21 de junho de 2026

Morre Angelita Habr-Gama, referência mundial no tratamento do câncer de reto

Médica de 92 anos acumulou mais de 50 prêmios, foi reconhecida por Stanford e criou protocolo adotado mundialmente
Crédito: Reprodução/ Youtube

Morreu em São Paulo a médica Angelita Habr-Gama, referência mundial em coloproctologia, aos 92 anos.
Ela criou o protocolo Watch and Wait para câncer de reto, incorporado em diretrizes americanas em 2024.
Foi a primeira mulher professora titular de cirurgia na USP e atuou no tratamento de Tancredo Neves.

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Morreu neste sábado (30), em São Paulo, a médica e pesquisadora Angelita Habr-Gama, aos 92 anos. Referência mundial em coloproctologia e uma das cientistas mais premiadas do Brasil, ela estava internada desde 6 de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, instituição da qual fazia parte do corpo clínico desde 1980. A causa da morte não foi divulgada.

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Ao longo de mais de seis décadas de carreira, Angelita acumulou conquistas que definiram marcos na medicina brasileira e internacional. Foi a primeira mulher a se tornar professora titular de uma especialidade cirúrgica na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), a primeira brasileira aceita como membro honorário da centenária American Surgical Association e a primeira mulher no mundo a receber a medalha Bigelow, em 2023, concedida pela Sociedade de Cirurgia de Boston a cirurgiões com contribuição destacada ao progresso científico.

Publicou centenas de trabalhos, ganhou mais de 50 prêmios nacionais e internacionais e foi listada pela revista Forbes entre as mulheres mais influentes do Brasil.

Nascida na Ilha de Marajó, no Pará, filha de imigrantes libaneses, Angelita chegou a São Paulo aos 6 anos, em 1939, após a morte do irmão Nader por apendicite. Ao decidir cursar Medicina, precisou contornar a resistência do pai, que preferia vê-la como professora. Insistiu, foi aprovada em 1952 para a FMUSP e, ao término da graduação, enfrentou novo obstáculo ao tentar ingressar na residência em cirurgia.

“O chefe que escolhia o pessoal me falou: ‘são só oito vagas, você vai casar, ter filhos, esquecer a cirurgia e vai ter ocupado a vaga de um rapaz'”, contou em entrevista ao Estadão. Ela não aceitou. Argumentou seu desempenho acadêmico, conseguiu participar do processo seletivo por intervenção do diretor da faculdade e passou em primeiro lugar em 1957, tornando-se a primeira mulher a fazer residência em cirurgia no Hospital das Clínicas da USP.

Ao fim da residência, decidiu se especializar em cirurgia do intestino e tentou um estágio no Hospital St. Marks, em Londres, único no mundo focado na especialidade à época. Foi rejeitada porque a instituição não aceitava mulheres. Não desistiu. Enviou cartas sucessivas, com recomendações de professores, até ser aceita em 1962, tornando-se a primeira mulher admitida no hospital. “Escrevi: ‘Não se preocupem, pois vocês irão gostar de mim. Sou um tipo diferente do que vocês estão acostumados'”, recordou.

Contribuição

De volta ao Brasil, Angelita retomou o trabalho no Hospital das Clínicas da FMUSP, chefiou o Departamento de Cirurgia, sendo a primeira mulher a ocupar o cargo, e atuou para que o Ministério da Educação reconhecesse a coloproctologia como especialidade autônoma, separada da cirurgia digestiva.

Na década de 1990, criou o protocolo conhecido como Watch and Wait (observar e esperar). A abordagem propunha que, em vez de operar imediatamente todos os pacientes com câncer de reto, se utilizasse quimioterapia e radioterapia previamente. Caso os exames subsequentes não detectassem mais a lesão, a cirurgia seria dispensada. A pesquisa de Angelita demonstrou que, em muitos casos, a doença desaparecia completamente — evitando procedimentos que frequentemente resultavam na remoção do reto e do esfíncter e no uso permanente de bolsa de colostomia.

Em 2024, o protocolo foi incorporado às diretrizes americanas da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco) para tratamento de câncer de reto avançado, a primeira vez que as diretrizes incluíram contribuições de médicos latino-americanos.

Angelita também integrou a equipe médica que cuidou de Tancredo Neves, foi a única mulher no grupo e foi ela quem comunicou à família que não havia mais esperanças. Em 2022, após sobreviver a 50 dias internada em UTI por covid-19, foi reconhecida pela Universidade de Stanford entre os 2% de cientistas que mais contribuíram para o desenvolvimento da ciência no mundo.

O Hospital Alemão Oswaldo Cruz manifestou pesar pela morte. “Perdemos uma grande profissional e uma colega de quem sempre iremos nos lembrar com respeito, gratidão, carinho e admiração”, disse a instituição em nota.

Sobre sua trajetória, Angelita costumava ser direta. “Eu sempre trabalhei por gosto e prazer. O sucesso foi uma consequência da dedicação ao trabalho. As medalhas vêm, mas não mudam a minha maneira de ser.”

*Com informações do Estadão e g1.

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Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É repórter do GGN desde 2022.

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