5 de junho de 2026

Garantia de atraso intelectual, por Paulo Moreira Leite

Sugerido por Romulo Cabral de Sá

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Da Istoé

GARANTIA DE ATRASO INTELECTUAL

Como o estigma “chapa branca” impede o país de fazer um debate necessário sobre seu futuro
 
Muitos adversários do governo Lula-Dilma gostam de denunciar o Partido dos Trabalhadores como um adepto das ideias de Antonio Gramsci, o lider do Partido Comunista Italiano que, nas primeiras décadas do século XX, formulou o conceito de hegemonia de classe.

Convencido de que a tese do assalto revolucionário ao poder, como havia ocorrido na revolução bolchevique, de 1917, não poderia ser aplicada a todos os países, Gramsci dizia que o partido da classe trabalhadora deveria aliar-se a outras classes sociais, para formular uma política que lhe permitisse governar em nome da nação.

Para construir sua hegemonia, dizia, o partido daquilo que se chamava classe oprimida, na época, deveria formar seus próprios aparelhos ideológicos, seu corpo de intelectuais,  seus centros de produção de cultura, seus jornais, seu cinema, seu teatro – numa guerra de movimentos que lhe permitisse, em determinado momento, colocar a conquista do poder. 

É  verdade que inúmeros petistas, em vários momentos de sua existência, se debruçaram sobre as ideias de Gramsci.

Mas quem pratica Gramsci, no Brasil de 2014, é a elite que ocupa o poder. Ela busca, de modo consciente, reforçar e manter a  hemegonia das ideias da sociedade, atuando em todas as áreas.

Como nós sabemos, não se perdoa nem novelas, que se prestam a veicular valores e a divulgar pontos de vista sob medida para seus interesses.

Gramsci  ajudou a entender, me conta um de seus estudiosos, que “a burguesia não precisa de partidos políticos quando seus jornais funcionam direito.”

Apesar desse imenso aparato ideológico a seu serviço, a elite que tem o poder de Estado e dirige o país desde o Descobrimento, com intervalos reais, mas raros, nos quais nunca foi levada a abdicar de seus direitos fundamentais, encontra-se numa posição de risco em 2014.  As dificuldades parecem um pouco menores do que em eleições anteriores, é verdade, mas sua perspectiva histórica segue complicada.

As derrotas eleitorais se acumulam desde 2002, em tres vitórias sucessivas para  um bloco político que, sem nada de revolucionário nem de radical,  tem sido capaz de realizar  tarefas históricas, que beneficiam o conjunto da sociedade. São medidas que melhoram a distribuição de renda,  a geração de empregos mesmo em situações desfavoráveis, a defesa dos trabalhadores e dos mais pobres, sem falar medidas menos reconhecidas, mas importantes, em outras áreas.

Nesta situação, a elite defende sua hegemonia através de um estigma.

Da mesma forma que criminalizou os adversários políticos através da AP 470, um julgamento de exceção com regras que jamais foram partilhadas com adversários políticos de outras legendas, apanhados em circunstâncias idênticas e até mais graves, procura-se atacar seus críticos com o palavrão “chapa branca.”

Com essa expressão, tenta-se intimidar aliados do governo e colocar sob suspeita todo esforço para registrar e debater dados e análises que mostram,  objetivamente,  que as mudanças positivas ocorrida na vida da maioria dos brasileiros nos últimos anos, superam, em muito, erros, falhas e desvios  no mesmo período.

Embora essa avaliação favorável tenha recebido a concordância, em graus variados, de mais de 60% dos eleitores brasileiros,  usa-se o termo “chapa branca” para destituir a legimitidade desse ponto de vista.

Num país onde os principais jornais apoiaram a ditadura militar. Curvaram-se diante de Fernando Collor. Alegando que o fim da História havia chegado,  mergulharam de cabeça nas privatizações de Fernando Henrique Cardoso, chegando a imaginar até que poderiam levar sua parte em ações, procura-se transformar em desvio moral-intelectual toda avaliação positiva do  governo Lula-Dilma.

Veja bem: estamos falando do presidente mais popular da história, e da presidente-candidata que lidera as pesquisas de intenção de voto.      Como se vivessemos numa imprensa de comentaristas neutros, repórteres sem ideologia ( “investigativos”) e editores equilibradíssimos,  a divergência política tornou-se um pecado sem perdão e toda melodia intelectual desafinada é colocada sob suspeita. 

Na dificuldade para enfrentar um debate com dados e argumentos, procura-se impedir a discussão antes dela começar. 

Neste esforço, acentuado num ano de sucessão presidencial o plano está ficando claro. Tenta-se convencer o eleitorado da ideia de que um retrocesso conservador é não apenas necessário mas inevitável. Nessa narrativa, todas as formas de pensamento devem ser niveladas por baixo.

A fórmula está pronta e é repetida como um estribilho de festa junina: o país não aguenta tantos gastos excessivos e descontrolados. A inflação  está explodindo e um arrocho terá de ser feito – qualquer que seja o novo presidente.

O que se pretende neste côro é criar um ambiente conformista,  um fatalismo em bola de neve, para transformar as escolhas de 100 milhões de eleitores num ato acessório e no fundo dispensável.

O problema, como se sabe, não é um campeonato ideológico. Não se deve supor um mundo perfeito. Não estamos no reino das utopias nem do marketing. Mas é preciso fazer o teste da realidade.

A inflação média é a menor desde o Plano Real. O desemprego não aumenta e o salário sobe, ainda que mais vagarosamente. O Brasil tem a quinta maior reserva em divisas do mundo, volume compatível com o tamanho da nossa economia. O mercado interno se comprovou como um dos grandes patrimônios do país.  O poder de compra do salário mínimo nunca foi tão alto em décadas recentes.

Com seus rendimentos, mesmo modestos sob qualquer critérios, nossos aposentados são capazes de sustentar famílias inteiras em regiões mais pobres do país. O combate ao racismo deixou o papel e se traduziu em medidas concretas para criar novas oportunidades a população negra. As mulheres avançaram em sua emancipação, que ainda não é completa, auxiliada por vários fatores — inclusive o Bolsa Família. 

O uso frequente do termo “chapa branca” é, ainda, um reflexo de um movimento autoritário que procura se impor no debate político e definir limites ao convívio democrático.  

Descontando os filósofos de butique que adoram anunciar o fim da divisão de direita e esquerda como parte da liquidação do Natal de 1989, quando o muro de Berlim caiu,  só a grande a hegemonia ideológica conservadora permite que a direita sobreviva e se reproduza sem ousar dizer o seu nome.    

Depois de enriquecer e se reconstruir sob uma ditadura de 20 anos, que gerou monstruosidades tão horrorosas que até hoje não foram investigadas nem corrigidas inteiramente, “chapa branca” evita esse desconforto tão inconveniente. Evita definições precisas e referências claras.

Como a expressão remete a governo – no passado, os carros oficiais tinham chapa branca – a crítica  alimenta-se de uma retórica liberal, privatista, anti-Estado.

É chique não ser “chapa branca”.

Surgere independência, ainda que isso seja um puro absurdo.  O acesso a grandes fortunas privadas, que promovem e sustentam financeiramente o pensamento conservador de  nossos dias, está longe de ser uma  garantia de isenção e superioridade, vamos combinar.  

Mas, num tempo em que a privatização atingiu o nível cerebral,  fica sugestão de que ali  se encontra mais inovação, mais autonomia, maior ousadia. Defender os interesses dos mais ricos e poderosos chega a ser apresentado como ato de coragem. 

Nos Estados Unidos, os adversário de Barack Obama gostam de acusar o New York Times, o mais respeitado jornal do planeta, de ser governista demais – no dialeto político local, o termo equivale a chapa branca. Ninguém leva essa crítica muito a sério, porque ela é interesseira do ponto de vista político. Quem espalha e divulga este estigma, e até faz campanhas de boicote contra o jornal, são os núcleos duros do Partido Republicano, que cresceram junto com o Tea Party.  Como Paul Krugmann demonstra com clareza em sua coluna de hoje, o que se busca é uma forma de mentir à vontade.

Nenhum desses dados modifica uma discussão necessária sobre  a conjuntura do país.

Mas permite colocar em seu devido lugar um debate alarmista,  desequilibrado, sob encomenda para tentar revogar as conquistas dos últimos anos com o argumento de que o país vai explodir. Deu para entender, certo? 

 

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12 Comentários
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  1. Assis Ribeiro

    12 de maio de 2014 3:32 pm

    Alessandre de Argolo

    “Não duvidem. Basta ver o clima disseminado nas redes sociais contra o PT, seus militantes e simpatizantes.

    A situação de pré-violencia é tão notória, que qualquer pessoa lúcida que critique o direcionamento dado pela grande imprensa a uma determinada notícia tem, antes de tudo, que dizer que não apoia o PT, que não apoia a Dilma, etc, como medida preventiva para não sofrer ataques, o que não adianta nada. Os ataques surgem da mesma forma, como num autêntico linchamento, em que a pessoa se diz inocente e os linchadores não querem saber.”

  2. Assis Ribeiro

    12 de maio de 2014 3:35 pm

    Roberto Militão

    “Por isso reitero que a conjuntura nos trouxe a raríssima oportunidade de – sem traumas nem rupturas – criar-se um ambiente político com o apoio popular para viabilizar as grandes reformas estruturais que o país espera e necessita.”

  3. JB Costa

    12 de maio de 2014 4:53 pm

    Verdade: há uma espécie de

    Verdade: há uma espécie de queixo empinado desses opositores do atual esquema de Poder. Todos, uns mais, outro menos, postam-se como superiores moralmente superiores quando querem criticar o PT, seus próceres, militantes e simpatizantes. A depender deles, seríamos obrigados a tatuar no braço uma numeração e andar com certo tipo de vestimenta, tal qual os nazistas impuseram às minorias e aos judeus.

    E as semelhanças com o nazismo não param por aí. Ou não será uma tática goebbeliana a avalanche diária de más notícias, a seletividade do noticiário? 

    Em que difere esse desprezível Reinaldo Azevedo e a VEJA com suas demonstrações de ódio aos petistas,  de Julius Streicher(condenado à morte em Nuremberg)  e seu “Der Stümmer” nas campanhas de difamações e excitações contra judeus nos anos trinta e quarenta?

    Para este escriba: em nada. 

    1. Carlos Dias

      12 de maio de 2014 6:08 pm

      JB, oportuno

      lembrei desse caso do Julius Streicher ontem aqui num comentário. e prometi fazer umpost sobreo tema. Se voce tem mais detalhes, poderia postar para o pessoal ver um tipo de crime da mídia. Punido com condenação severa em Nuremberg.

    2. Carlos Dias

      12 de maio de 2014 7:39 pm

      Foi mais ou menos o que postei ontem

      no post sobre a condenação do Boechat. Como o JB Costa lembrou muito oportunamente resolvi repor o meu comentário que converge para o que apontou acima.

      tenho visto muita gente boa pegar no pé da barbi do sbt, mas eu creio que quem deveria ser processado por incitação a violência e por atentado contra o Estado é esse Boechato. Tem um clipzinho, da época dos protestos e que anda ai na internet facinho pro Janot ver, onde o idiota defende o quebra-quebra , a baderna, etc… Então eu acho que é um elemento desagregador e criminoso midiático. Propagandista do golpe ao melhor estilo fascista.

      Coisa incrível é que um apresentador de um telejornal de repercussão nacional pode dizer essas coisas e ficar impune. Sim, impune, pois essa condenaçãozinah não muda nada… Ele é criminoso midiático de longa data e anteriormente nunca fora confrontado.

      Uma vez que a midia está reagindoa regulação, é bom lembrarmos um pouco de como o fascismo na alemanha se aliou a propagandistas da mídia e assim a ideologia atingiu mais fortemente o povo. No famoso julgamento do século (passado) em Nuremberg um dos ícones do fascismo midiático foi condenado por crimes contra a humanidade… É bom ter em perspectiva esse tema, sobre isso vou fazer um post e pedir que o Nassif publique.

      Um livro de Reich, se não me engano, “a função do orgasmo” narra com alguns detalhes as tecnicas de propaganda criminosa e seus efeitos sobre as massas. Vou dar uma fuçada aqui e em breve jogo aqui as referencias mais diretas.

       

      É preciso ter sempre em mente que nada do que está acontecendo com nossa mídia nativa PIG é novidade.  A sordidez e o uso da midia propagandística ideológica, criminosa, bandida, patrocinada pelos setores mais nefastos das sociedades modernas são bastante comuns nos ultimos seculos. E trouxaram muitas vezes consequências desastrosas. Não devemos desprezar o poder das mídias, embora a internet hoje seja uma fronteira de combate, ainda não é um campopacificado e promete muitos mais embates pesados. vide a convocação da marcha dos coxinhas em junho passado via redes sociais. O que é preciso ter também sempre em mente é que a mídia não é algo inofensivo, que eventualmente erra. Não! Temos inúmeros exemplos de crimes midiáticos. O mais emblemático em minha opinião foi o que o JB Costa lembrou acima, mas temos muitos outros crimes perpetuados pelas mídias conservadoras. è preciso imediatamente iniciar amplo debate para termos uma lei geral das mídias, incluído capítulo que trata de crimes midiáticos.

       

  4. Maria Izabel L Silva

    12 de maio de 2014 5:35 pm

    Como sempre, mais um PML

    Como sempre, mais um PML irretocável. Quem pratica Gramsci não é o PT. É a propria elite economica e financeira, dona dos meios de comunicação e dos tribunais. Tá tudo dominado. O PT apenas boia, nesse mar de merda…

  5. Motta Araujo

    12 de maio de 2014 6:01 pm

    Nada a ver, que pobreza de

    Nada a ver, que pobreza de raciocinio. A tese de Gramsci tem como objetivo fazer com uma classe que está FORA DO PODER tome o poder por meio da ação construtiva de uma plataforma na cultura, na midia, nos centros de pensamento.

    Tomar o poder de quem está HISTORICAMENTE no poder, aquilo que Gramsci considera a ELITE TRADICIONAL.

    Então a ELITE TRADICONAL nunca poderia usar o metodo de quem está fora do poder, já que ela é atacada por ser elite, por sua origem, a ELITE é a cidadela a ser assaltada, não pode ser ao mesmo tempo o outro lado.

    A ELITE usar a tese gramsciana é a maior bobagem que vi escrita nos ultimos tempos mesmo considerando o oceano de bobagens que se apresena aqui.

    Para quem quiser saber mais sobre a formação do pensamento gramsciano sugiro a leitura do livro recentemente publicado O ALFAIATE DE ULM.

     

    1. lenita

      12 de maio de 2014 8:38 pm

      Se o doutor sabe tudo falou,

      Se o doutor sabe tudo falou, tá falado ! Quem sou eu o Paulo Moreira Leite para contestar. tudo a ver, né?

    2. Alexandre Weber - Santos -SP

      13 de maio de 2014 1:19 am

      Vou com o Motta nesta

      A elite é pragmática, não se apega a hipóteses teóricas, traça uma estratégia e usa as táticas necessárias para obter o que deseja

      Falar de Gramscismo como suporte intelectual para o governo é rematada besteira.

  6. Durvaldisko

    12 de maio de 2014 10:47 pm

    Clima  de preparação  do que

    Clima  de preparação  do que pode vir,revela os extremos  a que  chegou  a desesperada mídia.Porta voz das elites  oprimidas. Doze anos sem intimidades executivas naturalmente  desequilibram  o mais saudável dos reacionários. Observa-se,sem  paranoia  conspirativa, um complexo  harmônico de agitação crescente ,”allegro con molto”,previamente  testada , desenvolvida  e com avaliação promissora.

    Assiste-se a um torneio,que predomina a “morte súbita”. Sem  segundas chances nem  contemplação.

    A diferença, é que neste   ,definitivamente, o espírito esportivo abandonou o corpo há muito…

  7. Miguel A. E. Corgosinho

    13 de maio de 2014 1:34 am

    Segundo o constitucionalista Pedro Serrano:

     “O Brasil vive uma situação em que o Estado de direito constitucional está tensionado pela questão da soberania popular. E, nesse caso, “a sociedade deve ser dona de seu destino.”

    Logo, um exemplo de teor da constituinte exclusiva, num segundo sentido, não se refere as teses doutorais ou de políticas para financiamentos de campanha eleitoral ou das patologias de segurança pública. Como se vê, neste caso o elemento caracterizador das manifestações é coerente com as questões respectivas ao “Estado de direito constitucional” em relação ao diagnóstico do tema considerado para parte teórica: o vácuo de uma política da soberania popular.

    Quanto a uma “constituinte exclusiva e original” é oportuno esclarecer para a sociedade que a sua sintomologia exclusiva é definir políticamente a instituição da soberania popular para a sua visão original – origem, pela própria etimologia da palavra, a rigor, significa “voltar à fonte”.

    Em termos de atualização de origem: “a sociedade deve ser dona de seu destino.” Está aqui o elemento que tem dado origem para o estudo da ciência em todo mundo, e, em se tratando de relevância contemporânea – A realidade se apresenta no modo novo de abordar como o povo perdeu a soberania popular, e, através de inventos, ao mesmo tempo, uma fonte privada consegue fazer o escopo da receita do desenvolvimento para si, com as relações sociais pela teconologia da moeda digital.

    É preciso atentar que o governo obscurecido e delimitado como fiador do crescimento difere na qualidade da constituinte, devido as ideias do processo econômico sobre o financísmo, se colocando ingênuo ao problema, quando se assenta numa revisão constante de um progresso acumulativo equivocado, pelo aumento da dívida social com títulos públicos.

  8. Nilva de Souza

    13 de maio de 2014 7:54 am

    Em 2010 quase apanhei de um

    Em 2010 quase apanhei de um grupo de jovens porque estava paramentada de petista. E houve casos de agressão física no Diretóriodo PT do bairro onde eu votava.

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