10 pautas que a grande mídia tentou abafar em 2017

 
Jornal GGN – Algumas pautas de política em 2017 renderiam um “troféu abafa” para jornais da grande mídia, dado o esforço que fizeram para encobertar ou dar o mínimo de destaque possível a alguns temas que “não vêm ao caso”. Sobrou à imprensa alternativa e àquela com um pézinho na gringa (como El País e BBC) a missão de explorar ou repercutir os assuntos espinhosos.
 
Aqui vai uma lista, sem ordem de relevância, com 10 tópicos que deram o que falar no mundo à margem da mídia comercial:
 
1 – O depoimento de Tacla Duran
 
Internautas inconformados com a atenção zero para o caso Zucolotto-Duran encheram as redes sociais de críticas à cobertura da CPMI da JBS. Alguns disseram que se Rodrigo Tacla Duran tivesse relatado propina aos governos petistas, seu depoimento teria sido transmitido ao vivo na Globo News.
 
Mas como as denúncias atingem em cheio a indústria da delação criada pela República de Curitiba, os jornais trataram de empurrar as falas do ex-advogado da Odebrecht para debaixo do tapete. A cobertura foi vergonhosamente protocolar.
 
A acusação de Duran contra Carlos Zucolotto – o amigo pessoal de Sergio Moro que foi acusado de cobrar propina para ajudar na delação – foi ignorada por muitos jornais. Em alguns, virou notinha.
 
Os procuradores que adoram dar pitacos sobre a vida política do País nas redes sociais não foram incomodados nenhuma vez para explicar as denúncias.
 
GGN e o DCM fizeram, juntos, uma série especial sobre a indústria da delação que explora as revelações de Duran. O mutirão pode ser acessado aqui.
 
2 – A Lavanderia Perrela
 
Aécio Neves (PSDB) saiu bem chamuscado da crise envolvendo a mala de dinheiro que seu primo retirou na sede da JBS, em São Paulo. Com fotos, vídeos e áudios, nenhum jornal conseguiu esconder a história.
 
Mas só quem teve a paciência de fuçar em depoimentos prestados à Polícia Federal após as prisões de Andrea Neves e outros envolvidos pôde descobrir que os investigadores suspeitam que empresa da família do senador Zezé Perrela teria sido usada para lavar a “propina” que Joesley Batista afirma ter pago a Aécio.
 
Para complementar os serviços da lavanderia Perrela, um doleiro condenado por tráfico internacional de pedras preciosas também teria sido acionado. Nenhum jornal quis mergulhar no assunto. O GGN abordou o caso, com base nos documentos da PF, aqui.
 
3 – Meirelles e a JBS
 
Na esteira dos estragos provocados pela delação da JBS está a blindagem oficial a Henrique Meirelles. Nem imprensa tradicional, nem Procuradoria Geral da República sob Rodrigo Janot ousaram incomodar o ministro da Fazenda, queridinho do mercado e potencial presidenciável em 2018. 
 
Foi como se Joesley Batista jamais tivesse explicitado que um dos motivos para ter ido ao Jaburu conversar com Michel Temer na calada da noite foi justamente pedir autorização para pressionar Meirelles a trabalhar (ou deixar que trabalhassem) em prol dos interesses da JBS.
 
O hoje ministro já trabalhou na J&F, grupo que controla a empresa dos irmãos Batista.
 
4 – Denúncias contra FHC
 
Quando o assunto é FHC, o manual de redação da Reuters de 2015 – aquele do “Podemos tirar, se achar melhor” – parece ainda estar em vigor.
 
Doação de empreitas ao instituto que leva seu nome, propina na Petrobras na época da crise energética, delação sobre empresa do filho ter sido contratada por indicação política, caixa 2 em campanha eleitoral. Nada parece despertar o interesse das autoridades.
 
A última blindagem do ano ao governo do tucano – como Folha tendo a pachorra de criar distinção entre PT e PSDB sob o ângulo de que o primeiro partido foi o que desviou mais recursos da estatal do que o segundo – foi registrado neste post aqui.  
 
5 – Denúncias contra os tucanos paulistas
 
Na mesma linha de proteção ao tucanato estão os R$ 23 milhões desviados de obras públicas no governo Serra em São Paulo, e os R$ 10 milhões para a campanha de Geraldo Alckmin.
 
Os casos foram divulgados sem reproduzir o alarde dos esquemas de corrupção que supostamente envolvem petistas.
 
O tratamento diferenciado, inclusive, não parte apenas da imprensa. Quase não se viu procuradores alimentando os jornais com o vazamento de delações cabeludas e, no Judiciário, os processos tramitam com morosidade e sigilo. 
 
6 – A farsa do aluguel de Lula
 
Longe de conseguir provar que Lula recebeu vantagem indevida da Odebrecht a partir de dinheiro desviado da Petrobras, envolvendo 8 contratos entre as partes, os procuradores de Curitiba lançaram mão da parceria que têm com a grande mídia para transformar a segunda ação penal contra o ex-presidente numa guerra de narrativas. 
 
 
Como a Lava Jato sustenta que Glaucos recebeu indiretamente recursos da Odebrecht para gastar no apartamento (só faltou combinar uma cronologia lógica para os supostos fatos), é importante que a tese de que Lula não pagou o aluguel seja considerada verdadeira. Afinal, se não pagou, recebeu vantagem indevida.
 
O problema é que Glaucos muda a versão sobre o pagamento do aluguel ao sabor da conveniência. Já disse e desdisse muita coisa desde que entrou na investigação.
 
De novo: foi preciso curiosidade para ir além do que a grande mídia vende nos jornais para identificar um motivo para a instabilidade nos depoimentos de Glaucos.
 
Em um documento da Receita Federal pouco explorado pelos jornais está uma informação valiosa: a família de Glaucos pode ter sofrido ameaças e, por isso, ele teria resolvido colaborar com a Lava Jato na condição de réu-delator-informal. O GGN foi o primeiro portal a levantar a hipótese, a partir da análise dos documentos da Lava Jato.
 
7 – A frágil delação da JBS contra Dilma e Lula
 
O blog também foi o primeiro a questionar algumas lacunas na delação da JBS contra Lula e Dilma, e publicou um texto explicando porque as acusações de Joesley Batista e outros executivos contra os ex-presidente não pareciam tão substanciais como os eventos colhidos contra Michel Temer e sua turma.
 
Meses depois, a jornalista Mônica Bergamo foi a única a enfatizar em sua coluna na Folha que as suspeitas sobre a fragilidade da delação eram reais e a história de que Lula e Dilma tinham uma conta no exterior com centenas de milhões de dólares começou a ruir.
 
Na hora de apresentar provas da delação, Joesley deixou claro que apenas ele tinha acesso às contas que atribuiu a Lula e Dilma e, além disso, somente ele usou os recursos que lá existiam para fins pessoais: comprar um apartamento em Nova York, bancar uma festa de casamento e custear outras despesas luxuosas, como compra de barcos.
 
8 – O depoimento ridicularizado de Delcídio do Amaral
 
Usada para empurrar o governo Dilma ladeira abaixo, a delação de Delcídio do Amaral contra a presidente deposta e o ex-presidente Lula também se provou uma farsa. Desde meados de 2016, este blog também vinha mostrando os sinais de que o senador cassado parecia ter criado uma fantasia para se livrar da cadeia.
 
Em setembro de 2017, o procurador Ivan Cláudio Marx, responsável pela ação penal contra Lula derivada da delação de Delcídio, teve de reconhecer que não existem provas de nada do que foi dito sobre a suposta participação do petista na compra do silêncio de Cerveró. A revelação passou longe de ser discutida sob os holofotes da grande mídia, poupando a Lava Jato de ter de explicar como aceitou uma delação que hoje é criticada pelo próprio Ministério Público.
 
 
9 – Propina da Globo
 
Por motivos óbvios, o escândalo conhecido como Fifa Gate não é a pauta preferida do Jornal Nacional e demais produtos Globo. Alguns blogs esportivos de veículos concorrentes produziram informações sobre as acusações de Alejandro Buzarco contra a emissora, por pagamento de propina na compra dos direitos de transmissão de torneios esportivos.
 
GGN cobriu o caso e até comprovou que um ex-diretor da Globo, Marcelo Campos Pinto, peça fundamental na investigação, tentou esconder que era uma espécie da agente duplo com cargo na FIFA. O episódio é mais um a revelar blindagem não apenas da mídia brasileira, mas também no Judiciário.
 
10 – Tráfico internacional de crianças pela Igreja Universal 
 
Da mesma forma, a investigação internacional sobre o suposto tráfico internacional de crianças criado a partir de Lisboa pela cúpula da Igreja Universal – envolvendo diretamente a família de Edir Macedo, dono da Record – só chegou em terras tupiniquins por meio de poucos portais que repercutiram a reportagem especial de uma TV portuguesa.
 

 

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