Morto ontem, Washington Olivetto foi o mais brilhante publicitário no apogeu das agências de publicidade, período em que eram mais famosas do que os próprios produtos que vendiam. Quem assistiu a série “Mad Men” poderá ter uma ideia pálida do que significaram as agências nos anos 70 e 80.
Houve muitos publicitários incensados. Nenhum como Olivetto. Campanhas como o “garoto Bombril”, “o primeiro sutiã a gente nunca esquece”, “é possível contar uma mentira, dizendo só a verdade”, mostravam um poeta da publicidade, alguém que conseguia extrair, em uma frase, questões que impactaram toda a sociedade.
Mas, o poeta sensível era também uma pessoa insegura. Brilhou sozinho durante muito tempo, juntando a enorme criatividade a uma visibilidade única no setor. Outros publicitários igualmente brilhantes não conseguiam um décimo da sua exposição. Em parte graças ao seu envolvimento com temas que falavam caro a um país que pretendia se democratizar, como sua participação no movimento da Democracia Corintiana, transformando-a em uma marca reconhecida nacionalmente.
Esse reinado foi absoluto até o aparecimento de Nizan Guanaes, o baiano brilhante que ascendeu à publicidade dando cotoveladas a torto e a direito.
Suas disputas tornaram-se tema até maior que suas campanhas.
A grande disputa foi o mercado de cervejas, com Olivetto fazendo campanhas para a Antárctica e Nizan para a Brahma. Olivetto explorava a imagem de Adoniran Barbosa, da confraternização: “Nós viemos aqui para beber ou confraternizar?”. E também a imagem dos pinguins, símbolo da Antárctica.
Ja Nizan tentava identificar o consumidor da Brahma como “o sujeito da sorte”.
Acompanhei de perto a disputa de ambos porque, na época, meu programa Dinheiro Vivo, na TV Gazeta, era o único que se destinava ao mercado e ao mundo empresarial. Um Olivetto algo angustiado me deu uma entrevista explicando suas campanhas.
Nos meses seguintes, a Brahma comprou a Antárctica, vindo, em seguida, uma enorme coleção de campanha icônicas, de Nizan, como Ray Charles cantando com Daniela Mercury. Nizan se impôs, com uma capacidade de auto-promoção fantástica também.
Ficou a impressão de que Nizan destronara Olivetto do posto de maior publicitário brasileiro – uma bobagem injusta com dois grandes criadores. Logo em seguida, Olivetto foi alvo de um sequestro que o abalaria profundamente.
Morto, fica o reconhecimento: de fato, foi o mais criativo publicitário da fase mais criativa da publicidade brasileira.
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Luiz Fernando Juncal Gomes
14 de outubro de 2024 4:13 pm“ ALO ALO, DABLIÚ BRASIL, ALO ALO, DABLIÚ BRASIL”
TANTO – @tantotupiassu – Pelo Twitter – 14.10.2024
Das histórias que mais gosto da MPB. Belo dia, Washington Olivetto chamou seu grande amigo, Jorge Ben Jor, para cantar na festa de final de ano da sua firma. Essa festa nos deu uma das músicas mais bacanas do Brasil, e tudo no improviso.
Eram os anos 90 e o Brasil estava um caos. Findou ditadura, morreu Tancredo, assumiu Sarney, elegeu Collor, poupanças confiscadas, denúncias de corrupção. E Jorge Ben na festa do Olivetto, com sua alegria de sempre, começa a brincar com os empregados da W/Brasil.
Entre as músicas, ele cantava, “ ALO ALO, DABLIÚ BRASIL, ALO ALO, DABLIÚ BRASIL” E a banda acompanhava e improvisava a melodia… baita conexão. Depois que o show acabou, Jorge Ben sentou com o Olivetto e amigos, e o papo rolou solto.
Num determinado momento, após todos terem expressado suas preocupações com o Brasil, que estava uma loucura, Washington Olivetto disse: – Rapaz, se o Brasil fosse um condomínio, o síndico ia ser o Tim Maia… E isso deu um estalo no Jorge Ben Jor.
Porque Tim Maia e Jorge Ben era muito amigos, tinham até o mesmo apelido: Bubulina.
E uma vez, quando Jorge foi visitar Tim no seu prédio, na Barra, Tim quase tropeçou numa escada no meio do caminho.
Indignado, Tim falou que se fosse síndico daquela bagunça nada estaria assim, o prédio estaria muito bem organizado. Jorge Ben contou aquela história na festa da W/Brasil, e nada daquilo saiu da sua cabeça.
Dito e feito:
Em 1991 Jorge Ben Jor lança W/Brasil (Chama o Síndico), uma música que começou numa brincadeira de festa de firma, numa conversa de mesa de festa, e que acabou cheia de significados e referências.
Jacarezinho
Avião
Jacarezinho
Avião Cuidado com o disco voador
(Avião e disco voador eram os moleques que transportavam drogas no Jacarezinho)
Tire essa escada daí Essa escada é pra ficar aqui fora
Eu vou chamar o síndico
Tim Maia
Deu no New York Times
Fernando, o Belo, não sabe se vai participar
Do próximo campeonato de surf ferroviário
Surfista de trem
Surfista de trem
(Fernando, o Belo, era o Collor e seu elitismo, comparado com Dom Fernando I de Portugal, conhecido pela beleza, imoralidade e vaidade)
Deu no New York Times
A Feira de Acari é um sucesso
Tem de tudo
É um mistério
(A Feira do Acari era famosa por vender todo o tipo de produtos, incluindo produtos roubados ou furtados)
Deu no New York Times
Dizem que Cabral I descobriu a filial
Dizem que Cabral II tentou e se deu mal
(Cabral I era o Pedro. Cabral II era o ministro Bernardo Cabral, que renunciou ao cargo pela descoberta de caso extraconjugal com a então Ministra da Economia, Zelia Cardoso)
Lá da rampa, mandaram avisar
Que todo dinheiro será devolvido
Quando setembro chegar
Num envelope azul indigo
(Fala do confisco das poupanças ocorrido em março de 1990. Setembro de 1991 era o prazo para a devolução dos valores, o que não aconteceu. A rampa, a do Planalto)
Washington Olivetto, que sem querer participou da composição de W/Brasil, morreu neste domingo, 13/10, aos 73 anos.
Foi uma das maiores mentes da publicidade brasileira. E inspirava os amigos.
https://x.com/tantotupiassu/status/1845816807367618972
Maria Olimpia
14 de outubro de 2024 7:44 pmLuiz Fernando, que baita e belo comentário!
Luiz
14 de outubro de 2024 5:04 pmSem saudosismos, mas a gente era feliz no break da TV aberta e não sabia. As peças eram memoráveis, a exemplo das campanhas do Bamerindus no Natal, Varig – Varig – Varig com a genialidade a serviço da publicidade. Olivetto escreveu até coluna falando do marasmo das agências no Globo neste ano, creio que em junho. Criticou as agências por perderem a inovação e produzirem peças em busca de prêmios. Neste pais tudo muda para pior e será sempre assim a lembrar a citação do Ulysses Guimarães sobre a ruindade do Congresso a cada legislatura. Tempos difíceis.
Jicxjo
15 de outubro de 2024 11:50 amSÃO PAULO, POR WASHINGTON OLIVETTO
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Alguns dos meus queridos amigos cariocas têm mania de achar São Paulo parecida com Nova York.
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Discordo deles. Só acha São Paulo parecida com Nova York quem não conhece bem a cidade. Ou melhor, quem a conhece superficialmente e imagina que São Paulo seja apenas uma imensa Rua Oscar Freire.
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Na verdade, o grande fascínio de São Paulo é parecer-se com muitas cidades ao mesmo tempo e, por isso mesmo, não se parecer com nenhuma.
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São Paulo, entre muitas outras parecenças, se parece com Paris no Largo do Arouche, Salvador na Estação do Brás, Tóquio na Liberdade, Roma ao lado do Teatro Municipal, Munique em Santo Amaro, Lisboa no Pari, com o Soho londrino na Vila Madalena e com a pernambucana Olinda na Freguesia do Ó.
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São Paulo é um somatório de qualidades e defeitos, alegrias e tristezas, festejos e tragédias. Tem hotéis de luxo, como o Fasano, o Emiliano e o L’Hotel, mas também tem gente dormindo embaixo das pontes. Tem o deslumbrante pôr-do-sol do Alto de Pinheiros e a exuberante vegetação da Cantareira, mas também tem o ar mais poluído do país. Promove shows dos Rolling Stones e do U2, mas também promove acidentes como o da cratera do metrô e o do avião da TAM em Congonhas.
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São Paulo é sempre surpreendente. Um grupo de meia dúzia de paulistanos significa um italiano, um japonês, um baiano, um chinês, um curitibano e um alemão.
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São Paulo é realmente curiosa. Por exemplo: tem diversos grandes times de futebol, sendo que um deles leva o nome da própria cidade e recebeu o apelido “o mais querido”. Mas, na verdade, o maior e o mais querido é o Corinthians, que tem nome inglês, fica perto da Portuguesa e foi fundado por italianos, igualzinho ao seu inimigo de estimação, o Palmeiras. São Paulo nasceu dos santos padres jesuítas, em 1554, mas chegou a 2007 tendo como celebridade o permissivo Oscar Maroni, do afamado Bahamas.
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São Paulo já foi chamada de “o túmulo do samba” por Vinicius de Moraes, coisa que Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini e Germano Mathias provaram não ser verdade, e, apesar da deselegância discreta de suas meninas, corretamente constatada por Caetano Veloso,
produziu chiques, como Dener Pamplona de Abreu e Gloria Kalil.
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São Paulo faz pizzas melhores que as de Nápoles, sushis melhores que os de Tóquio, lagareiras melhores que as de Lisboa e pastéis de feira melhores que os de Paris, até porque em Paris não existem pastéis, muito menos os de feira.
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Em alguns momentos, São Paulo se acha o máximo, em outros um horror. Nenhum lugar do planeta é tão maniqueísta.
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São Paulo teve o bom senso de imitar os botequins cariocas, e agora são os cariocas que andam imitando as suas imitações paulistanas.
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São Paulo teve o mau senso de ser a primeira cidade brasileira a importar a CowParade, uma colonizada e pavorosa manifestação de subarte urbana, e agora o Rio faz o mesmo.
São Paulo se poluiu visualmente com a CowParade, mas se despoluiu com o Projeto Cidade Limpa. Agora tem de começar urgentemente a despoluir o Tietê para valer, coisa que os ingleses já provaram ser perfeitamente possível com o Tâmisa.
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Mesmo despoluindo o Tietê, mantendo a cidade limpa, purificando o ar, organizando o mobiliário urbano, regulamentando os projetos arquitetônicos, diminuindo as invasões sonoras e melhorando o tráfego, São Paulo jamais será uma cidade belíssima. Porque a beleza de São Paulo não é fruto da mamãe natureza, é fruto do trabalho do homem. Reside, principalmente, nas inúmeras oportunidades que a cidade oferece, no clima de excitação permanente, na mescla de raças e classes sociais.
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São Paulo é a cidade em que a democratização da beleza, fenômeno gerado pela miscigenação, melhor se manifesta.
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São Paulo é uma cidade em que o corpo e as mãos do homem trabalharam direitinho, coisa que se reconhece observando as meninas que circulam pelas ruas. E se confirma analisando obras como o Pátio do Colégio (local de fundação da cidade), a Estação da Luz (onde hoje fica o Museu da Língua Portuguesa), o Mosteiro de São Bento, a Oca, no Parque do Ibirapuera, o Terraço Itália, a Avenida Paulista, o Sesc Pompéia, o palacete Vila Penteado, o Masp, o Memorial da América Latina, a Santa Casa de Misericórdia, a Pinacoteca e mais uma infinidade de lugares desta cidade que não pode parar, até porque tem mais carros do que estacionamentos.
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São Paulo não é geograficamente linda, não tem mares azuis, areias brancas nem montanhas recortadas. Nossa surfista mais famosa é a Bruna, e nossos alpinistas, na maioria, são sociais. Mas, mesmo se levarmos o julgamento para o quesito das belezas naturais, São Paulo se dá mundialmente muito bem por uma razão tecnicamente comprovada. Entre as maiores cidades do mundo, como Tóquio, Nova York e Cidade do México, em matéria de proximidade da beleza, São Paulo é, disparado, a melhor. Porque é a única que fica a apenas 45 minutos de vôo do Rio de Janeiro.
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Fonte: https://claudiamanhaes.wordpress.com/2008/05/06/sao-paulo-por-washington-olivetto/
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(Lembro-me também de ter lido esse artigo à época no Observatório da Imprensa, mas não o encontrei mais. Se alguém tiver uma fonte melhor, compartilhe – cuidado, contudo, pois circulam muitas versões adulteradas na internet)