutura de apoio online, porque serão tantas pessoas que consultas presenciais não serão um bom instrumento.

Mesmo quem não perdeu tudo está abalado. Mas as que perderam tudo estão muito abaladas. Não é uma coisa menor da gente pensar, porque é esse ânimo que gera a capacidade de reagir e de construir o futuro.

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  1. O que afundará primeiro o planeta Terra, uma guerra nuclear ou a mudança climática? Essa pergunta na verdade é enganosa. Ambos os fenômenos tem a mesma origem: os negócios como de costume. São eles que desencadeiam conflitos militares lucrativos e os preservam até o ponto de uma ruptura total e sem retorno entre OTAN e Rússia e entre EUA e China. Mesmo que a guerra nuclear seja evitada, a agricultura (que derruba florestas para incorporar mais territórios à produção), a indústria manufatureira, a produção de energia e o transporte baseado em motores à combustão continuarão aquecendo clima e produzindo alterações significativas no clima. A civilização moderna não tem soluções porque ela mesma é o problema. Um problema cuja solução será imposto à força pela Natureza.

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