5 de junho de 2026

A grande história do falso estupro, por Vera Guimarães Martins

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

da Folha

Ombdsman

A grande história do falso estupro, por Vera Guimarães Martins

Empatia e compaixão podem borrar as regras jornalísticas e provocar erros de grande monta

Na quinta (30), a revista norte-americana “Rolling Stone” comunicou a saída de seu editor-executivo, Will Dana, após 19 anos na empresa. O que poderia ser só uma troca de guarda, natural de tempos em tempos em qualquer publicação, marca o desfecho de um caso que deve entrar para a história do jornalismo por duas situações exemplares: a estrepitosa divulgação de um falso estupro que pôs uma comunidade universitária sob suspeita, seguida por um processo transparente, corajoso e inédito de (re)apuração e expurgação do relatado.

O inferno da “Rolling Stone” começou em novembro, com a reportagem “Um Estupro no Campus – Um ataque brutal e uma luta por justiça na Universidade de Virgínia”. A história é daquele tipo que céticos profissionais considerariam ideal demais para ser verdade. Tinha drama e “timing” nas medidas certas.

Pelo menos cinco universidades americanas registravam casos de alunas que diziam ter sido estupradas por colegas dentro dos campi, e as instituições eram acusadas de tratar as denunciantes com descrédito e de tentar abafar o escândalo.

Nesse cenário, a “Rolling Stone” tirou a sorte grande: achou uma vítima que, em busca de justiça, estava disposta a contar como havia sido estuprada por sete integrantes de uma fraternidade da escola.

A reportagem foi um sucesso instantâneo, com quase 3 milhões de visitas ao site, mais do que qualquer outra sem ser de celebridade publicada até então. Mas a festa durou pouco. Nos dias seguintes, outros veículos entraram no caso e foram levantando inconsistências variadas. Virou, diz Dana, controvérsia nacional.

Atordoada, a “Rolling Stone” decidiu pedir que uma fonte externa e acima de qualquer suspeita investigasse os lapsos de apuração, edição e checagem. Steve Coll, diretor da Escola de Jornalismo de Columbia (NY) e detentor de dois prêmios Pulitzer, topou e chamou dois colegas. O trio trabalhou de graça.

A empreitada levou quatro meses e rendeu um relatório gigantesco. É leitura obrigatória para jornalistas e aspirantes, mas pode ser interessante para qualquer leitor: é uma grande história descrita a partir da autopsia de suas entranhas. A tradução integral do texto está na página digital da ombudsman.

Steve Coll mostra que a revista descuidou de procedimentos que, vistos de fora, parecem óbvios demais para escapar a repórter e editores experientes. Minha opinião é que falhas como essas ocorrem todos os dias, com consequências menos dramáticas e ruidosas.

Ditadas pela visão mais cínica, podem ser uma omissão oportunista, para não correr o risco de espantar um personagem já circunstancialmente arredio. Numa visão mais humanista, podem ser alicerçadas na crença do jornalismo como missão que ajuda a melhorar o mundo. (Ambas não são excludentes.)

Empatia, compaixão, agenda, militância tendem a flexibilizar as regras e –especialmente quando o entrevistado encarna a condição de vítima– borrar os limites do distanciamento necessário entre profissional e personagem. Num quadro delicado como o de um estupro, parece cruel demais fazer perguntas que possam denotar suspeita ou infligir mais sofrimento e humilhação a alguém que está às voltas com o trauma. Não nego que seja, mas é parte indescartável do ofício.

Lourdes Nassif

Redatora-chefe no GGN

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

12 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Athos

    2 de agosto de 2015 5:48 pm

    Kkkkkkkk
    Não foi a Folha quem colocou na capa de sua edição uma ficha com a foto da uma candidata a presidência da República com a tarja “terrorista” só porque recebeu por email?

    1. oneide

      2 de agosto de 2015 6:25 pm

      Quem é condenada por

      Quem é condenada por sequestro é ………

      Manicure..

      Quem atua numa célula terrorista é ………..

      Enfermeira.

      Quem assalta bancos é……..

      Redistribuidora de recursos que não estão cumprindo a função social.

  2. Marco St.

    2 de agosto de 2015 6:20 pm

    Isso é uma piada. Monumental

    Isso é uma piada. Monumental piada. 

    Uma agressão gratuíta a qualquer pessoas com mais de 2 neurônios funcionais.

    A ombusman da FOLHA nos contando sobre como se faz jornalismo de verdade é quase como crer no Eduardo Cunha rezando no culto….

    Não faz sentido. Não combina. Não orna.

    Não há jornalismo na Folha, exceto 2 ou 3 que sobrevivem com suas colunas,  mas que não influenciam na opinião do jornal da  famiglia Frias.

    Ceratemente o texto mas hipócrita do ano. 

    Se era pra ser um recado à própria Folha isso deveria ser dito com nomes e sobrenomes. Ficar em cima do muro não dá né?…

  3. Luiz Antonio Antunes Machado

    2 de agosto de 2015 6:21 pm

    Autocrítica

    Autocrítica, mesmo vindo da reincidente Folha de São Paulo, é sempre bem-vinda. Mesmo com uma sinceridade duvidosa.

  4. Anarquista Lúcida

    2 de agosto de 2015 6:32 pm

    Melhor nao errar; mas, errando, melhor denunciar 1 estupro

    do que minimizá-lo. Num contexto onde vêm sendo denunciados estupros e outras aberraçoes em uma universidade conceituada (e em outras também) acho essa matéria meio tendenciosa. Entre tantos absurdos que a imprensa comete todos os dias, e aqui mesmo na terrinha, por que escolher falar de um caso passado nos EUA? Qual a relevância de publicar isso aqui e agora?

  5. Ricardo Cavalcanti-Schiel

    2 de agosto de 2015 6:37 pm

    Peço subsídios

    Geralmente quando há um trecho do tipo “a tradução integral do texto está na página digital da ombudsman” o que acontece é que há algum link de acesso para o tal documento. Alguém tem como acessar o tal relatório e disponibilizá-lo aqui?

    1. Ivan de Union

      2 de agosto de 2015 7:38 pm

      (O meu “pai dos burros” a

      (O meu “pai dos burros” a esse ponto eh o wiki:

      https://en.wikipedia.org/wiki/A_Rape_on_Campus

      Mas de traducao eu nao sei nada, as minhas poucas “traducoes” pro portugues aqui no blog eram ao ponto, diretas, fieis, e…  terriveis.)

      1. Ricardo Cavalcanti-Schiel

        3 de agosto de 2015 5:05 pm

        Obrigado

        Agradeço a atenção dos que enviaram esses links.

        O da Folha eu não consegui abrir porque não sou assinante. O da Wikipedia é bem completo. A Rolling Stone eu confesso que não gosto muito de ler, porque eles capricham numa jargonística coloquial meio no estilo MTV, que torna os artigos deles bem pouco palatáveis pra mim. Felizmente, esse relatório que publicaram está bastante sóbrio.

        Pelo que pude entender, se trata de mais um caso uso da santa inquisição politicamente correta que, nesse caso, produziu até a depredação da residência estudantil da tal fraternidade acusada de um estupro que não houve. Escola Base reloaded, sob novo contexto.

        A Folha pode estar sendo cínica ao postar uma história dessa da sua ombudsman e, ao mesmo tempo, deleitar-se em fazer a mesma coisa nas suas pautas regulares. Mas, enfim, é a Folha. Já sabemos o que ela é. Não dá pra ler.

        De outra parte, o tipo de histeria fundamentalista desse caso norte-americano ronda hoje até os melhores ambientes acadêmicos. Eu mesmo, no Brasil, já vi ele ser disparado por um certo “feminismo” para tentar destruir a reputação de um funcionário acadêmico, quando o que estava por trás eram outras divergências políticas. Por conta dessa histeria, acusar um homem de acossador, sem fundamento algum, ou impingir sobre ele o estigma de machista agressivo, está virando hoje quase uma banalidade persecutória. Que o diga o professor Jorge Zaverusha, da UFPE, que sofreu um massacre análogo a esse caso, para depois vir a ser inocentado pela Justiça, e com a unanimidade do Tribunal.

        Como essa banalidade se tornou um dispositivo previsível e delimitável, e seu discurso de origem não foi capaz de construir uma crítica efetiva e mecanismos institucionais com alcance sobre a generalidade da regulação social, o machismo predatório persiste pelas frestas da trivialidade. É o pior dos mundos: o machismo não foi debelado, e criaram-se dispositivos inquisitoriais. A regulação meramente contratualista, baseada na reificação dos direitos individuais, não é capaz, por si só, de tocar no âmago cultural que rege a regulação social.

    2. anarquista sério

      2 de agosto de 2015 8:07 pm

      http://www1.folha.uol.com.br/

      http://www1.folha.uol.com.br/colunas/veraguimaraesmartins/2015/08/1663508-continuacao-universidade-columbia-analisa-erros-da-rolling-stone-em-reportagem.shtml

         Não levei crédito.

         Fora de Pauta

      imagem de anarquista sérioanarquista sério

      OMBUDSMAN VERA GUIMARÃES

      OMBUDSMAN

      VERA GUIMARÃES MARTINS

       

  6. Ivan de Union

    2 de agosto de 2015 7:15 pm

    (Sinto muito, mas o texto nao

    (Sinto muito, mas o texto nao faz uma goticula de sentido em varios e varios sentidos, alguns apontados abaixo.  Nao tem nem contexto comprehensivel!

    Nao da pra comentar.  Deve ser perfeito pros leitores da falha de SP.)

  7. wilfer9

    2 de agosto de 2015 9:33 pm

    O pior de tudo é que a

    O pior de tudo é que a matéria da ombudsman (ou seria ombudswoman?) da Folha é uma tradução literal de partes da versão resumida do relatório final do grupo de trabalho, liderado por Steve Coll, publicada na Rolling Stones de 05 de abril de 2015 (http://www.rollingstone.com/culture/features/a-rape-on-campus-what-went-wrong-20150405).

     

  8. Fr@ncisco

    2 de agosto de 2015 10:17 pm

    Para Quando não se tem o Álibi…

    Seria cômico se já não fosse hilário, vindo da ombudsman da Folha, que faz jornalismo seletivo sincronizado com o resto dos orgãos do monopólio da mídia, contra o governo federal, coordenando-se através do instituto Millenium.

    É muita cara de pau dessa gente; a quem será, pensam que enganam, ao quererem safar-se da prestação de contas futura, que certamente virá.   

Recomendados para você

Recomendados