5 de junho de 2026

A internet não salvou o impresso. E agora?

Do Observatório da Imprensa
 
 
10/12/2013 na edição 776
 
Tradução de Larriza Thurler, edição de Leticia Nunes. Informações de Scott Timberg [“New York magazine’s bad bet”, Salon, 5/12/13]
 
Erik Brynjolfsson e Andrew McAfee, da Sloan School of Management, do MIT, realizaram, durante anos, uma pesquisa sobre os efeitos econômicos da tecnologia digital. Eles tinham a hipótese de que os desenvolvimentos tecnológicos causam rupturas temporárias, que resultam em perda de empregos a curto prazo, mas grande nível de emprego e prosperidade a longo prazo. Isso algumas vezes é chamado de “destruição criativa”, um termo associado ao economista austríaco Joseph Schumpeter.
 
No entanto, os pesquisadores chegaram à conclusão de que, pelo que parece ser inédito na história humana, avanços tecnológicos recentes estão destruindo o emprego permanentemente, como tem sido visto nos constantes cortes nas redações das empresas de mídia.
 
Nas publicações, a questão-chave para isso acontecer é a falta de publicidade – principalmente nas plataformas online. Houve um tempo em que se acreditava que mais acessos e audiência online salvariam as publicações impressas, ou ainda o jornalismo. Hoje, é possível afirmar que não é o caso, que isso tem pouco ou nada a ver com a saúde financeira de uma publicação e com a habilidade de empregar jornalistas ou investir no jornalismo.
 
Não compensa
 
No livro Free Ride, o jornalista Robert Levine informa que, segundo dados da Associação de Jornais dos EUA, um leitor do impresso vale US$ 539 em publicidade, enquanto o online gera apenas US$ 26. O dinheiro economizado com impressão e distribuição do jornal em papel não consegue compensar a diferença. James Poniewozik, da revista Time, resumiu o cenário: anunciantes pagam menos por audiência online e a audiência online prefere não pagar nada pelo conteúdo que consome.
 
Assim, não parece ser inteligente a iniciativa de jornais de tentar convencer seus leitores a abandonar a edição impressa e ir para seus sites, como muitos fazem ao investir mais na oferta digital. A MSN Networks matou virtualmente seu conteúdo original, demitindo diversos editores e repórteres e dispensando o trabalho de freelancers no processo. O mesmo aconteceu com a Bloomberg, que demitiu diversos jornalistas da editoria de cultura e de outras áreas. O jornal britânico Independent, por sua vez, demitiu todos os seus críticos de arte. Diversos fotógrafos profissionais foram eliminados de jornais – mais notoriamente no Chicago Sun-Times – e sites. O Oregonian, de Portland, nos EUA, anunciou recentemente 100 cortes, a transferência de recursos do jornal para o site e a redução na distribuição da edição impressa para quatro dias.
 
Contexto
 
A New York sofrerá algumas mudanças em 2014 que não agradaram ao público que é fã do impresso. A revista americana passará a ser quinzenal, em vez de semanal, e investirá mais no conteúdo de seu site. Não é surpresa a estratégia de produzir uma publicação quinzenal mais substancial, durável e visual, ao mesmo tempo em que aumenta as ofertas digitais. No entanto, ao que parece, a New York ignora um contexto mais amplo.
 
Sarah Green escreveu no blog da Harvard Business Review sobre o que seriam supostas boas notícias do digital. “Estou esperando as manchetes sobre os bons tempos na mídia. Em um único minuto, visitantes no YouTube assistem a 100 horas de vídeo – um aumento de 233% comparado ao ano anterior. O número de aparelhos que as pessoas usam para ‘consumir conteúdo’ também está oscilando: um relatório da Cisco sugeriu que, até o final do ano, o mundo terá mais aparelhos móveis do que pessoas”, afirmou. Em 2010, um americano gastou, em média, 10 horas e 46 minutos ao dia consumindo conteúdo; em 2013, esse número terá subido para 12 horas e 5 minutos.
 
Há poucas iniciativas de investimento na plataforma digital que são exemplos de sucesso, como Gawker e Dish – este último consegue US$ 800 mil em receita de assinaturas. O novo projeto de Glenn Greenwald, ex-jornalista do Guardian que publicou muitos dos principais furos sobre os vazamentos de Edward Snowden, pode ajudar a trazer de volta o jornalismo investigativo, reduzido na internet e com menos recursos para financiamento.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. Carlos Bertomeu

    11 de dezembro de 2013 8:07 pm

    Um palpite: Penso que a midia

    Um palpite: Penso que a midia impressa poderá sobreviver em pequenos nichos especializados, por  exemplo, fotografia, orquidofilia, etc., onde ninguém se interesse atualizar um site com informação de qualidade, e as verbas publicitárias não compendem um trabalho mais profundo.

  2. MarFig

    11 de dezembro de 2013 10:30 pm

    Não é só a internet que está

    Não é só a internet que está matando os jornais e revistas pelo mundo afora. A falta de credibilidade, principalmente entre os jovens, é enorme.

    1. Bruno Cabral

      12 de dezembro de 2013 2:47 am

      Disse tudo

      E nao é só a impressao nao, a TV tambem perdeu a credibilidade entre os jovens faz tempo

  3. Garoto Antigo

    11 de dezembro de 2013 10:38 pm

    E agora?

    No meu tempo dir-se-ia (!): “Faz” na mão e joga fora!

    —–

    A tecnologia já mudou a face de negócios tradicionais como a fotografia (Kodak, Fuji, Agfa), produção fonográfica (do acetato ao download e microSD, dos grandes salões de cinema e outros mais (a TV vomitativa e não interativa está na lista).

    Por que não a do barânico jornalismo impresso?

    Até as florestas agradecem!

    A menos que eles consigam tomar conta da Internet (em observação),

    Os leitores também.

  4. Ricati

    12 de dezembro de 2013 12:10 am

    Penso que na natureza tudo

    Penso que na natureza tudo tem seu ciclo. Não será diferente para a mídia impressa.

    O auge que ela atingiu foi na derrocata de 30 e continuou importante e significativa por mais 60 anos, Sua força foi diminuindo com a TV e agora, naturalmente, será extinta pela internet.  E os sintomas do soluço sororrocante derradeiro se percebe pelo uso político que lhe deram, vendendo sua vitrine a plataformas políticas pequenas e momentâneas.

    Tudo passa. A imprensa impressa também está passando…

  5. Henrique O. M. Reis Jr

    12 de dezembro de 2013 11:45 am

    Ela não entendeu Schumpeter

    Ela simplesmente não entendeu o que é destruição criativa.

    Existem três tipos de inovação para Schumpetter: a invovação incremental, semi-radical e a radical. Se a tecnologia é semlhante a atual e o modelo de negócios também então a inovação é incremental. Se a tecnologia é nova mas o modelo de negócios é semalhante ao atual então a inovação é semi-radical. O mesmo ocorre se o modelo de negócios é novo mas a tecnologia é semelhante. Agora se a tecnologia é nova e o modelo de negócios é novo então aí sim temos uma Inovação radical.

    É provável que a internet seja uma uma inovação radical que exige um modelo de negócios completamente novo. Isso significa que dificilmente as empresas estabelecidas serão capazes de se adaptar ou sobreviver.

    É completemente novo, pode ser que o próprio modelo de redação esteja acabando. O que irá ocupar o lugar? Não sei. Pode ser algo como o Mídia Ninja. Ou algo que nem surgiu ainda.

    Mas uma coisa é certa se for uma inovação radical não confie nas análises dos ditos “especialistas” do setor que está acabando.

    Um exmplo não muito bom mas que ilustra é: Datilografos. Eles não foram substituídos por digitadores. Deixou simplesmente de existir alguém que precisa fazer este trabalho. Hoje em dia os próprios analistas nas empresas editam seus próprios textos.

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