21 de maio de 2026

O off em jornalismo e o caso Watergate

A diferença entre Malu Gaspar e o caso Watergate é a mesma do jornalismo de likes para o jornalismo profissional, no caso, o do The Washington Post.
Photograph by Bettmann / Getty

Denúncia jornalística requer suspeitas, não provas totais; caso Malu Gaspar foi comparado equivocadamente a Watergate.
Watergate começou com prisão por arrombamento e revelou máquina de espionagem política após extensa apuração do Washington Post.
Editor-chefe vetava matérias sem consistência; denúncias frágeis como as de Malu Gaspar não passariam no crivo profissional.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Está confusa a discussão sobre o off em jornalismo.

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Parte-se do pressuposto – correto – de que a denúncia, no jornalismo, não tem as mesmas características da denúncia criminal. Não cabe ao jornalista levantar todas as provas, mas alertar para suspeitas de malfeitos.

A partir daí vem essa interpretação esdrúxula, de que nenhuma denúncia jornalística precisa vir acompanhada de provas e chega-se ao cúmulo de comparar a denúncia de Malu Gaspar – sobre as 4 supostas conversas de Alexandre de Moraes com Gabriel Galípolo para interceder pelo Master – com Watergate.

E isso é dito como se fosse fruto de grande pesquisa, de um jornalista tratado como historiador e assumida pela ombudswoman da Folha, que teoricamente deveria fornecer as linhas de jornalismo para o jornal.

O Watergate começou como um crime meio tosco e terminou como um terremoto institucional. A diferença entre uma coisa e outra atende pelo nome de jornalismo profissional — no caso, o do The Washington Post. Vamos por partes.

Como começou o escândalo de Watergate

Na madrugada de 17 de junho de 1972, cinco homens são presos dentro do complexo Watergate, sede do Comitê Nacional do Partido Democrata, em Washington.

Na batida, a polícia encontrou equipamentos de escuta eletrônica (bugs), câmeras, dinheiro vivo em notas sequenciais, ligações diretas com o Comitê para Reeleição do Presidente (CRP) — ironicamente apelidado de CREEP

Inicialmente, o caso foi tratado como um arrombamento político estranho, mas irrelevante.

A apuração

A partir das primeiras denúncias, deflagrou-se a apuração. Sucessivas reportagens mostraram que funcionários da Casa Branca pagaram silêncio (hush money), o FBI sofreu pressão política para frear a investigação, o caso não era um crime isolado, mas parte de uma máquina de espionagem política.

É só depois disso tudo, que surge a fonte mais famosa da história do jornalismo, o Deep Throat, fonte anônima de alto escalão que confirmou as pistas e entregou fitas, com gravações de audiências no salão Oval.

Foram mais de 400 reportagens diretamente ligadas ao Watergate, centenas de notas, análises, editoriais e cronologias, cobertura contínua por mais de dois anos.

Não foi uma “matéria bombástica” que possa sequer ser comparada às denúncias de Malu Gaspar, que não resistiram um dia. Na reportagem seguinte, sumiram as supostas 4 ligações telefônicas de Moraes.

A diferença básica

E aí entra a diferença básica: a chefia de redação do Washington Post, Ben Bradlee, o editor-chefe do Washington Post, analisava cada matéria, aprovava aquelas que seguiam critérios básicos de jornalismo, vetava as que não fossem minimamente consistente, e bancava a cobertura junto à direção. Sob seu crivo, jamais passaria uma denúncia baseada em 6 fontes anônimas de mercado e sem nenhum elemento adicional para corroborá-la.

Reduzir tudo  ao direito absoluto ao off – como fizeram vários jornalistas brasileiros – é uma humilhação para o jornalismo.

Leia também:

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.
luis.nassif@gmail.com

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5 Comentários
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  1. Paulo Dantas

    2 de janeiro de 2026 12:30 pm

    O filme feito mostra uma cena em que eles publicariam algo, não lembro agora, os dois jornalistas ligam para Deus e o mundo para confirmar, pois o editor queria mais uma fonte , na cena pegam o editor no elevador indo embora para pegar o aval para publicar tendo a nova fonte.

    Talvez seja só a versão de filme mas a coisa devia rolar assim.

  2. José de Almeida Bispo

    2 de janeiro de 2026 12:48 pm

    E quem paga a ombudswoman da Folha? Quem paga a quem?
    SIGA O DINHEIRO!
    Nunca falha.

  3. Jicxjo

    2 de janeiro de 2026 5:28 pm

    O off virou um vetor para pistolagem, em que cabe qualquer interesse espúrio da fonte e qualquer invencionice do baronato. O jornalismo se desmoraliza a cada dia, cada vez mais parecido com fofoca.

  4. Lopes

    2 de janeiro de 2026 7:16 pm

    Eu diria que o jornalismo da Malu Gadoar, mais que um jornalismo de likes, se enquadraria na categoria de jornalismo ilegítimo de modulação social.

  5. +almeida

    3 de janeiro de 2026 11:17 pm

    Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.
    (Joseph Pulitzer)

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