Helena de Lima: como é bonita a vida, por Etel Frota

Helena de Lima faleceu na última quarta-feira (16/5), no Rio de Janeiro, por causas naturais. Seguir sua trajetória é empreender uma viagem à noite carioca dos anos 1950 e 60

Montagem Rádio Sat FM

Helena de Lima: como é bonita a vida

por Etel Frota

 Em 17 de maio de 2017, no dia exato em que completava 91 anos, Helena de Lima comemorou o aniversário com show lotado em um piano bar no Leblon, Rio de Janeiro.

 “Os tons em que ela canta hoje são os mesmos de 50 anos atrás. É impressionante”, dizia, na plateia, o jornalista, historiador e crítico musical Rodrigo Faour. “É uma ‘última de série’, tem um estilo que vai morrer com ela”.

Um ano antes o jornalista Ruy Castro estivera na festa dos 90, celebrando sua “Helena eterna”. “Com as letras na ponta da língua, ela leva as notas onde quer, sustenta-as lá no alto e só as deixa cair aos poucos e com total controle. Nunca vi igual em sua idade”.

Helena de Lima faleceu na última quarta-feira (16/5), no Rio de Janeiro, por causas naturais. Seguir sua trajetória é empreender uma viagem à noite carioca dos anos 1950 e 60. Desde sua estreia, em 1948, no programa de César Ladeira, na Rádio Nacional, pontificou nas mais prestigiosas casas noturnas da época. Cantou no Copacabana Palace, no Bacará -onde dividiu o palco com Dolores Duran-, no lendário Beco das Garrafas, nas boates Pigalle, Plaza, Acapulco e Drink.

Na plateia da Jirau, o ardoroso fã Ary Barroso era presença constante. Na icônica Oásis (um porão do edifício Ester, na Praça da República em São Paulo) protagonizou longa temporada. Durante dez anos, acompanhada do Conjunto Cangaceiro (Raul Mascarenhas, Rildo Hora, Papão e Muxiba) foi a concorridíssima atração da boate que levava o nome da banda.

Nascida em 1926, no bairro do Catete (Rio de Janeiro), filha caçula do garçom Alfredo Vítor e da dona de casa Maria Francisca, Helena nunca teve a menor dúvida de que a música seria a razão de sua vida. “Sempre fui apaixonada e decidida. A minha família não se opôs à minha carreira; eram meus fãs e incentivadores”, afirmou em entrevista a Thaís Matarazzo.

Marina Teixeira, 74, socióloga paraense que vive no Rio de Janeiro desde a adolescência, conta que “era fã de Elizeth Cardoso; meu pai, de Helena de Lima. Eu tinha 16 anos e meu pai me levou à boate Cangaceiro, querendo me mostrar os motivos de sua preferência. Foi um caso de paixão. No final do show, fomos cumprimentá-la. Ela me abraçou e disse: ‘Agora você é minha filha’”. Nunca mais se perderam de vista e Marina acabou por se tornar uma curadora informal da obra de Helena, que nunca se casou ou teve filhos, apesar de ter vivido “alguns relacionamentos sérios, sempre estava perdidamente apaixonada”.

Helena de Lima gravou 34 discos, desde o primeiro lançamento em em 78 RPM, “Bodocongó”/ “Ó, que tá bom, tá” [parcerias de Humberto Teixeira com, respectivamente, Cícero Nunes e Lauro Maia, 1950], até o último de carreira, em 1975, . Depois de 2000, teve três desses álbuns relançados. Viria a gravar seus dois únicos registros diretamente em mídia digital em 2007 (o CD “Sentimentos) e em 2015 (um DVD com sua participação no projeto “Encontro com as Estrelas”), ambos produções afetivas, independentes, de Marina Teixeira. Uma discografia modesta para aquela a quem César Ladeira, o rei das alcunhas, chamava de “A Dona da Noite”. Para traçar um paralelo, Elizeth Cardoso, sua contemporânea de discografia, lançou, em vida, 111 álbuns.

 Marina Teixeira tem uma hipótese para explicar esse fato. “Com o samba canção deixando de ser o must, foi com grande esforço que conseguimos convencê-la a cantar novos compositores”. Helena acabou incorporando ao seu repertório canções de Chico Buarque, Dori Caymmi, Nelson Motta, Cristóvão Bastos, mas de maneira pontual. “Eu a vi se recusando a cantar uma canção por causa de uma palavra de que não gostava. Ela sempre se importou mais com cantar do que com fazer sucesso. Não foi uma cantora de rádio ou de disco”, completa. A própria artista declarou à Revista do Rádio, em 1964: “Prefiro os aplausos de meia dúzia de pessoas à consagração artificial dos auditórios de rádio. As pessoas da madrugada são mais sinceras”.

Ao longo da carreira, Helena compôs três canções em parcerias: “Não há de quê” (com Marino Pinto e Mário Rossi, 1956), “Ausência” (com Maria Eugênia, 1958) e “Sinfonia do Carnaval” (com Concessa Lacerda, 1964). Mas sua grande performance foi mesmo como intérprete: Luiz Antonio e Fernando César confessavam compor já pensando nela. Foi a primeira a gravar, em 1962, a pedido do compositor Paulo Soledade, a antológica “Estão Voltando as Flores” (1962), que veio a ser o seu maior sucesso.

A carreira, centrada no palco, entrou em declínio a partir do final dos anos 1980. A cantora passou por dificuldades econômicas. Foi um período irregular, de apresentações esporádicas, contratadas, em clubes e jantares particulares. Em meados dos anos 1990, um grupo de pessoas próximas se organizou para ajudá-la a formalizar sua aposentadoria e reconduzi-la aos shows.

Subiu novamente ao palco em 1997, com o suporte afetivo e efetivo dos amigos, a “riqueza” que dizia ter amealhado na vida. “Amizade é patrimônio, não?”, declarou ao Museu da Pessoa. Manteve-se cantando e pode sustentar-se, condignamente, até 2013.

Aos 87 anos, a memória começou a falhar para os fatos prosaicos da vida, nunca para as letras das canções. “Canto sem dália [cartão com as letras das canções]”, repetia sempre, orgulhosa, relata Marina. Foi viver no Retiro dos Artistas, onde -segundo seu depoimento ao Bonde Alegria– foi imensamente feliz. “Pelo poder da música, aqui reencontrei amigos”.

Marina Teixeira levou até o final a sua missão de filha adotada pelo espaçoso coração de Helena de Lima. Nos últimos anos, foi às custas de campanhas de financiamento coletivo que as crescentes demandas para a manutenção da cantora foram supridas.

Em 2021, artistas e plateias confinadas, os 95 anos mereceram um tributo do projeto ‘80 Homenagens Áureas’, na live em que intérpretes de diversas gerações cantaram canções do seu repertório.

No início deste 2022, conta Marina, “pude ir visitá-la, depois de dois anos acompanhando-a somente por zap e telefone. Infelizmente a pandemia foi muito desastrosa para ela também”. A deterioração da memória avançara e seu vigor físico estava cedendo às dificuldades de alimentação e locomoção.

Ainda assim, recorda a filha postiça, até há poucas semanas, vez por outra uma das cuidadoras lhe telefonava, perguntando quem era Fernando César ou Luiz Antônio, com quem Helena passara horas “de papo, cantando as músicas deles”. Outras vezes, o interlocutor do dia era Cauby. Ou Roberto Carlos. Certa manhã uma delas contou que “não dormimos esta noite, ela está no passado, feliz e carinhosa, cantando ‘As rosas não falam’”.

A Dona da Noite calou sua voz última de série “em sua casinha dos últimos anos, no Retiro dos Artistas, durante o sono”. Um fã mais extremado afirmaria que é o destino reservado aos bons e justos. No dia seguinte, teria completado 96 anos. 

DISCOGRAFIA

1950 – Bodocongó / Oi Que Tá Bom Tá – 78 RPM (Todamérica)

1950 – Martírio / Cachopa – 78 RPM (Todamérica)

1951 – Baião do Salvador / Feliz Matrimônio – 78 RPM (Todamérica)

1952 – Vamos Balancear / Samba Que Eu Quero Ver – 78 RPM (Continental)

1956 – Coração Atenção / Prece – 78 RPM (Continental)

1956 – Dentro da Noite – LP (Continental)

1958 – Ausência / Por Causa De Você – 78 RPM (Continental)

1958 – Prece / Nunca É Tarde – 78 RPM (Continental)

1958 – Vale a Pena Ouvir Helena – LP (Continental)

1969 – relançamento – LP (Discolar)

2006 – reedição –  Coleção ‘As Divas’ – CD  (Warner)

1961 – A Voz e o Sorriso de Helena de Lima – LP (RGE)

1961 – De Agosto A Setembro / Notícia de Jornal – 78 RPM (RGE)

1961 – Pierrô / Pedro Das Flores – 78 RPM (RGE)

1961 – Pedro das Flores – Compacto Duplo (RGE)

1961 – Vestida de Adeus – Compacto Duplo (RGE)

1961 – Estão Voltando As Flores / Fiz O Bobão – 78 RPM (Mocambo)

1962 – O Céu Que Vem de Você – LP (RGE)

1963 – Só – LP (RGE)

1963 – Quando a Saudade Chegar – LP (RGE)

1963 – Um Milhão por Uma Canção  (participação em coletânea)- LP (Phillips)

Sem Data – Helena… A Dona da Noite – Compacto Duplo (RGE)

1964  – Seleção de Sambas – Sinfonia do Carnaval (RGE)

1964 – Uma Noite no Cangaceiro – LP (RGE)

2006 – reedição – CD (RGE Clássicos/ Som Livre)

1965 – Outra noite no Cangaceiro (Bar Cangaceiro) – LP (RGE)

Sem Data – Parabéns, Rio / Oitavo Botequim – Compacto (RGE)

1966 – De Helena de Lima aos Seus Amigos – LP (RGE)

1967 – Máscara Negra / Mais Um Triste Carnaval – Compacto (RGE)

Sem Data  – Salto Na Eternidade / Volta Meu Bem – Compacto (RGE)

Sem Data  – HELENA DE LIMA – Compacto Duplo (RGE)

1968 – Helena de Lima e Banda da Polícia Militar do Estado da Guanabara LP (RGE)

Sem Data  – Pierrot Em 4 Tempos – Compacto Duplo (RGE)

1969 – Uma Noite no Drink – LP (RCA Victor)

1969 – HELENA DE LIMA – Compacto Duplo (RCA Victor)

1970 – Helena de Lima e Adeílton Alves cantam Ataulfo Alves – LP (MIS)

1975 – É Breve O Tempo das Rosas – LP (Tapecar)

2000 – reedição – CD (EMI /Copacabana Records)

2007 – Helena de Lima (Série Grandes Vozes) – CD (Som Livre)

2007 – Sentimentos – CD (Produção independente/Marina Sidrim Teixeira)

2015 – Projeto Encontro com as Estrelas apresenta Helena de Lima – DVD (Produção independente/Marina Sidrim Teixeira)

Fontes:

Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

Folha de S.Paulo

www.cantorasdobrasil.com.br

www.cliquemusic.uol.com.br

http://www.discosvinil.com.br

https://brazilliance.wordpress.com

http://rodrigofaour.com.br/

“Vozes do Brasil” – Thaís Matarazzo

Marina Sidrim Teixeira – acervo particular

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

AMBAR

- 2022-05-24 00:11:49

Ao lado de Elizeth Cardoso, Helena de Lima é uma das mais lindas vozes que já ouvi. Seguirei ouvindo e agradecendo a sua existência.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador