5 de junho de 2026

Jornais adentram o nono círculo do inferno, por Caio Túlio Costa

Do Observatório da Imprensa

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Por Caio Túlio Costa 
 

A partir de quarta-feira (13/5), The New York TimesNational GeographicThe Atlantic, NBC News,The Guardian, BBC News, Bild, Spiegel Online e BuzzFeed – oito monumentos do jornalismo clássico e um monumento da nova mídia – integram o projeto de publicação de notícias diretamente em suas páginas do Facebook contra a comercialização de publicidade lá dentro. Os veículos ficarão com 30% da receita dos anúncios incluídos pelo próprio Facebook e com 100% da receita que conseguirem vender por si próprios no espaço facebookiano.

Ou seja, os jornais abriram mão de levar mais audiência para seus respectivos sites e também vão publicar notícias diretamente no Facebook.

'The New York Times' no Facebook, em 13/5/2015

‘The New York Times’ no Facebook, em 13/5/2015, com uma foto-homenagem ao colunista David Carr (1956-2015)

Nada mais correto, monetizar o conteúdo onde está o leitor, como este que vos fala havia alertado no passado (ver “Um modelo de negócio para o jornalismo digital”).

Mas, agora, há indícios de que o Facebook – que cada vez mais é empresa de mídia e cada vez menos rede social – conseguiu enrolar em grande estilo empresas de comunicação muito sérias e na batalha para resolver a questão digital.

Ainda se trata de uma experiência, evidentemente. Enquanto for experiência, o Facebook vai se mostrar bonzinho. No entanto, o histórico do comportamento tanto de Mark Zuckerberg na consolidação de seu poder no Facebook quanto o de negócios da empresa com parceiros, sugere que as publicações que aceitaram este experimento precisam ficar de pé, perna e braço atrás.

Alerta de Dante

Quando a Zynga incluiu o social game FarmVille no Facebook, em 2009, era tudo maravilha. Como os jornais agora, ela podia comercializar o joguinho diretamente e levava 100% da renda. Logo que o sucesso chegou para a Zynga, e a mesma ajudou o Facebook a ganhar audiência (entre 2009 e 2010 o Facebook ultrapassou a barreira dos mais de 600 mil novos usuários por dia!), o Facebook decidiu lançar sua própria moeda de comercialização interna e logo depois reviu o contrato com a Zynga e dela passou a cobrar comissão pelo que ela própria vendia dentro da plataforma.

Ao mesmo tempo, restringiu a distribuição dos posts da Zynga. Exatamente como passou a fazer com todas as marcas e com todos os usuários, obrigando-os a “impulsionar” os próprios posts. Ou seja: todos tiveram que pagar ao Facebook para ser mais vistos no próprio Facebook.

A restrição da visualização dos posts foi aplicada paulatinamente. Hoje, pasmem, somente de 2% a 4% dos seguidores ou amigos de cada página ou de cada perfil conseguem visualizar posts que não sejam “impulsionados”. Como o Facebook diz, é a forma de entregar para os usuários somente o conteúdo de “alta qualidade”. Qualidade segundo seus próprios critérios, obviamente.

O Facebook enfrenta problemas como o de continuar conquistando usuários jovens. Também precisa, desesperadamente, fazer crescer sua receita. Faturou US$ 7,8 bilhões em 2014 contra US$ 66 bilhões do Google, sua Nêmesis. Outro dado assustador para o Facebook é que, desde que suas receitas são conhecidas, ele levou oito anos para faturar US$ 7,8 bilhões enquanto que, respectivamente, em oito anos o Google estava faturando US$ 23,7 bi – três vezes mais.

Uma das últimas providências do Facebook na faina de buscar desesperadamente mais receita veio em abril. Fechou os portões para as buscas que empresas de monitoramento da internet realizavam lá dentro. Obviamente, o próximo passo vai ser o próprio Facebook vender sua busca interna – e impedir assim que outros negócios floresçam na órbita de sua narcísica plataforma.

Ou seja, se der certo a iniciativa de quarta-feira (13), daqui a pouco, quando acabar a experiência, ou então um tempo depois para não criar tanto atrito, quando novas publicações forem admitidas e se animarem com a possibilidade de angariar mais receita com a publicidade comercializada lá dentro, o Facebook vai fechar a torneira e cobrar uma bela comissão – ou chegar com outra restrição qualquer. Exatamente como tem feito ao longo de sua história.

Dante já alertou: no último círculo do inferno não há fogo, e sim frio. Lá ficam os traidores. Será que, nesta estratégia de abraçar o demônio, os jornais deixaram para trás toda a esperança quando adentraram aquela porta?

***

Caio Túlio Costa é jornalista, Columbia University Graduate School of Journalism Visiting Research Fellow (outono de 2013), e professor do Comunicação e Informação na Era Digital da Escola de Propaganda e Marketing (ESPM) de São Paulo

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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7 Comentários
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  1. Athos

    14 de maio de 2015 2:24 pm

    Deus é a resposta!
    Só li a manchete. Quero emitir opinião virgem.

    Pelo peso, relevância e quantidade de envolvidos, só pode ser ordem de cima.
    Deus veio a Terra e instruiu estas empresas a fazerem isso.

    1. Carlos FM

      14 de maio de 2015 3:29 pm

      Deus?

      O Todo-Poderoso agora se chama NSA?

      1. Athos

        14 de maio de 2015 6:13 pm

        A resposta que procuras está na Bíblia!

        NSA quer dizer Não é Santo Antônio! É o apelido do apóstolo que não tem nome!

        “NSA é o apelido de um dos novos apóstulos a disseminar a palavra divina palas bárbaras terras do Diabo onde a vermelhidão do fogo se espalha sem contenção.”
        Jacó Capítulo 5 versículo 23

    2. robson_lopes

      14 de maio de 2015 3:46 pm

      O deus dinheiro ou desespero.

      O deus dinheiro ou desespero.

  2. Hcc

    14 de maio de 2015 3:53 pm

    Aqui tem particularidades.

    Só memo neste país da jabuticaba os jornalões promovem o seguinte:

    “Senhores anunciante, ajude-nos na campanha de divulgar a depressão e crise, o medo de perder o emprego e o pessimismo. Nossas manchetes diárias dizem o quanto o país está mal. Associe seu produto e sua marca a este objetivo maior.”

    Mentindo ele se suicidam. E convidam os parceiros a ir junto. E tem quem anuncie. Até o governo.

  3. Jurandir Paulo

    14 de maio de 2015 5:04 pm

    O abraço dos afogados

    Talvez os jornais já tenham se conformado a ganhar likes no lugar de dinheiro. Mas, de tudo o mais interessante é lembrar que jornais tiveram no passado uma preciosa fidelidade. Até hoje sinto saudades do velho JB. Na internet, fidelidade não vale um papel de bala. Apostam alguns que o Facebook tem prazo de validade, e este está para vencer em breve. Portanto, parece que veremos jornais e Facebook morrerem abraçados.

    1. Athos

      14 de maio de 2015 6:24 pm

      Complementando…

      Não é apenas isso.

      Os jornais, com isso, aceitam pela primera vez ter sua relevância medida por terceiros. Justamente  pelos likes! A Informação agora será pública!

      Qual a relevância da Veja? A relevância são seus 1 milhão de assinantes. MAs quem diz que são 1 milhão de assinantes? Bingo!

      Os jornais são o mesmo. Vendem tanto quanto dizem que vendem portanto são relevantes pelo tanto que dizem ser.

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