Brizola e o processo de impeachment de Collor

Por Paulo Gomes Almeida

Em 1992, Leonel Brizola era o governador do Rio de Janeiro. Ele se posicionava contra o impeachment. De todos os lados era acusado de gagá a vendido (Collor teria financiado a via expressa Linha Vermelha em troca de seu apoio). Eu estava entre os que o vilipendiavam.

Ao reler sua  entrevista ao programa Roda Viva, dada no auge da campanha pelo Impeachment de Collor, me deparo apenas com a sabedoria e experiência do velho gaúcho. Ao manter suas convicções, mesmo sendo execrado por boa parte de seus apoioadores, Brizola mostra a sua coragem e hombridade. Realmente não fazem mais políticos como ele. Hoje deixo aqui minha admiração. Eis alguns trechos:

“O que eu desejo? Preservar as nossas liberdades. Eu estou vendo a luta desses brucutus, um quer derrubar o outro só para subir no lugar do outro”

entendemos que um clima de histeria é inconveniente para as próprias investigações, para se fazer justiça. Nós já vimos episódios semelhantes, nunca deram bons resultados. Condenamos esses excessos, às vezes a falta de isenção e principalmente os que procuravam colocar a carreta diante dos bois, [aqueles que,] antes de investigar, antes de conhecer exaustivamente os fatos, recomendavam logo o impeachment, inclusive fazendo vistas grossas para as outras áreas de corrupção gravíssimas que existem no país e que no fundo estão disputando a sua continuidade no poder ou a sua ida para o poder.

O preto, eu não gosto, o verde e amarelo você sabe que são as cores do país e que não se prestam para esse tipo de divisionismo na vida brasileira. O preto é uma cor de mau agouro. Sabe que, de 64, eu ainda tenho sob os meus olhos aquelas mulheres de rosário na mão vestidas de preto falando em liberdade, defesa da democracia – e estavam escondendo atrás daquelas manifestações o monstro da ditadura.

quando muita gente boa dessa [Imprensa] fechava ou “autofechava” os seus jornais, o Brizola, modestamente lá, no microfone de uma rádio, procurava defender a liberdade de imprensa, violada por aquela gente, aqueles projetos de ditadores de 61. Eu acho que, de momento, a imprensa brasileira parece um partido único; isso não me agrada. Tomara que isso não venha trazer mau resultado, porque quando há partido único, nunca é bom. Veja o que aconteceu esses anos todos lá na União Soviética.

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nós temos o nosso rito, como tem a Constituição. Viemos de longe, temos o nosso tranco, luz própria, e vamos indo; estamos acompanhando, não queremos atropelo à ordem constitucional, à legalidade democrática; nos custou muito a restaurar isso; já vimos como isso começa e depois como termina. Então, tratamos de esvaziar o conteúdo golpista que havia nesse movimento.

Nós queremos fazer uma demonstração, um ato público de repúdio a qualquer tipo de golpismo em defesa da legalidade democrática, da intangibilidade da Constituição. Segundo, nós queremos as penas da lei para todos, para todos, não só para alguns, principalmente para os grandões que estão aí. Nós queremos colocar também no banco dos réus o senhor Roberto Marinho. Claro que com todo esse quadro de corrupção e de tráfico de influência que está caracterizando o governo, muito bem, se isso atingir, surgirem, se apresentarem acusações concretas ao presidente.

Então vamos cumprir com aquilo que achamos politicamente correto. Agora, sentimos muito que esteja ocorrendo tudo isso no país e lamentamos profundamente, porque o país em crise, o país em dificuldades, nosso povo sofrendo, veja o que está ocorrendo com o nosso país, com o nosso povo, e nós estamos aí preocupados com esse negócio. E o que eu vejo é o seguinte, quanta gente está aí bancando os doutrinadores para nós,

Eu acho que a mídia, a imprensa, tanto a escrita quanto o rádio e a televisão, têm feito uma campanha. Ontem ainda eu vi numa rádio, lá no Rio de Janeiro, irradiando diretamente de Brasília, que lá tinham se reunido 300 mil pessoas, em plena hora de manifestações noutros lugares no país, quer dizer, promovendo aquilo tudo. Quem não vê que a Globo agora está promovendo… A gente não sabe bem, povo brasileiro, vocês levem em consideração isso aí…

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Está agora, no mesmo partido único. Veja o seguinte: o povo brasileiro vê assim, e eu também vejo, olha e diz: a Veja quer tudo isso; aquele outro grande jornal quer tudo isso; a Globo quer tudo isso; o povo, na sua simplicidade, de tanto sofrer, de tanta decepção com a sua classe dirigente, com as suas elites, diz: bom, se é bom para eles, bom para nós não é. Isso é o raciocínio simples da população, pode crer. Eu, por exemplo, até como cidadão, me repugna a idéia de que a Veja faça a minha cabeça. Não reconheço, não reconheço estrutura moral nesse órgão para fazer a minha cabeça.

Então eu acho, francamente, que quando a gente tem uma consciência das coisas, eu sinto que a minha posição é correta. Mesmo porque eu tenho uma imagem perante o povo brasileiro, o povo brasileiro sabe que eu jamais o vendi, que eu jamais o traí, que eu jamais pratiquei um ato que seja contra ele. Então, o que eu desejo? Preservar as nossas liberdades. Eu estou vendo a luta desses brucutus, um quer derrubar o outro só para subir no lugar do outro. Eu não tenho a menor dúvida: derruba o atual governo, se nós não esclarecermos o povo brasileiro, através de discussões como esta que estamos tendo aqui, não esclarecermos o povo brasileiro,

Nós somos independentes, inteiramente independentes, e achamos que essa posição vai engrossar na vida brasileira. E o que nos distingue desses três partidos [PMDB, PT, PSDB] é que eles estão colocando coisa embaixo do tapete, nós não. Nós queremos passar o Brasil a limpo, a limpo. Se surgirem coisas concretas em relação ao presidente, nós não nos opomos a que se investiguem, absolutamente. Achamos até que se deve investigar.

11 comentários

  1. Um  dos  maiores políticos  

    Um  dos  maiores políticos    brasileiros  que  tivemos . Grande  e  venerável  Brizola. 

  2. e

    “E o que eu vejo é o seguinte, quanta gente está aí bancando os doutrinadores para nós,… “

    “O preto, eu não gosto, o verde e amarelo você sabe que são as cores do país e que não se prestam para esse tipo de divisionismo na vida brasileira. “

    “”O que eu desejo? Preservar as nossas liberdades. Eu estou vendo a luta desses brucutus, um quer derrubar o outro só para subir no lugar do outro”

    ” Nós queremos colocar também no banco dos réus o senhor Roberto Marinho. “

    “Eu, por exemplo, até como cidadão, me repugna a idéia de que a Veja faça a minha cabeça. Não reconheço, não reconheço estrutura moral nesse órgão para fazer a minha cabeça.”

    Precisa comn etar mais ?????????????

    Grande Leonel de Moura Brizola !!!!!!!!!!!!

  3. Nunca me esqueço que com o

    Nunca me esqueço que com o retorno de Brizola, e lgo depois sua candidatura à Presidência, disse no meu Trabalho que era nele que eu votaria, e fui quase ridicularizada por colegas que, na estupidz, o viam como um comunista, bem como os outros tantos anistiados, como henfil, Betinho, Darcy ribeiro, etc. Votei e ganhei meu voto.

    Enquanto os santinhos de tantos candidatos eram em colorido, o de Brizola parecia ter rodado em papel de jornal. A campanha dele não foi cara. Cara foi pra nós vermos a presença de Brizola, na companhia de pessoas como Darcy Ribeiro, e Niemeyer, engajados no projeto dos CIP’s, que tudo tinha pra estar até nossos dias cumprindo suas funções, não fosse aquele imbecil e ladrão do Moreira Franco, que simplesmente desprezou os diversos prédios das escolas, muitas delas vindo a servir de abrigo de trombadinas, se enchendo de mato pela falta de cuidados. Um dinheirão jogado no lixo.

    Eu, inclusive, tive muita alegria de morar na domingos Ferreira, bem pertinho do apartamento de Brizola na Av. Atlântica, e vi, no dia da votória, uma fila de táxi na avenida, porque todos os taxistas eram a favor do gaúcho. 

    Enfim, só aquele movimento pela legalidade, passando por cida de paus e pedras para tentar manter Jango no poder, foi uma das ações mais dignas de um político corajoso, que não se deixa abater nem mesmo pelas forças mais retrógradas e truculentas. Bateu na Globo até perto de morrer, porque já lá atrás via, e sentia como ninguém o qão perverso é o jornalismo dessas organizações, arranjadas pelos militares para se tornar monopolista e respaldo na perseguição dos vcivis inocentes, que não sujeitavam a viverem amordaçados.

    Sabe Deus o que hoje diria Brizola diante do quadro que se nos apresenta.

  4. O velho

    O velho quase sempre tinha razão…Aquilo tudo tinha muito de golpista..mesmo que tenha sido contra COLLOR,,

    O cara desenhava o futuro  está acontecendo de nvoo

  5. Lições do Faoro
     
    “Uma

    Lições do Faoro

     

    “Uma eleição congressual significa constituir um poder por força de uma representação constitucionalmente viciada. De qualquer modo, já que a previsão existe, em abstrato, fatalmente ocupará as fantasias dos conspiradores de sempre. Sobretudo se o governo falhar; se não falhar procurar-se-á fazer-lhe com que falhe, até pelo prazer de confirmar a profecia”.

    Trago isso, como triste recordação de um tempo de cegueira provocada pela velha mídia golpista que vivi. Somente ao ler o artigo semanal do grande jurista, que o lia todas as semanas, ressalve-se, mas, ao lê-lo na edição da IstoÉ 1.212, de 23/12/1992 e que abrir os olhos. E parei de estranhar Brizola.

    Não se constrói um plano de governo sem um projeto de poder. Não se exerce o poder tendo toda a opinião em contrário. Aprendam, “companheiros” do PT.

  6. Sim, Leonel Brizola foi

    Sim, Leonel Brizola foi grande, muito grande. Acima, muito acima, da média num estamento que se destaca por acoitar poltrões, covardes, vigaristas e mal-intencionados de todas as cepas. 

    Lembro-me bem o quanto foi escorraçado pela dita Esquerda dada, não a sua defesa do então presidente Collor, mas da democracia, da solidez das instituições, contra tornar reles o cargo de presidente da República enquanto Chefe de Estado e de Governo. Quem ouviu, assistiu e aplaudiu ontem na Câmara dos Deputados a brilhante peça de defesa do Chefe de AGU, José Eduardo Cardoso, talvez nem saiba que naquela retórica inspirada havia, com certeza, o “espírito” desse gaúcho da melhor cepa; desse maior injustiçado da história deste país. 

    Injustiça, vale ressaltar, que pouco ou nada o afetou, mas que privou o país do que seria efetivamente um grande estadista. Com muitos erros, sim, mas com virtudes, ações e visões incomparáveis. 

    Na vida pessoal, um franciscano. Por mais que a ditadura tenha revolvido TUDO, absolutamente tudo, até mesmos fronhas e lençóis, à busca de qualquer coisa para enquadrá-lo, humilhá-lo para assim desmistificá-lo, deu mesmo foi com os burros n’água. Assegurou-lhe foi um diploma de honestidade e lisura para todo o sempre. 

    De outras fontes, aqui nos referimos a VEJA e principalmente as Organizações Globo, foi vítima de perseguição implacável. Venceu, de goleada, a ambas. Aliás, para sermos mais exatos, humilhou Roberto Marinho naquele direito de resposta dado pela Justiça em função dos ataques vis e covardes que vinha sofrendo. 

    Ora, se um Juiz singular se atreveu a lhe dar ganho de causa, ou seja, a desfavor da então toda poderosa Globo, então aquela era mais que justa: era de clamor público. 

    Se vivo fosse hoje certamente iria cobrar do PT e de seus líderes a coerência política que tanto prezava. Fosse contemporâneo desses tempos miseráveis, de vácuos éticos e de brutal insensibilidade para com os interesses do país, teríamos uma referência, mesmo que no campo da esperança. Essa frente golpista de origem midiática-política-jurídica decerto teriam pela frente um “senhor” adversário. 

  7. Ai que saudade do meu Tatinha!

    Impressionante como seus, videos, entrevistas e textos são atuais! Ele era um visionário, praticamente um oráculo! Sou muito feliz por ter convivido com ele por 29 anos, meu Tata querido! Homem de carater, político de ideais. Nunca conhecí pessoa com tanto carisma, causava comoção nas pessoas, quase uma histeria! Legalidade é a palavra que o acompanhou a vida toda, comandou o último levante popular que fez alguma diferença, a Campanha da Legalidade, garantiu a posse do vice presidente Jango em 1961 evitando o golpe militar, que estava todo planejado para acontecer naquele momento.

    Collo caiu por ter financiado os CIACS, escolas nos modelos dos CIEPS, escolas de turno integral, com 3 refeiçoes, esportes e didatica avançada, seu projeto de vida. Dr. Roberto Marinho não aguentou ver seu candidato apoiando seu maior inimigo, as organizaçoes Globo elegeram o Collor e também o tiraram. 

    Tenho certeza que a Dilma pensa nele todos os dias, deve ter um altarzinho com suas fotos!

    Faz muita falta, pra mim e pro Brasil!

     

  8. Brizola

    Fui dirigente do PDT por 17 anos aqui em Cambuci, interior do Rio de Janeiro. Como Presidente de seu Partido, o trouxe aqui em Cambuci, quando o levei a conhecer nosso CIEP, nosso orgulho maior e símbolo de sua lembrança que permanece viva em nossas mentes. Foi lá que eele repetiu para todos nós, quando ele, somente ele via a magnitude daquela obra, ele disse:

    “É nessa escola que formaremos cidadãos e cidadãs que promoverão as reformas que esse País tanto precisa, mas que nós não tiveos a oportunidade nem a coragem de fazê-la”.

    Ainda volto a dirigir o PDT aqui em Cambuci, desde que ele volte a ser um Partido diferente dos existentes hoje, colocando a educação como prioridade maior e defenestrando de seus quadros os oportunistas que usufruem deste Partido, colocando seus intereses particulares acima dos interesses do povo.

     

  9. As forças me faltam.
    A falta

    As forças me faltam.

    A falta de fé idem.

    Embora continue na esperança de ver o povo salvo.

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