Jô Soares Sempre, por Jorge Alberto Benitz

Jô, sem cair na vala do senso comum, conseguia atingir desde os telespectadores mais humildes até os mais intelectualizados

Jô Soares. Foto: Reprodução/Instagram/@flavia_pedras

Jô Soares Sempre

por Jorge Alberto Benitz*

Qualquer um com a popularidade dele, Jô Soares, tanto no chamado povão como nos meios intelectuais poderia muito bem “perder o chão” e cair no puro esnobismo que acomete até artistas e subartistas menos talentosos que lembram aquele personagem o Bozó, do outro gênio brasileiro da comédia, Chico Anysio, que se deleitava narcisicamente, ao se anunciar para qualquer um que “trabalhava na Globo”.  Não foi o seu caso. Ele sempre manteve os pés no chão, não se afetando a ponto de  prejudicar a sua atuação como artista ou como cidadão consciente politicamente ligado aos acontecimentos em curso.

No entanto, mesmo fazendo concessões passiveis de crítica, como no tempo em que foi convocado, junto com outros artistas,  pela TV Globo para participar da Festa da Uva em Caxias do Sul prestigiando a ditadura ou quando, nos governos FHC e Lula,  incorporou o espirito neoliberal “global” e criticava Lula e PT de modo quase incondicional, ele conseguiu manter importante vinculo ao espirito democrático quando escreveu no Pasquim o artigo “A Cama”, sendo por isso processado pelo Ministro da Justiça da ditadura, o famigerado Alfredo Buzaid; ao acolher e esconder  na sua casa  o então perseguido político pela já antes referida ditadura, Mario Schemberg, físico brasileiro de prestigio internacional,  e, mais recentemente,  ao se posicionar desde o primeiro momento contra o governo de Bolsonaro e a favor da democracia, tendo, inclusive, sofrido ataques feitos pela extrema direita com pichações de sua casa,  por esta postura.

Artisticamente, ele era especial. Como o Chico Anysio, ele fazia um humor que atingia todos os andares da sociedade. No tempo do Show do Gordo que se constituía de  quadros com bordões contendo criticas políticas e de costumes, Jô, sem cair na vala do senso comum, conseguia atingir desde os telespectadores mais humildes até os mais intelectualizados. Fórmula que hoje, tempo pautado pelas bolhas na internet, parece que se perdeu ou foi deixada de lado pelos meios de comunicação em benefício de receitas mais popularescas e toscas tipo Zorra Total e similares. Depois com as entrevistas, copiada antropofagicamente dos Talk Show americanos Johnny Carson, David Letterman, ele mostrou o quanto era multitalentoso.  O antropofágico vai aqui por conta da ideia oswaldoandradiana de canibalizarmos o que vem de fora e darmos nosso toque brasileiro. Ideia que cabe muito bem para o caso da copia feita por Jô dos programas Talk Show americanos.  

Fui seu fã de carteirinha desde sempre. Sem, no entanto, deixar de critica-ló quando percebia algo passível de crítica. Inclusive, escrevi artigos que foram publicados no Observatório da Imprensa na época,  criticando ele, pontualmente, ou as “As Meninas do Jô”. Não sem antes ressalvar que o admirava.

Às vezes, ele se excedia, o que é normal, quando ficava tentando querer brilhar mais do que o entrevistado. Outras vezes, ele se rendia ao carisma deste último, como na entrevista com o cantor brega Reginaldo Rossi que tomou conta do programa com sua forte personalidade  e Jô deixou rolar. No geral, ele era brilhante, tirando o melhor do entrevistado, tornou agradáveis e deliciosas minhas madrugadas e, suponho, de muitos outros admiradores dele,  como eu. 

*Jorge Alberto Benitz é engenheiro e escritor.

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