5 de junho de 2026

Galvão Bueno: do patriotismo ao tautismo, por Wilson Ferreira

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O locutor da Globo Galvão Bueno é o homem certo para o lugar certo. Os nadadores preparavam-se para a largada na piscina do Parque Olímpico da Rio 2016 quando a árbitra parou tudo. Em meio ao silêncio exigido para a concentração dos atletas alguém não parava de falar, alheio ao momento: era Galvão Bueno, que mereceu ao vivo uma reprimenda de um comentarista do canal inglês BBC: “o colega perto de mim precisa calar a boca”, disse. Bueno é o homem certo, com sua verborragia patriótica cultivada nos tempos dos bons resultados brasileiros no futebol e F1. Os bons resultados acabaram, mas o cacoete ficou.  Agora tornou-se sintoma do tautismo (autismo + tautologia) crônico de uma emissora que de tão centrada nela mesma começa a contaminar seus jornalistas, apresentadores e artistas. Em muitos momentos o monopólio político e econômico da Globo parece fazer seus profissionais terem lapsos de memória sobre a existência de alguma coisa de real do outro lado dos muros da emissora.

Os leitores do Cinegnose estão acostumados com nossa incessante busca por sintomas sociais e culturais em produtos fílmicos e audiovisuais. Cinema, eventos políticos, telejornalismo, teledramaturgia, publicidade e marketing são espaços ideais para a manifestação não só do espírito de época, mas também de atos falhos que revelam a ideologia de seus emissores.

Em postagem anterior discutíamos como o início da cobertura das Olimpíadas Rio 2016 pela hegemônica TV Globo dava o tom pelo qual os telespectadores deveriam aguardar: o tautismo (autismo + tautologia) – neologismo que designa o patológico “fechamento operacional” onde um sistema (TV, jornal etc.) fecha-se em si mesmo de forma que os dados do mundo exterior são traduzidos por uma imagem que o sistema faz de si mesmo – sobre esse conceito clique aqui e aqui.

E qual a imagem que o sistema televisivo hipertrofiado da Globo faz de si mesmo? De que os eventos só acontecem para que possam ser transmitidos e encaixados na sua grade de programação.

Se o antigo Repórter Esso, de outros tempo do rádio e televisão brasileiras, dizia que queria ser “testemunha ocular da História”, agora para a Globo a História só aconteceu porque ela assim mostrou.

“Precisa calar a boca…”

Um sintoma desse tautismo crônico da Globo foi o inacreditável episódio de atraso no início da prova dos 200 metros do nado borboleta: a juíza suspendeu o início por falta de silêncio na arena. E segundo o canal inglês BBC a voz alta era do locutor Galvão Bueno. Para o comentarista britânico, Bueno não parava de falar.

“O colega perto de mim precisa calar a boca durante a largada. Desculpem, todo mundo está aqui quieto durante a largada, a árbitra fez a coisa certa”, disse o comentarista Adrian Moorhouse da BBC – assista ao vídeo abaixo.

Conhecido pelas narrações de Fórmula 1 e futebol, Galvão Bueno vem se desdobrando nas Olimpíadas Rio 2016 em vários esportes. Nessa terça-feira foi escalado pela Globo para as provas de natação, dentre elas as duas medalhas de ouro de Michael Phelps.

Não importa o esporte, a narração é sempre a mesma: apoplética, congestionada, fala compulsiva e indiferente se os acontecimentos contradizem seu discurso. Quando contrariado, a narração converte-se num piscar de olhos em comentários e supostas análises, deixando muitas vezes perplexo o comentarista escalado no momento que tenta oferecer um viés mais técnico ao espectador. 

Enquanto as narrações nos canais fechados SporTV se caracterizam pela sobriedade e análises mais técnicas, é na TV aberta (onde a Globo ostenta todo o Poder e hegemonia nos exercícios tautistas com muita metalinguagem e auto-referência) que o estilo Galvão Bueno serve melhor à patologia crônica do autismo global.

Delírio taquilático e a ansiedade do silêncio

Simplesmente ele não para de falar como se a transmissão fosse mais importante do que o próprio evento. Para Galvão Bueno, parece que se houver alguma interrupção na sua fala delirante o evento desaparecerá no ar.

Nele poderíamos encontrar facilmente sintomas psicóticos do chamado “sujeito delirante taquilático” ou “hipercinético”: na aceleração da fala o sujeito é tomado pela ansiedade de não ser assaltado pelo silêncio – certamente essa aceleração leva a gafes metonímicas como, por exemplo, quando anunciou o gol do Santo André como fosse do São Caetano na final da Copa do Brasil em 2004; ou quando confundiu o nome do tenor Placido Domingo com Julio Iglesias quando visitava os boxes da F1 em 2006.

Mas acreditamos que não seja apenas um sintoma pessoal. De fato, Galvão Bueno é a pessoa certa no lugar certo. Dessa maneira, o seu discurso apoplético é também sintoma desse próprio lugar certo no qual se encontra: o sistema tautista global que busca auto-organização e fechamento em relação ao mundo exterior por dois motivos: (a) décadas de hegemonia e ingerências na política brasileira acabaram criando uma imagem de si mesma como fosse o centro de todos os eventos que ocorrem no País e no mundo; (b) a queda de audiência pela concorrência das tecnologias de convergência e Internet faz cada produto ou cobertura de evento da emissora relações públicas de si mesma.

Se toda ideologia teve o seu momento de verdade, pelo menos no passado o histrionismo de Galvão Bueno tinha algum sentido: o patriotismo. A competitividade dos brasileiros na Fórmula 1 com Nelson Piquet e Ayrton Senna e as seleções brasileiras das gerações de craques das eras Romário e Ronaldo eram um pretexto para a fala compulsiva do narrador.

Do patriotismo ao tautismo

Porém, na medida em que as vitórias brasileiras escassearam nesses esportes (e a pérola “a coisa já esteve melhor para o Brasil” solta no fracasso da seleção na Copa da África do Sul foi emblemática) sua voz deixou de emoldurar um suposto patriotismo para se transformar na voz do monopólio da TV Globo.

Não é à toa que sempre fez questão de demonstrar intimidade com os protagonistas dos eventos que narrava: Ayrton Senna, Nelson Piquet, Zico, Gustavo Kuerten, Hortência, Neymar, Anderson Silva etc. Assim como a própria emissora, Galvão Bueno deve imaginar que esses nomes só existiram na história esportiva porque ele narrou os seus feitos.

>>>>>Continue lendo no Cinegnose>>>>>>>

 

Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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14 Comentários
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  1. Junior Sertanejo

    13 de agosto de 2016 2:37 pm

    De parabens Wilson

    De parabens Wilson Ferreira.Galvao Bueno e um ser abjeto.Nao ouco a Globo e por tabela esse traste,ha 13 anos.

  2. naldo

    13 de agosto de 2016 2:55 pm

    Pior que ele só o locutor sem

    Pior que ele só o locutor sem sobrenome

    o tal de luiz carlos jr, esse dá informações sem nenhuma relevancia. como “o fulano é fâ de u2”, fora o sorriso falso, estilo globo, agora a globo não está só, na bandeirantes não se salva ninguem, alem de ser um antro de coxinhas, na gazeta sobrou o mofo esportivo, esse ser falou que ia se aposentar depois da copa do Brasil, mas deu uma de lobão e afirmou que era tudo brincadeirinha; nem tudo está perdido, tambem tem o Milton Leite e o Sergio Mauricio, muito bons.

  3. Paulo Dantas

    13 de agosto de 2016 3:26 pm

    O povo da …

    O povo da Globo , todos eles , se acham mais importante que o fato , em alguns momentos até o ignoram , mas fatos são chatos e eles não (ao menos se acham) ….

  4. Andre Araujo

    13 de agosto de 2016 3:35 pm

    Um dos grandes canastrões da

    Um dos grandes canastrões da TV brasileira em todos os tempos, é incompreensivel que ainda tenha publico, tornou-se um ser caricatural que a idade torna mais ridiculo. Ao lado de Faustão é um maiores deseducadores do povo brasileiro pela exibição permanente de ignorancia, mau gosto, vulgaridade, breguice, deles nada se aproveita nem a brincadeira pois são completamente sem graça.

    1. Junior Sertanejo

      13 de agosto de 2016 6:33 pm

      Desta vez nao posso deixar de

      Desta vez nao posso deixar de lhe dar os meus parabens pelo seu comentario,ainda que ele seja de quatro linhas.

    2. Junior Sertanejo

      13 de agosto de 2016 6:35 pm

      Desta vez nao posso deixar de

      Desta vez nao posso deixar de lhe dar os meus parabens pelo seu comentario,ainda que ele seja de quatro linhas.

  5. resistente

    13 de agosto de 2016 4:14 pm

    OTIMO ARTIGO, O GALVÃO E A

    OTIMO ARTIGO, O GALVÃO E A GLOBO SÃO AVOMINÁVEIS….

  6. Athos

    13 de agosto de 2016 4:41 pm

    Eu gosto dele
    É um bom profissional mas não é mais desse tempo.
    Em tempos de Internet vc tem que ser mais ágil que o Galvão e sua geração o são.

    Os esportes na Globo estão virando uma espécie de Videoshow onde o que importa mais são aquelas caras que vemos todos os dias na TV e não o espetáculo em si.

    Essa geração toda veio do rádio e não dá mais. Discurso quase desconexo com a imagem. Hoje há menos tolerância a isso.

    Sabe porque É assim? Por causa da qualidade de nossos jogos de futebol. Devido a baixa qualidade, eles tem que encher linguiça. O problema só aparece quando tem um Mega medalhista para mostrar, ele nem lembra mais que não precisa encher linguiça.

  7. Jairo T. Mendes Abrahão

    13 de agosto de 2016 4:47 pm

    Globo e esportes.

    Não se esqueçam do resto(!) da rede globo. Milton Leite, para mim, é o melhor narrador de futebol do Brasil! Mesmo assim, ontem, ele me decepcionou. Não assisti o ocorrido, tive conhecimento hoje pela UOL. Um nadador brasileiro, depois de dar o sangue pelo Brasil, na piscina, ficou em sexto lugar. Além de não conseguir melhor posição, não conseguiu sua medalha, fosse ela de qualquer coisa, frustadissimo, foi interpelado pela locutora da SporTV, cujo nome não me interessa, com a súper imbecil pergunta: “Você está chateado?” Ao que ele respondeu:”Não estou chateado! Estou felizão!” O suficiente para que, até, Milton Leite caisse de pau no nadador: “Não precisava ser deseducado!” Ou algo que o valha. Jamais estarei na posiçao do nadador, por razões óbvias! Mas, se acontecer responderei à maneira dele. Não com as mesmas palavras, talvez, mas com a mesma ironia!!!

  8. Carioca

    13 de agosto de 2016 5:00 pm

    O Milton Leite é o cara certo

    O Milton Leite é o cara certo para qualquer esporte.

    Uma simples peleja de bola ou búlica com a narração dele vira uma coisa vibrante, divertida, descontraída.

    Ao contrário do Galvão, não dirá que o “jogador Pirulito disse para ele antes da partida que ia fazer de tudo para preservar a bola de gude de vidro do Azeitona em respeito ao fair-play do adversário, e não inimigo como ele mesmo me disse, na partida anterior no campinho do lendário Xupera Futebol Clube, que eu tive a honra de receber o título de Jogador Honorário quando o Ayrton Sena dsitribuiu trinta e cinco saquinhos de bolas de gude que eu e ele fomos prenseteados por Giácommo Ururi, fundador da centenária fábica Veneccia em Murano”. Quanto ao resultado da partida todos saberemos quinze minutos depois de terminada o auto-elogio …

    Por que no te calas, Galvão?

  9. Vânia

    13 de agosto de 2016 5:42 pm

    Sem comentários…

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=8q5t2mGRhYs%5D

    1. zanchetta

      13 de agosto de 2016 5:48 pm

      KKKKKKKKKKK…
      Lembrou

      KKKKKKKKKKK…

      Lembrou essa…

      [video:https://www.youtube.com/watch?v=un8-Dakxnys%5D

  10. Marcos K

    13 de agosto de 2016 7:48 pm

    Não existe palavra para

    Não existe palavra para qualificar Galvão Bueno. Chega a ser até engraçado ouvir suas tentativas de mascarar as reais chances dos atletas brasileiros. Por mais esforço e por melhores que sejam, claramente se nota que nossos atletas estão muito longe do nível exigido de uma Olimpiada, mas o Galvaõ faz parecer que são atletas de ponta com muita chance. Penso que é um vício que a Globo herdou da Ditadura: fazer parecer que a coisa vai bem quando na verdade vai muito mal. Só rindo mesmo. Só sendo muito idiota pra acreditar na Globo et caterva.

  11. Clever Mendes de Oliveira

    13 de agosto de 2016 9:38 pm

    O sucesso de Galvão Bueno vem do falar contínuo dele

     

    Wilson Ferreira,

    Eu mesmo nunca gostei de Galvão Bueno, mas não perdia tempo em o criticar. Em 2010 quando ganhou o mundo o episódio de “Cala Boca, Galvão!”, eu procurei ver porque as pessoas tinham tanta antipatia por ele e também porque se dava tanta importância a ele para se desencadear uma campanha em escala mundial.

    A escala mundial foi um tanto devida as novas redes sociais disponíveis na internet sendo ali mais ou menos quando o Twitter granjeou mais repercussão. Agora, o Galvão Bueno fala muito e a fala dele é entremeada por lugares comuns e frases quase sem sentido. Eu então passei a reparar fazendo comparações com outros locutores e dava para perceber que Galvão Bueno falava sem parar. Nos outros canais as narrações esportivas não são contínuas, mas ao contrário ficam como que entrecortadas por espaços silenciosos de fala humana. Eu não sei se posso tomar os outros por mim, mas salvo talvez para alguém que acostumou a ver televisão dentro do mais absoluto silêncio sem querer ouvir vozes ou qualquer outro ruído, minha percepção é que nós, ou a maioria de nós, precisamos escutar alguém falando quando estamos diante da televisão.

    O Galvão Bueno me parece a pessoa mais habilidosa para preencher esse espaço destinado a sonoridade da voz humana. Há situações específica, como diante de um filme da natureza ou de alguma manifestação da natureza ou de animais ou aves, em que não é preciso escutar alguém falando ou que alguém falando seja até ruim de se ouvir, mas na maioria das vezes quem assiste televisão precisa escutar quem está lá do lado da tela falando.

    Esse talvez seja a razão do sucesso de Galvão Bueno, sendo que, na atividade que ele exerce de locutor esportivo, dado que a fala dele é praticamente ininterrupta, ele acaba dizendo muita coisa sem importância e inútil e além disso não consegue parar de dizer, até nos momentos em que falar deveria ser quase proibido. Então me parece que o sucesso dele é essa capacidade de falar sem parar que ele tem e sem se preocupar com qualquer atrocidade que o falar disparatado, acelerado e contínuo dele comete.

    Aliás, o falar ininterrupto dele cheio de equívocos e lugares comuns, mas que atrai uma boa audiência, mesmo entre os que não o toleram, faz lembrar a diferença entre os que falam uma língua estrangeira sem se preocupar com os erros e os que falam tentando evitar qualquer erro. Esses últimos têm muito mais dificuldade de se expressar e acabam sendo muito menos eficazes em transmitir o que queriam dizer do que aqueles que falam sem pestanejar.

    Clever Mendes de Oliveira

    BH, 13/08/2016

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