Mainardi, a síndrome de Peter Pan e as mudanças geracionais na Internet

O modelo de criação do personagem Mainardi se espelhou filme “O poder da mídia", de 2004.

É curioso a dinâmica que move os jovens ativistas de Internet.

A tribo começou a se formar cerca de dez anos a quinze anos atrás, reunindo-se em eventos, como os promovidos pela Telefonica, e mesmo nos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre. E tinha seus gurus, como Marcelo Tas, programas como CQC e outros de humor agressivo, transgressor, inspirados em programas argentinos.

Durante certo tempo, Diogo Mainardi também se transformou em modelo para parte da tribo. Era relativamente jovem, sem limites éticos ou sociais, ou com responsabilidades próprias de adultos caretas (como a educação), disposto a ofender a todos, a chamar o próprio presidente da República de anta. Em suma, o estereótipo do jovem transgressor, celebrado em filmes juvenis americanos, daqueles que no meio do banquete sobem na mesa e sapateiam, para regalo das plateias jovens e, especialmente, para as novas tribos dos antenados em tecnologia.

Eram jovens com visão transgressora, com baixa cultura política e histórica, aliás com resistência contra qualquer forma de engajamento político, e sem informação para entender o jogo montado em torno de Mainardi.

Roberto Civita trouxera dos Estados Unidos o padrão de agressão política sem regras, inspirado em Rupert Murdok e apropriando-se do discurso de ódio da ultradireita. Por volta de 2005, Civita articulou a estratégia política com os demais grupos de mídia, todos em crise econômica, com a maxidesvalorização de 1999, e inseguros em relação à invasão do mercado por grupos de telefonia.

Tratava, então, de ganhar poder político para poder influenciar futuros governos e proteger-se contra os inimigos externos – que não eram nem cubanos, nem venezuelanos, mas as criaturas do Vale do Silício.

Nessa estratégia, um dos pontos relevantes foi a guerra cultural, uma blitzkrieg no chamado Olimpo das celebridades, com ataques a jornalistas, artistas, intelectuais que não fossem totalmente alinhados com seus objetivos. A diversidade de opinião começou a ser torpedeada ali, preparando terreno para o fenômeno Bolsonaro.

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O segundo ponto foi a tentativa de criação de um novo Olimpo de celebridades, que ganhassem visibilidade para o trabalho sujo de serem os batedores incumbidos de lançar bombas de assassinatos de reputação e fakenews para preparar o terreno para os blindados, os partidos políticos alinhados.

O modelo de criação do personagem Mainardi se espelhou filme “O poder da mídia”, de 2004. No filme, o dono de uma rede de TV seleciona um jornalista cultural,  e passa a alimentá-lo de dossiês, construindo uma imagem nacional de jornalista corajoso. Com a imagem construída, ele passa a fazer reportagens que ajudavam um dos grupos em uma disputa pela privatização de teles.

Esse modelo foi provavelmente sugerido por Daniel Dantas, em sua parceria com a Veja. A virulência de Mainardi passou a ser enaltecida pela mídia, embora atropelasse normas mínimas de objetividade e civilidade jornalística. Uma matéria do Estadão (por respeito a um velho colega, não vou mencionar o autor) comparava-o a Carlos Lacerda. Quatro páginas de Veja o tratavam como o “guru do Leblon”.

Na época, Veja era uma máquina imbatível de assassinar reputações e uma praticante do jornalismo de esgoto, estilo que a levou ao descrédito. E abriu espaço para Mainardi atuar sem limites, difundindo dossiês falsos, fuzilando pessoas. Detinha provisoriamente um poder derivado, que se esgotou assim que Veja o afastou e ele precisou sair do país, ameaçado de prisão por crimes contra a honra.

No auge desse modelo, um dos futuros ativistas digitais, Leandro Demori, se encantou com Mainardi a ponto de se dispor a trabalhar como seu cinegrafista. Depois, tornou-se editor do The Intercept e passou a ser orientado pelo jornalismo sólido de Glenn Greenwald.

Esta semana o editor foi alvo de um ataque de Mainardi, tratando-o com desprezo, como o jovem que não passara de seu cinegrafista. A reação da jovem militância digital, que antigamente idolatrava Mainardi, mostra como são rápidos os processos de troca geracional no ambiente das redes sociais.

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Mainardi foi atacado em centenas de comentários do Twitter, tratado como “velho”, “ultrapassado”. O “enfant terrible” de uma cultura que cria e destrói personagens em prazos curtos, tornara-se velho demais para continuar vivendo o personagem jovem-transgressor, e não teve fôlego intelectual para reciclar-se e tornar-se o adulto conselheiro dos jovens, como aconteceu com colegas mais talentosos que se reciclaram e se tornaram democratas desde criancinhas.

Peter Pan também envelhece.

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23 comentários

  1. Do texto: “…preparando terreno para o fenômeno Bolsonaro.”
    Discordo de “fenômeno”, substantivo normalmente usado de forma positiva. Seria mais aplicável utilizar DESASTRE.

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  2. O que envelhece é a mentira, daí a necessidade de renová-la, sempre, permanentemente. O antipetisno nao está baseado nos tais “erros” do PT, PT, PT ou em divergências acerca do papel, fundamento ou tamanho do Estado, está cansativamente apoiado em preconceitos tolos, mentiragens bestas e, em larguissima medida, neuroses profundas.

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  3. Que bom saber que esse Demori foi cinegrafista deste fugitivo. Agora dá para entender algumas barbaridades que ele fala. O Glenn ainda vai ter muito trabalho com este pupilo.

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  4. Ah, Nassif, nao vem com insinuacao nao, don’t come because don’t have, ok?

    Voce queria dizer que Mainardi eh *canalha*?

    Entao diga. Eu digo, porque voce nao pode?!

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  5. Mainardi filho é tão ordinário quanto o pai: Enio Mainardi.
    Enio ainda hoje, depois dos crimes revelados pelo The Intercept, endeusa Moro como “um justo”, compara os petista aos nazistas e, consequentemente, pede o enforcamento para “os do PT e seus amigos”. O ordinário-pai afirma que “o PT controla quase todas as instituições, inclusive o STF”. Ele não é burro, não. Ele é um sujeito infame, difamador, mentiroso…
    Para esta família cabe muito bem aquele adágio: “Filho de ordinário, ordinário é”.

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  6. Traz um sentimento de satisfação assistir a decadência de bandidos canalhas disfarçados de jornalistas, como Diogo Mainardi, que um dia se ajoelhou para pedir que alguém lhe desse uma única prova contra Lula. Outro bandido canalha, sem nenhum escrúpulo, que já teve os seus quinze minutos de fama e agora, à semelhança de Mainardi, também se desmancha. A diferença entre esses canalhas é que esse último chamado Fernando Moro fantasiou-se de juiz e, com o mesmo propósito de Mainardi, moveu todos os poderes de Estado, a serviço dos crimes mais abjetos, sob a tolerância e proteção de todos os ocupantes de cargos de poder no judiciário corrompido, para levantar uma prova, uma única que fosse, que pudesse servir de fundamentação para condenar o grande Lula. Mas não encontrou nem uma única multa de estacionamento irregular que pesasse contra o inimigo que pretendia abater. Não se deu por vencido e condenou Lula por “ato indeterminado”, que não há defesa que possa enfrentar tal acusação. Destruiu o país, fraudou as eleições presidenciais e tornou-se ministro do governo proto fascista que ajudou a eleger. Também era e é desprovido de compreensão da dimensão política de Estadista do inimigo que ousou pretender destruir. Hoje espera-se que se esteja iniciando o longo processo que o levará a pagar por, pelo menos, alguns dos crimes que cometeu.

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  7. “…como aconteceu com colegas mais talentosos que se reciclaram e se tornaram democratas desde criancinhas.”
    Quem viu os ataques torpes que você sofreu desses “democratas desde criancinhas”, não esquece…. e separa o joio do trigo.

  8. O DM tem em sua formação também, o trato marqueteiro do pai, o ex-publicitário Enio Mainardi. Enio foi inclusive, em tempos idos, o apresentador de programa pioneiro de “julgamentos televisivos” feitos para assanhar o público a crer que votar num dos lados (sem saberem que edição de TV é criação de narrativa) era o mesmo que fazer história. Dali saíram os você decide e bbs (e certamente inspiraram os policialescos modernos a estragar a saúde mental das pessoas durante às tardes), que serviram e servem muito mais a provocar a intolerância e o “paredismo” dos inimigos. Programas por sinais de alta audiência pelo público jovem.

  9. Diogo Mainardi faz parte daqueles jornalistas que mais tripudiaram e menosprezaram Lula e o PT e quando ele se sentiu minimamente amaeçado por seus atos, fugiu do Brasil para não lidar com as consequências. Um moleque cheio de arrogância, mas vazio.

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  10. O dilema não é a velhice do Mainard, é justamente a verdade do Mainardi. O cara era cinegrafista de repente torna-se jornalista? Só que não poderia ser diferente, o cara se associa a um Criminoso confesso, uma CADELA Americana, que não vem respeitando nossas autoridades, tenta de derrubar logo quem ? O homem mais admirado da república, o mais corajoso dos tópicos. O homem que teve coragem de prender a maior MÁFIA, os maiores Gangsters. Então, é simples assim, ninguém o derrubará. E prá desespero da Petralhada ele tem o apoio, do povão, do povin, do povo, das Forças Armadas, do ministério público, do STF, com exceção de alguns conhecidos, do governo federal, da justiça , das instituições internacionais, que trabalham contra a Corrupção no mundo. Então: Continuem Latindo e Chorando que ninguém escutará. Vocês continuarão no Deserto.

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      • Oh minha cara,estais enganada.É a falta dela.Esse é mais um donzelo que há tempos não se refresca.

    • Mostre nos seu HISTORICO DE COMENTARIOS NA INTERNET PRIMEIRO.

      So pra gente saber se voce mudou de caras mais vezes que Mainardi.

      (DETEEEEESSOI psicoticos de terceira classe. Nunca fiz segredo disso.)

    • Clóvis Carvalho, por que no te callas?
      Mainardi é um covarde, fugitivo da justiça, um pulha. Citado em delação como cúmplice de propina de Aécio, pois estava presente num jantar propineiro. Também delatado hacker de Moro, sabia? Segundo o hacker de Moro, Mainardi pagou por vazamentos.
      Já Sérgio Moro vem bem na coleira de Bozo. Passando pano pra nada menos que tudo, para citar Janot, o chefe embriagado da lava jato. Realmente, só o Brasil para acreditar em Moro.

  11. Eu tinha certeza que Nassif não iria deixar o ex Guru do Leblon,outrora na algibeira de DD,passar batido,que se picou para não ser engaiolado.Ainda por conta do caso de Veja,Nassif sofreu horrores na pena de aluguel deste pilantra,junto de Mino Carta e Paulo Henrique Amorim.Tio Rei,hoje redimido pela mãos do destino,consubstanciado na máxima bíblica de “quem com o ferro fere,por ele será ferido”,também participou da capadoçagem.Afirma Nassif ao final do texto:Peter Pan também envelhece,certo?Concordo,mas uma pequena observação.A medida que envelhece,vão gostando mais de grana,no caso suja.Perguntem a Aécio ou Accioly se estou mentindo.Um cretino marcado pela vida,por isso essa ferocidade toda.Ele tinha que culpar alguém pelos infortúnios da vida,talvez merecedor.Escolheu Lula e quem ousasse defende-lo.

    • “Tio Rei,hoje redimido pela mãos do destino”:

      Me da o endereco do ilustre Sr. Destino que ele vai saber com quantos paus se faz o que eh bom pra tosse.

      • Lhe dou o endereço do Gringo de Ouro,vc quer? Foi que colocou no caneco de muita gente ruim,média e boa.

  12. O terreno para aventureiros, sempre estará preparado, pois a educação falhou miseravelmente.
    Do ponto de vista político, a educação é tratada como uma necessidade que carece de definições. Basta por na escola e o aluno alcançar notas altas no PISA e com isto, está resolvido. Está claro que não.
    Peter pans vingam quando a educação falha, quando é incapaz de encontrar as pessoas e lhe fornecer elementos para que pense claramente, que saiba distinguir o que é razoável, necessário e saber responder a essas demandas.
    Diego Mainardi nem se enquadra nesta categoria, ficando mais próximo daqueles que sofrem de atraso mental.
    Nesta idade, ainda não entendeu nada, não é capaz de construir, apenas de destruir. Segue em modos e pensamentos seu alter ego de “sucesso”: Bolsonaro et caterva.
    Vivem a infância dos que têm certeza de tudo. Que não admitem outras opiniões que nãos as próprias, ainda que estas tenham sido condicionadas por outros, sem muita reflexão.
    Vivemos os tempos do fígado, já que corações e mentes vêm sendo aniquiladas.
    Nestes tempos de bílis e mal estares, não conseguimos encontrar nem pensar em nada que não seja o vaso sanitário. Tristes tempos.
    Alguns dirão que estou sendo pessimista ao ver e pintar a realidade nestas cores.
    A estes pergunto, quais ações então que estão empreendendo? Não me venham com o papo de ação social, que já fiz e percebo um aparelhamento tão tosco e vulgar quanto o da direita.
    Confundem tolerância com conformismo. Confundem ódio com sede de justiça.
    Somos criaturas ridículas.

  13. Hoje vemos gente “moderna” como Demori, ou o Wando, começando a fazer o mesmo, só mais comedido e sem palavrões. Agora trabalhando com veja, folha e outros grandes meios que atentaram contra a democracia, começam a partir pro mesmo de sempre, culpar o PT de tudo. A última foi quando ninguém do PT participou do convescote PSDB do tal “Direitos Já”. Cairam de pau dizendo que o PT quer o protagonismo e só fala em #LulaLivre.
    Vão a m…

  14. + comentários

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