Boletim do Jornal Nacional de 2 de junho, por Eliara Santana

Blocos foram bem grandes e formaram campos de sentidos muito visíveis e densos.

Boletim do Jornal Nacional de 2 de junho

por Eliara Santana

Um edição marcada por simbolismos e construções simbólicas muito importantes. Vou dividir e comentar por blocos, porque eles foram bem grandes e formaram campos de sentidos muito visíveis e densos. Assim fica mais interessante para conseguirmos depois ver a edição como um todo.

1º BLOCO – UM PAÍS SEM RUMO E SEM GOVERNO

Já na abertura do jornal, com o balanço da Covid no Brasil, a dimensão da tragédia no país: “Em todo o planeta, só existe um país em que o coronavírus produziu um número maior de doentes do que o Brasil: os Estados Unidos. E os números oficiais ultrapassaram hoje mais um marco desolador: mais de 31.199 vidas se perderam num intervalo de 77 dias. E essa terça-feira também marca o maior aumento do número de óbitos em 24 horas: 1.262 ”.

Observem como essas expressões grifadas compõem um quadro que dimensiona uma tragédia de grandes proporções em pouco tempo.

No balanço da Covid no país, uma linha do tempo foi mostrando a evolução da curva ao longo desses mais de dois meses, com um grande crescimento do número de casos e de mortos. Ao final, Bonner faz um gesto simbolizando o crescimento da curva e arremata: “É dessa curva que o pessoal fala, lembra? Achatar a curva, achatar a curva. E a curva sobe. E é nesse cenário que o Brasil completou hoje 18 dias sem um titular no Ministério da Saúde”.

E então a matéria mostra o ministro interino que “nunca deu uma entrevista coletiva, nomeou militares para cargos técnicos e liberou um novo protocolo de uso da cloroquina”. Informa também que o ministro interino, Eduardo Pazuello, até agora “não disse, por exemplo, qual o seu plano para ampliar a testagem no Brasil considerado fundamental para orientar as políticas públicas”. Antes de ele se tornar interino, o Ministério da Saúde previa o envio de 7 milhões de testes moleculares e 10 milhões de testes rápidos no país. Mas até 1 de junho, foram distribuídos 3 milhões de testes moleculares e 7,5 milhões de testes rápidos. Sendo efetivamente realizados e processados menos de um milhão de testes.

Alguns especialistas foram ouvidos. Natália Pasternak falou da necessidade de uma ação coordenada do Ministério para aumentara testagem e questionou “qual a estratégia nacional para enfrentar a Covid-19?”. Sérgio Cimerman falou que o Brasil precisa de um norte e ressaltou que é necessário alguém técnico para comandar o ministério.

Na sequência da matéria, a entrevista coletiva do Ministério que, “mais uma vez, não contou com a presença do ministro interino”, como afirmou Vladimir Neto. E o secretário Élcio Franco justificou que, mesmo sem um ministro titular, o Ministério está funcionando normalmente.

Na volta à bancada, Bonner respira fundo para contar que hoje, no Palácio da Alvorada, uma apoiadora de Bolsonaro perguntou o que ele diria aos brasileiros enlutados pela Covid-19. E ele respondeu (entra imagem de Bolsonaro na porta do Alvorada); “Lamento. É o destino de todo mundo”.

Matéria na sequência mostra que o MPF abriu inquérito para apurar o uso de dinheiro pelo Ministério da Saúde, pois segundo procuradores, só 7% da verba contra a pandemia foi usada até agora, e o Ministério até reduziu o repasse a estados e municípios desde a segunda quinzena de abril.

Depois, em seguida, o usual balanço por cidades. Manaus é a cidade brasileira com maior explosão da Covid, o que se explica pela desigualdade e pelo fraco sistema de saúde. Mesmo assim, diz a matéria, o governo determinou a abertura do comércio – muitas imagens para mostrar as pessoas enchendo as ruas. O estado de São Paulo registrou o maior número de casos com recorde de mortes, e o governo mantém a flexibilização. Vários especialistas foram ouvidos para dizer que essa abertura é precipitada, pois a curva ainda está ascendente. Foi uma matéria bem crítica.

Na cidade do Rio de Janeiro, a flexibilização também começou e até praias foram liberadas, ficando cheias. A abertura é gradual e em fases, mas muitas coisas estão funcionando e há muita gente nas ruas, com a curva também ascendente. No Ceará, esforço conjunto entre governo e prefeitura para ampliar a testagem na população. Em Imperatriz, no Maranhão, pelo oitavo dia consecutivo, os leitos estão todos ocupados. A Região Metropolitana de Natal vive um caos com a sobrecarga nas UPAs.

Na matéria seguinte, a angústia de trabalhadores que perderam o emprego e que não conseguiram o auxílio emergencial. Como Fabian, cuja vida “virou pelo avesso”. Com 30 anos de carteira assinada, ele, que era garçom, agora não tem pra onde ir e nem conseguiu a ajuda do governo. Teve de ir para a rua. Valdecir também teve de sair de onde morava pra morar na rua. Sem CPF, não conseguiu o auxílio. No país, 4 em cada 10 brasileiros vive na informalidade. Questionado, o Ministério da Cidadania ainda não tinha respondido ao JN.

Em seguida, governo edita MP para tentar destravar o crédito que não chega às empresas durante a pandemia. Desde o início, o governo prometeu que o crédito ia chegar aos empresários.

A linha de crédito de 40 bilhões não decolou – a burocracia e os juros travaram o acesso. Depoimentos de alguns microempresários dá a dimensão do problema e também da falta de assistência do governo. O ex-ministro Mailson da Nóbrega lembrou que é um socorro que chega com atraso. Segundo ele, muitos economistas afirmaram que seria preciso uma garantia do governo. “É incompreensível que mesmo assim, depois de tudo isso, o governo ainda vai demorar 30 dias, até o final de junho, para regulamentar”, disse. Até Mailson da Nóbrega, que deixou o governo Sarney com uma inflação gigantesca acha incompreensível a falta de ação do governo atual.

Depois, Inep dá mais prazo para pagamento da taxa de inscrição no Enem.

E acaba o bloco – a sensação que fica é de que não há uma coordenação nacional para garantir assistência na saúde e nas questões econômicas. População abandonada à sorte.

2° BLOCO – JUDICIÁRIO PROTAGONISTA E GARANTIDOR DA CONSTITUIÇÃO

A primeira matéria é sobre a PGR que se manifesta se manifesta a favor de pedido da PF de prorrogar inquérito sobre suposta interferência de Bolsonaro. O procurador Augusto Aras enviou a manifestação ao ministro do Supremo Tribunal Federal Celso de Mello a quem caberá decidir se o inquérito será prorrogado.

Matéria retomou o pedido da PF e as investigações envolvidas, até chegar a Paulo Marinho – e o recebimento de informações antecipadas de operação da PF. Que salientou que é relevante a oitiva do presidente. Destaque também para o despacho recente de Celso de Melo sobre a questão do depoimento presencial ou não de algumas autoridades como o presidente da República. Segundo o documento, esse benefício não se estende nem ao investigado nem ao réu, os quais deverão comparecer (independentemente da posição hierárquica). Matéria cheia de detalhes confusos para leigos, mas plena de significados para entendidos – e com os devidos recados.

Em seguida, matéria informa que o decano arquiva pedido de partidos políticos de apreensão do celular de Jair Bolsoanro. No despacho, Celso de Melo rebateu a fala de Bolsonaro e que não entregaria o celular nem sob ordem judicial. O decano deixou claro que o descumprimento é crime.

Na sequência, a informação de que Moro vai cumprir seis meses de quarentena antes de trabalhar como advogado e vai receber salário de ministro nesse período. A decisão foi da Comissão de Ética Pública da Presidência da República.

Depois, a PF determina abertura de inquérito para investigar vazamento de dados de Bolsonaro, de filhos dele, ministros e aliados do governo.

Em seguida, pesquisa Ibope mostra que 9 em cada 10 brasileiros são favoráveis à regulamentação das redes para evitar divulgação de fake news.

Depois, em matéria de 8 minutos, OAB afirma que Constituição não prevê Forças Armadas como “poder moderador” em conflito entre os outros poderes. É incorreta a interpretação, diz a Ordem. A matéria deu destaque a detalhes da nota, citando a reunião ministerial em que Bolsoanro menciona artigo da Constituição e firma que as Forças Armadas teriam esse papel. Mostrou também entrevista do PGR falando dessa atuação das Forças Armadas como “garantidoras” do funcionamento dos poderes. Matéria também com muitas referências jurídicas que não são facilmente decodificáveis, mas que funcionam como recado bem dado. Pra fechar, o presidente da OAB aparece falando sobre isso e afirmando que o Judiciário é que é o garantidor da Constituição.

3º BLOCO – RACISTAS NÃO PASSARÃO

Apesar de ter começado com notícia sobre volta da Fórmula 1, o bloco foi praticamente dedicado às manifestações contra o racismo, especialmente nos EUA, que registram protestos há uma semana, desde a morte de George Floyd. Antes dessa matéria, a versão brasileira de intolerância e racismo, com falas do próprio presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, que declarou, em conversa com assessores, que o Movimento Negro é “escória maldita que abriga vagabundos”. E xingou Zumbi dos Palmares e o Dia da Consciência Negra. Matéria relembrou várias frases de Camargo. Ele afirmou, em resposta ao questionamento do JN, que a Fundação Palmares agora atua em sintonia com o governo Bolsonaro.

Na sequência, matéria sobre manifestação em Curitiba contra o racismo, lembrando o caso americano, com “atos de vandalismo” ao final.

Logo depois, a matéria sobre os protestos nos EUA, com muitas imagens, destaque para os atos pacíficos, os repórteres acompanhando as caminhadas dos manifestantes em NY e em Washington. Em seguida, o caos com os saques acontecendo sem controle. E as várias críticas de políticos e líderes religiosos às ações de Donald Trump. Matéria bem grande, com muitas imagens – mostrando os saques e atos de vandalismo sem resumir o protesto a vandalismo (diferente da cobertura de atos no Brasil, eu diria…). Emendando, matéria mostrou atos também em Paris, contra o racismo.

Depois desse balanço, Bonner retorna para anunciar o Aqui Dentro: “Você viu aí os nossos correspondentes nos EUA acompanhando manifestações até de forma ofegante porque caminhar com máscara e falando pra televisão não é fácil. Vc viu dois dos nosso correspondentes fazerem isso hoje e eles estarão de volta logo mais no Jornal da Globo que obviamente continua acompanhando essa movimentação. Mas vc viu também, na abertura dessa edição que o Brasil ultrapassou a marca de 31 mil mortes pela Covid-19. E isso apesar do esforço gigantesco de milhares de profissionais de saúde. Hoje, quem fala por todos esses heróis no Jornal Nacional é a médica Débora Abdala, e ela tem uma história de superação pra contar”.

E depois da fala da médica, que conta que “devolveu o filho à mãe”, ele fecha:
“Em nome de todos os brasileiros, o Jornal Nacional agradece o esforço da doutora Débora e de todos os profissionais de saúde do país. E se solidariza com todas as famílias enlutadas”. E se encerra em silêncio, com a projeção do número de mortos.

A edição de hoje não teve a ação solidária das empresas nem o boletim do tempo. E se encerrou de maneira muito contundente, marcando o posicionamento do JN como instituição que, na ausência (retratada ao longo da edição) do poder público central, se legitima de alguma forma e adquire credibilidade para falar em nome de todos os brasileiros no agradecimento aos “heróis” profissionais de saúde.

É isso, minha gente. Boa noite.

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