14 de junho de 2026

Famílias de mortos e desaparecidos políticos recebem certidões de óbito retificadas em Recife

A iniciativa atende a resoluções da CNV e CNJ, que em dezembro de 2024 determinou a retificação das certidões de óbito de 434 desaparecidos políticos em todo o país
Crédito: Raul Lansky/ MDHC

Familiares receberam certidões de óbito retificadas de vítimas da ditadura militar em cerimônia na OAB Pernambuco.
Evento marcou a 6ª edição da solenidade da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, com apoio do MDHC.
Foram entregues documentos corrigidos para 52 vítimas, incluindo o estudante Jonas Albuquerque, primeiro morto em PE.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Em cerimônia realizada na última sexta-feira (22/5) na sede da OAB de Pernambuco, familiares de vítimas da ditadura militar receberam as certidões de óbito retificadas de seus entes queridos, mortos ou desaparecidos por perseguição política entre 1964 e 1985.

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O evento, realizado no auditório “Fernando Santa Cruz”, foi a 6ª edição da solenidade promovida pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).

A iniciativa atende a resoluções da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que em dezembro de 2024 determinou a retificação das certidões de óbito de 434 desaparecidos políticos em todo o país. O ato foi organizado pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e reuniu familiares, amigos e autoridades em torno do direito à memória, à verdade e à reparação histórica.

A abertura contou com a interpretação de “O Bêbado e o Equilibrista”, um dos símbolos da Campanha pela Anistia, pelos músicos Jorge Simas e João Paulo Albertim.

“Nada trará seus entes queridos de volta”

A secretária-executiva do MDHC, Caroline Reis, reconheceu os limites simbólicos do ato, mas defendeu sua necessidade: afirmou que é fundamental que o Estado brasileiro admita os erros cometidos e promova momentos de reparação para garantir ao menos um mínimo de dignidade às famílias. Ela também ressaltou a conexão entre memória e democracia, alertando que não é possível defender direitos humanos sem regimes democráticos, e que é preciso seguir firmes para que os horrores do autoritarismo nunca sejam esquecidos.

A presidente da CEMDP, Eugênia Augusta Gonzaga, reforçou que as certidões não substituem a busca pelos corpos nem as medidas de justiça ainda pendentes no país, mas representam um passo importante. “Em nome de todos da comissão, quero que recebam, com esse documento, nossa solidariedade e o compromisso de seguirmos nessa luta por justiça, memória, verdade e reparação”, disse.

Histórias

Entre os familiares que receberam os documentos, Augusto Albuquerque buscou a certidão do irmão Jonas José de Albuquerque Barros, estudante secundarista de 17 anos assassinado pelo regime, a primeira vítima da ditadura em Pernambuco.

Augusto contou que, no dia do assassinato, seu pai tentou tirar a própria vida: o filho mais velho, então com 16 anos, precisou assumir as responsabilidades da família. Décadas depois, ele fez um apelo direto ao público. “Não podemos, de maneira alguma, permitir que isso volte a acontecer. Tortura nunca mais.”

Paula Teixeira recebeu a certidão em nome do avô João Pedro Teixeira, líder camponês assassinado por defender trabalhadores rurais. Ela lembrou que seu pai desenvolveu depressão e morreu jovem em razão dos impactos da perda, e prestou homenagem à avó Elisabeth Teixeira, que aos 101 anos segue engajada na luta por justiça, acompanhada de filhos, netos e bisnetos.

Amparo, viúva de Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo, líder da Ação Libertadora Nacional (ALN) assassinado em 1973, convidou o chefe da Assessoria de Defesa da Democracia do MDHC, Hamilton Pereira, ex-preso político e companheiro de militância de Luiz, para declamar um poema que escreveu em homenagem ao marido.

Terezinha Silva, irmã de Antônio Henrique Pereira Neto, expressou a preocupação da família com a desinformação sobre o período ditatorial entre os jovens. “Há muitas pessoas investindo recursos para influenciar a opinião pública, inclusive de jovens que não sabem o que foi uma ditadura. Por isso, precisamos divulgar que ditadura não é uma coisa boa.”

Retificação

A presidente da CEMDP revelou que o processo de retificação foi mais complexo do que o esperado. Ao analisar os documentos, a equipe descobriu que muitas certidões estavam incompletas, sem nacionalidade, estado civil ou outros dados básicos. “Eram certidões praticamente de desaparecimento, porque continham, às vezes, apenas o nome e a declaração da morte nos termos da lei”, explicou Eugênia. A decisão foi refazer tudo do zero, preenchendo cada documento com todas as informações disponíveis.

O secretário-geral da OAB, Cláudio Ferreira, presidiu a cerimônia e destacou a escolha do local. “A realização da cerimônia aqui na OAB, a Casa da Cidadania, carrega uma simbologia muito forte ao demonstrar que é a ação da sociedade civil organizada que permite o avanço da luta por memória e verdade.”

Na cerimônia realizada em Pernambuco, foram entregues as certidões de:

  1. Albertino José de Farias
  2. Almir Custódio de Lima
  3. Amaro Felix Pereira
  4. Amaro Luiz de Carvalho
  5. Antônio Ferreira Pinto
  6. Antônio Henrique Pereira Neto
  7. Dilermano Mello do Nascimento
  8. Eduardo Collier Filho
  9. Evaldo Luiz Ferreira de Souza
    10.Ezequias Bezerra da Rocha
    11.Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira
    12.Francisco das Chagas Pereira
    13.Gastone Lúcia de Carvalho Beltrão
    14.Ivan Rocha Aguiar
    15.Jarbas Pereira Marques
    16.João Alfredo Dias
    17.João Lucas Alves
    18.João Massena Melo
    19.João Mendes Araújo
    20.João Pedro Teixeira
    21.João Roberto Borges de Souza
    22.Jonas José de Albuquerque Barros
    23.José Bartolomeu Rodrigues de Souza
    24.José Dalmo Guimarães Lins
    25.José Gomes Teixeira
    26.José Inocêncio Barreto
    27.José Manoel da Silva
    28.José Milton Barbosa
    29.José Raimundo da Costa
    30.Juarez Rodrigues Coelho
    31.Lourdes Maria Wanderley Pontes
    32.Luís Alberto Andrade de Sá e Benevides
    33.Luiz Almeida Araújo
    34.Luiz Gonzaga dos Santos
    35.Luiz José da Cunha
    36.Manoel Fiel Filho
    37.Manoel Lisbôa de Moura
    38.Marcos Antônio da Silva Lima
    39.Margarida Maria Alves
    40.Mariano Joaquim da Silva
    41.Miriam Lopes Verbena
    42.Newton Eduardo de Oliveira
    43.Odijas Carvalho de Souza
    44.Pedro Inácio de Araújo
    45.Ramires Maranhão do Valle
    46.Ranúsia Alves Rodrigues
    47.Ruy Frasão Soares
    48.Severino Elias de Mello
    49.Severino Viana Colou
    50.Soledad Barrett Viedma
    51.Túlio Roberto Cardoso Quintiliano
    52.Umberto de Albuquerque Câmara Neto

*Com informações da Agência Brasil.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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