Para entender as sátiras e as charges do Charlie Hebdo

Enviado por Leo V

Do Passa Palavra

 
O Charlie Hebdo recebeu muita atenção após os ataques ao seu escritório. Porém, algumas das críticas dirigidas ao semanário são inexatas e descabidas. Por isso, buscaremos explicar as charges no contexto em que foram publicadas, para que assim possam ser melhor compreendidas. Por Understanding Charlie Hebdo

Este texto é uma tradução da página Understanding Charlie Hebdo [1], que consiste em um site colaborativo e em constante atualização. Portanto, a versão aqui traduzida pode não expressar o atual estado completo de seu conteúdo.

O semanário satírico francês Charlie Hebdo recebeu muita atenção após os recentes ataques ao seu escritório. Porém, algumas das críticas dirigidas ao Charlie são inexatas e descabidas. Assim, este texto procurará explicar as charges no contexto em que foram publicadas, para que deste modo possam ser melhor compreendidas.

A sátira do Charlie Hebdo

A característica do humor no Charlie Hebdo é muito particular e, talvez, exclusiva à França. É absurdista (na tradição da Rubrique-à-Brac) e, em termos de publicações anglo-saxãs, um tipo de humor comparável ao das revistas MAD e Viz. Também é extremamente satírico, comparável a The Onion e The Colbert Report. Dizer que o Charlie Hebdo é homofóbico é tão absurdo quanto dizer que Stephen Colbert é de direita ou que Ali-G é racista. O humor do Charlie Hebdo é muitas vezes grosseiro e mostra uma total falta de respeito com muitas instituições, à la South Park. Mais explicações como essas são oferecidas nesse artigo da The New Yorker e nesse artigo do Mediapart.

O Charlie Hebdo emprega sua sátira brutal preferencialmente contra o dogma, a hipocrisia e a histeria, independentemente da sua origem. A sátira funciona ao jogar com diferentes níveis de interpretação (ironia) – um empreendimento fundamentalmente subjetivo que nas mãos do Charlie Hebdo certamente deixa um amargo na boca de quem o vê. Humor não é um requisito.

As charges mostradas abaixo são uma pequena seleção da grande variedade de temas que o Charlie Hebdo cobre. Há uma abundância de charges que simplesmente fazem graça com François Hollande ou Nicolas Sarkozy. É importante ter isso em mente, caso contrário é muito fácil concluir, quando se é apresentado apenas a uma seleção de charges, que Charlie Hebdo cobre apenas os tópicos abaixo. Na realidade, as charges tocam numa ampla gama de assuntos, mas sempre tratados de um jeito estúpido e perverso («bête et méchant»). Abaixo seguem algumas estatísticas a respeito dos assuntos mais tratados nas charges de primeira página do Charlie Hebdo compilados pelo Le Monde:

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O que está sendo ridicularizado?
Os temas das charges da primeira página do Charlie Hebdo, de 2005 a 2015.

[sentido horário]
Política, atualidades econômicas e sociais, esportes e entretenimento, religião, quatro outros assuntos.

[cima para baixo]
Desses… Islamismo, Várias religiões, Cristianismo.

Eles observam no artigo que acompanha as estatísticas que essas proporções não variaram muito durante o período analisado (2005 – 2015), exceto por “política” assumir a liderança durante as eleições francesas.

 

 

 

 

 

Os Cartoons

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NON AUX MANIFS DE GOUINES

Tema: O casamento entre pessoas do mesmo sexo
Data de publicação: 22/05/2013
Autor: Cabu (1938 – 2015)

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Tradução
“Vamos proteger nossas crianças!
NÃO ÀS MANIFESTAÇÕES DE VELHAS SAPATONAS”

Símbolos

  • A primeira charge abre com “vamos proteger nossas crianças!”; o velho grito dos conservadores para remover liberdades. A mesma ladainha foi usada recentemente no Reino Unido para introduzir censura na internet.
  • Entre as duas caricaturas principais, surge a caricatura de uma freira raivosa, figura tradicionalmente anti-gay.
  • A charge foi publicada logo após as «La Manif pour tous», manifestações que tiveram lugar em toda a França, em particular Paris. Tratou-se de um movimento diretamente contra o «mariage pour tous» (“o casamento para todos”) e contra manifestações defendendo o casamento entre pessoas do mesmo sexo.O desenho está tirando sarro das manifestações contra o casamento do mesmo sexo.
  • A pessoa retratada à esquerda é Christine Boutin, política de centro-direita na França. Ela se opunha às reformas (pró-gay) para as PACs (parceria civil francesa) e opôs-se fortemente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Considera seus valores morais como sendo católicos.
  • A pessoa retratada à direita é Frigide Barjot (um trocadilho com Brigitte Bardot), nascida Virginie Merle, uma humorista e ativista francesa. Fez campanha contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo na França e contra a adoção pelos LGBT.

Sátira

A charge faz graça de duas ativistas contrárias ao casamento de pessoas do mesmo sexo. Faz isso primeiramente ao repetir o slogan “vamos proteger nossas crianças!” e, em seguida, referindo-se a elas como sapatonas (gouines). O termo gouines é pejorativo (pelo menos quando não usado de forma autorreferencial por uma lésbica). A conclusão: só duas velhas lésbicas reprimidas para nos irritar tanto com sua propaganda anti-gay. Isso é em si uma referência aos numerosos casos de militantes anti-gay que se acabam revelando homossexuais (ver por exemplo esta extensa lista). A palavra gouines aqui é usada ironicamente e na forma de humor absurdo, insultando as ativistas da forma como elas próprias insultariam outrém.

A mesma piada foi usada em uma charge feita por Coco e publicada em seu blog pessoal:

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As duas mulheres representadas nessa charge são novamente Frigide Barjot e Christine Boutin. No título se lê “2 mamães, 1 brinquedo sexual?”. Isso é uma paródia do slogan “um papai, uma mamãe”. Nessa charge as ativistas são retratadas como lésbicas ávidas por sexo. E estão redirecionando sua sexualidade reprimida para o tradicional fervor religioso (estão salivando à visão de uma cruz, talvez um consolo improvisado). Essa é uma sátira sobre o uso da religião e dos valores tradicionais como forma de “masturbação moral” (seu brinquedo sexual) e os sentimentos de superioridade moral que possam decorrer disso.

Essas duas mulheres foram alvo de muitas outras charges de destaque no Charlie Hebdo, incluindo esta:

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que mostra um homossexual (vestido com uma camiseta de bandeira do arco-íris) que foi espancado pelas “ideias” de Boutin, Copé e Barjot”.

RASSEMBLEMENT BLEU RACISTE

Temas: Racismo, Front National
Data de publicação: 2013/12/11
Autor: Charb (1967 – 2015)

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 Tradução

“REUNIÃO AZUL RACISTA”

Símbolos

  • A fonte escolhida (serifada) é uma reminiscência de cartazes políticos da direita tradicional. Os cartazes de esquerda e dos comunistas na França geralmente usam fonte não serifada. Esse é o primeiro indício de que a charge está zombando de um elemento da extrema-direita.
  • O logotipo de chama azul e vermelha na parte inferior esquerda é o logo do Front National, um partido político francês de extrema-direita.
  • A pessoa retratada é a ministra da Justiça, Christiane Taubira, desenhada como um macaco. Isso faz referência às várias ocasiões em que ativistas de extrema-direita retrataram Taubira como um macaco (compartilhando photoshops, imitando sons, gritando etc.).
  • O título é um jogo de palavras com o slogan de Marine Le Pen “Rassemblement Bleu Marine” (Reunião Azul-marinha).

 Sátira

A charge foi publicada após Anne-Sophie Leclère, uma política do Front National, compartilhar pelo Facebook uma montagem da ministra Taubira retratada como um macaco e, em seguida, dizer na televisão francesa que ela deveria estar “balançando nos galhos de uma árvore ao invés de estar no governo” [Le Monde] (ela mais tarde foi condenada a 9 meses de prisão). A charge é desenhada como um cartaz político que clama a todos os racistas de extrema-direita da “Marine” a se unirem sob esse imaginário racista que escolheram. Em última análise, a charge critica o apelo ao racismo feito pela extrema-direita para ganhar adeptos.

A charge foi desenhada pelo Charb. Ele participou de atividades anti-racistas e, de maneira notável, ilustrou o cartaz (abaixo) para o MRAP (Movimento contra o Racismo e pela Amizade entre os Povos), uma ONG anti-racista.

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Tradução:

Vamos quebrar o silêncio!

[Fala do balão] Eu vou contratá-lo, mas não gosto da cor de … euh … da sua gravata!

BONNE ANNÉE, BONNE QUENELLE!

Leia também:  Coronavírus pode reduzir a população da Austrália em 4% em 20 anos

Temas: Anti-semitismo, Quenelle, Dieudonné
Data de publicação: 25/12/2013
Autor: charb (1967 – 2015)

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 Tradução
“FELIZ ANO NOVO,
APRECIE SEU QUENELLE!”

Símbolos

  • quenelle é um gesto criado e popularizado pelo comediante e ativista político francês notoriamente anti-semita Dieudonné. O nome “quenelle” vem de um prato de bolinhos de peixe alongados, que dizem assemelhar-se a um supositório. Assim, a frase “glisser une quenelle” (“deslizar o quenelle”), por meio de um gesto que evoca a prática do fist fucking [2]. Líderes judeus, grupos anti-racismo e funcionários públicos, especialmente na França, interpretaram isso como uma saudação nazista invertida (ilegal de ser executada na França) e como uma expressão de anti-semitismo. As autoridades francesas têm procurado proibir o gesto.
  • A pessoa retratada é o ativista político francês e comediante Dieudonné. Ele foi condenado por anti-semitismo na França.

Sátira

A charge retrata Dieudonné levando um quenelle (um símbolo racista anti-semita de sua própria criação) no cu. A charge está figurativamente mandando Dieudonné se foder e levar consigo suas palavras e símbolos de ódio.

TOUCHEZ PAS À NOS ALLOCS

Temas: Fraude em benefícios, islamofobia
Data de publicação: 25/12/2013
Autor: Riss (1966 -)

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 Tradução

“AS ESCRAVAS SEXUAIS DO BOKO HARAM EM CÓLERA
NÃO TOQUEM NOS NOSSOS BENEFÍCIOS!”

Símbolos

  • Boko Haram é uma organização islâmica auto-professada com base no nordeste da Nigéria, com atividades secundárias no Chade, Níger e Camarões.
  • Mulheres grávidas e com véu, escravas sexuais do Boko Haram, reclamando que seus benefícios estão sendo removidos.

Contexto

  • Na sequência do sequestro de meninas nas escolas pelo Boko Haram, noticiou-se que muitas das vítimas acabariam como escravas sexuais na Nigéria.
  • O governo francês propôs uma mudança na distribuição dos allocations familiales [benefícios para crianças] na França. Até aquele momento, os abonos familiares eram igualmente distribuídos independentemente da renda, como parte de uma política pró-natalidade de longo prazo. A alteração proposta (muito debatida à época) reduziria substancialmente os abonos familiares das famílias de alta renda (12% mais ricos). Famílias tradicionais muitas vezes têm um número de filhos maior do que famílias não-tradicionais, geralmente por razões religiosas (por não usarem contraceptivos, o papel das mulheres enquanto mães e donas de casa etc.). Embora seja verdade que isso descreva algumas famílias de imigrantes, isso também é típico dos católicos conservadores franceses, quer dizer, a histórica classe dirigente na França.

Sátira

Na França, como em muitos outros países, alguns ativistas políticos se queixam de que alguns cidadãos abusam de seus benefícios estatais. Por exemplo, cidadãos podem fazer isso (de forma fraudulenta) alegando estarem inválidos (um tema comum nos meios de comunicação do Reino Unido). Na França, cada nova criança nascida aumenta o abono entregue para sua mãe/família. Devido a isso, um tema comum na retórica de direita na França é o conceito de “rainhas do bem-estar” (mães com muitos filhos com o único propósito de reivindicar mais benefícios).

A charge combina as duas histórias noticiadas e mostra as meninas grávidas sequestradas expressando seu apoio aos abonos familiares. Uma das formas de compreender a charge é entendê-la como uma janela satírica da psique de um eleitor do Front National, que confunde muitas questões (atividades islâmicas no exterior e políticas de benefícios domésticos). Pode-se imaginar os eleitores do Front National assistindo a um programa de televisão sobre o sequestro do Boko Haram: ele já está preocupado com a possível fraude nos benefícios que essas jovens vão cometer quando forem aceitas como refugiadas na França!

É importante notar que a proposta de mudança na distribuição de benefícios para crianças (que foi aprovada pela Assembleia Nacional dois dias após a publicação dessa edição), em qualquer caso, não afetaria famílias de imigrantes de baixa renda. Com efeito, o grupo demográfico mais afetado seria o das famílias de alta renda com muitos filhos: uma situação comum de muitas famílias de católicos conservadores. A alteração proposta foi mal recebida por ambas as extremidades do espectro político, na maior parte baseados na ideia de que os abonos familiares não deveriam se tornar mais um mecanismo de redistribuição da riqueza. Os maiores opositores, no entanto, foram os conservadores de direita. Isso é o que faz a charge ainda mais absurda: as escravas sexuais do Boko Haram estão protestando contra cortes que não irão afetá-las. Retratar as escravas sexuais do Boko Haram reclamando sobre os problemas dos abastados faz da charge a encarnação do meme dos problemas do primeiro mundo: enquanto ricas famílias francesas reclamam sobre a perda de dinheiro, meninas são estupradas e escravizadas na Nigéria.

 

LES FRANCAIS AUSSI CONS QUE LES NEGRES

Temas: Racismo, católicos, papa
Autor: Reiser (1941 – 1983)

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 Tradução

O PAPA EM PARIS:
“OS FRANCESES
SÃO TÃO ESTÚPIDOS QUANTO OS PRETOS”

Símbolos

  • O papa João Paulo II é retratado, com sua mão direita faz um gesto de benção.
  • Católicos representados em devoção frenética ao papa. Eles têm olhos amarelos ensandecidos. Um está beijando a mão do Papa e outro está oferecendo um (confuso) bebê a ele.

Sátira

No momento da publicação, o Papa tinha recentemente visitado vários países africanos, nomeadamente Zaire, Congo, Quênia, Gana, Alto Volta e Costa do Marfim. Esta visita terminou no dia 12 de maio de 1980 e a cobertura da imprensa ainda estava fresca na mente dos franceses, incluindo a controvérsia em torno da condenação do Papa ao uso de preservativos. Pouco depois João Paulo II visitou a França (peregrinação a Lisieux, 30 de maio de 1980). A charge mostra as multidões que se reuniram durante sua visita.

A legenda da charge pode ser lida como os pensamentos do pontífice. Charlie Hebdo está zombando da reação francesa com a visita do Papa (adoração frenética) ao mostrar que o Papa os considera, franceses e africanos, com enorme desprezo (note que os olhos do Papa não são amarelos, possivelmente indicando que ele não está sob o mesmo delírio febril de seus admiradores). Essa comparação com os africanos aumenta ainda mais a ironia da situação: os admiradores idolatram um racista.

 

CHARLIE HEBDO, JOURNAL IRRESPONSABLE

Temas: A liberdade de expressão, metalinguagem
Data de publicação: # 1058 – 26/09/2012
Autor: charb (1967 – 2015)

journal-irresponsable

 

Tradução

Capa esquerda:
“Charlie Hebdo
Jornal irresponsável
A invenção do humor
Óleo [seta] Fogo [seta] ”

Capa direita:
“[Em vermelho acima de Charlie Hebdo] Sem risadas!
[grande bandeira vermelha] Jornal Responsável”

Símbolos

  • Um homem das cavernas está segurando óleo em uma mão e fogo no outro. O que vai acontecer a seguir é óbvio. Em francês, «jeter de l’huile sur le feu» [jogar lenha na fogueira] é algo que significa “agravar um conflito entre as pessoas; inflamar uma situação já tensa”.
  • A página em branco, na capa do lado direito, com as palavras “Jornal responsável” está desenhada como uma espécie de sinal de alerta, representa censura.

Sátira

A capa dupla apresenta-nos duas alternativas:

  • uma revista “responsável” que é desprovida de todo o conteúdo, portanto, totalmente desinteressante, desfazendo todos os progressos realizados desde a invenção do humor;
  • ou uma revista “irresponsável” que funciona numa sociedade realista, aceitando a natureza humana (representada pelo homem das cavernas).

A França tem uma longa tradição de humor político, que remonta antes mesmo da Revolução Francesa. A capa indica que não ofender ninguém implicaria em jogar fora essa longa tradição e desfazer todos os progressos realizados no que diz respeito à liberdade de expressão, conquistada ao longo dos séculos.

Nessa charge, Charlie Hebdo oferece uma representação satírica de si mesmo, assumindo sua reputação de ser tanto provocativo (fogo) quanto grosseiro (homem das cavernas). O banner “Jornal Irresponsável” da capa esquerda é reproduzido em todas as edições seguintes do semanário, em tamanho menor.

 

C’EST DUR D’ÊTRE AIMÉ PAR DES CONS

Tema: fundamentalismo islâmico
Data de publicação: # 712 – 05/02/2006
Autor: Cabu (1938 – 2015)

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Tradução

“Maomé arrasado pelos fundamentalistas
[No balão de diálogo] É difícil ser amado por idiotas”

Símbolos/Contexto

  • O homem na foto é o profeta Maomé. A permissão ou não de representações do profeta é motivo dedebates.
  • A charge foi publicada em fevereiro de 2006, cerca de 5 meses após a controvérsia das charges do Maomé da Jyllands-Posten. A charge do Charlie Hebdo é uma reação a essas charges. Wolinski inclusive comentou na reunião em que essa charge foi desenhada: “é a primeira vez que os dinamarqueses me fazem rir!”.
Leia também:  Direto de Beirute, jornalista Ali Farhat fala ao GGN sobre a megaexplosão e a tirania dos EUA

Sátira

A charge foi publicada como um aceno para as charges de Maomé da Jyllands-Posten, que foram republicadas nessa mesma edição. O que está sendo abordado é precisamente a questão da possibilidade do profeta ser retratado. Charlie Hebdo está brincando com a ideia filosófica de exatamente o que seria uma representação do profeta. Isso é claramente visível nos outros candidatos à capa do semanário, fixados na parede do escritório:

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  • Se os olhos do profeta ficarem escondidos, ainda é uma representação dele?
  • E se toda a cabeça estiver escondida?
  • A charge da direita é uma referência a La trahison des images [A traição das imagens], 1928-1929, do pintor surrealista René Magritte. Na placa lê-se: “esta não é uma caricatura do profeta”.

Ouve-se Charb declarando (vídeo) durante a realização da charge que os olhos do profeta estão escondidos e que, tecnicamente, isso não seria uma representação do profeta. Cabu, em outra entrevista declara que propositalmente moveu a palavra intégristes para o turbante, de modo a evitar a manipulação ou uso indevido de sua charge: com efeito, fica muito mais difícil de separar o desenho do profeta do balão de diálogo no topo. Dessa forma, o significado pretendido permanece intacto: são os fundamentalistas que são os cons [idiotas], e não todos os muçulmanos. Ele estava entristecido ao informar que, apesar desse esforço, tinha visto a charge sendo compartilhada online sem o título, junto a interpretações distorcidas do desenho.

Finalmente, a observação feita na charge é ampla e constantemente feita por muçulmanos após ataques terroristas: que o Profeta Maomé tem vergonha do amor que lhe é proferido por fundamentalistas (e dos atos que praticam em seu nome).

 

DUR D’ÊTRE FINANCÉ PAR DES CONS

Temas: Igreja católica, metalinguagem
Data de publicação: # 905 – 21/10/2009
Autor: charb (1967 – 2015)

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Tradução

“Revelações
sobre o dinheiro da Opus Dei
[No balão de diálogo] É duro ser financiado por idiotas … ”

Símbolos / Contexto

  • O homem crucificado é Jesus.
  • As duas pastas estão cheias de dinheiro, tão cheias que algumas notas escapam. As pastas simbolizam a corrupção.
  • O título, na mesma tipografia dos tabloides franceses, anuncia que alguém está sendo comprado pelaOpus Dei, prelado da Igreja Católica Romana, descrita por muitos jornalistas como a mais controversa instituição da Igreja, devido ao seu secretismo, aos métodos controversos de recrutamento, à misoginia e ao apoio a governos autoritários de direita.
  • As posições do título e balão de diálogo, juntamente com o texto do balão, remontam à famosa capa da edição #712, que caracteriza o profeta Maomé, mencionada acima.

Sátira

Ao recordar a capa da edição #712 (retratando o profeta), Charlie Hebdo está zombando dos críticos que o acusam de somente veicular charges de Maomé. Além disso, a imagem de Jesus aqui é muito mais ofensiva (e o tom de rosa é mais escuro e saturado). Ele não apenas é exibido na cruz, mas segura sacos com dinheiro sujo. Charlie Hebdo está provocativamente anunciando: “vejam! fizemos com Jesus também: na cruz, coberto de escândalo e polêmica!”.

 

CASTORAMA EST FERMÉ!

Temas: Política/sociedade, valores cristãos franceses
Data de publicação: # 1111 – 2013/02/10
Autor: Luz (1972 -)

castorama

 Tradução

“[Topo à esquerda] Trabalho dominical
[Balão azul] Castorama está fechada!
seremos obrigados a te currar”

Símbolos/Contexto

  • O cabeçalho no canto superior esquerdo mostra que essa charge se refere ao debate na França sobre a abertura do comércio aos domingos.
  • O homem assustado à direita é Jesus.
  • O homem à esquerda é um soldado romano. Os romanos crucificaram o Jesus histórico. A expressão facial do soldado romano sugere que ele se sente mal pela situação.
  • Castorama é uma das maiores redes de lojas de bricolagem na França. Castorama decidiu abrir aos domingos, apesar da pressão política e tendo que pagar grandes multas para fazê-lo, incorporando, desse modo, todo o debate.

Sátira

O debate sobre “abrir aos domingos” (ainda quente) polarizou a França. Os defensores de manter as lojas fechadas aos domingos têm um entendimento mais tradicional de valores sociais e culturais franceses. Eles podem ser encontrados em qualquer lugar do espectro político e geralmente referem-se ao ataque liberal (no sentido econômico) aos valores sociais franceses e argumentam que a abertura de lojas aos domingos iria ameaçar as pequenas empresas. Os defensores da abertura de lojas aos domingos argumentam que isso iria trazer um impulso muito necessário à economia e que alguns funcionários ficariam felizes em trabalhar aos domingos.

Jesus é representado aqui porque subjacente a todo o debate está o fato de que domingo é tradicionalmente um dia de adoração comunitária e descanso para os cristãos. A ironia aqui é que Jesus criou esta infeliz situação em que agora encontra.

O soldado romano tem um martelo, mas presumivelmente estão faltando os outros elementos necessários para construir a cruz onde Jesus seria crucificado. O soldado romano parece entender a consternação de Jesus e está de certa forma se desculpando pela impraticável situação, explicando que terá de substituir a punição pela sodomia.

Uma das possíveis interpretações da charge é que o liberalismo econômico (representado pelo pragmático soldado romano) acabará por “foder” os valores tradicionais.

 

AUX CHIOTTES TOUTES LES RELIGIONS

Temas: Religião, blasfêmia
Data de publicação: # 983 – 20/04/2011
Autor: Cabu (1938 – 2015)

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Tradução

“Depois do escândalo do Cristo no xixi de Avignon …
À MERDA TODAS AS RELIGIÕES”

Símbolos/Contexto

  • Piss Christ [Cristo no mijo] é uma fotografia de 1987 feita pelo artista e fotógrafo americano Andres Serrano. Ela mostra um pequeno crucifixo de plástico submerso em um copo de urina do próprio artista. Em 17 de abril de 2011 uma cópia do Piss Christ foi vandalizada “além do reparo” por manifestantes cristãos (também referidos como “fundamentalistas cristãos”) quando exposta em um museu de arte contemporânea em Avignon, França. O escrito em amarelo se refere ao escândalo que se seguiu.
  • Três cabeças aparecem em sucessão, cada uma em substituição de uma letra “O”. A primeira é uma caricatura do Papa Bento XVI. A segunda cabeça é, presumivelmente, de um líder religioso muçulmano. A terceira é uma caricatura de um judeu hassídico, com um Peiot.
  • Três rolos de papel higiênico estão desenhados, cada um etiquetado com o nome de um dos textos sagrados: a Bíblia, o Corão e a Torá. A ordem é coerente com as estatísticas de adesão de cada fé na França: cristianismo (58%), islamismo (6%), judaísmo (1%). Rotular o papel higiênico com os textos sagrados, implica assumir que o conteúdo desses textos é pura merda e que eles merecem ser lançados ao vaso sanitário.

Humor

Essa charge foi publicada imediatamente após o escândalo do “Piss Christ” em Avignon. A charge defende o direito à blasfêmia e denuncia as ações dos fundamentalistas cristãos. As letras grandes (e a linguagem) sugererm um clamor: “nós já estamos fartos de todas essas religiões e todos os problemas que causaram; lancem-nas todas no vaso sanitário!”. O forte anticlericalismo do Charlie Hebdo, igual para todas as religiões, é evidente nessa charge.

Ao misturar humor escatológico e religião, a charge é também uma homenagem à arte, vandalizada, de Andres Serrano.

 

MÉTHODE GLOBANALE OU SYLLABITE?

Temas: Educação, teoria de gênero, sexismo
Data de publicação: # 1130 – 2014/12/02
Autor: Catherine (1980 -)

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 Tradução

“PERIGO
[No quadro] Teoria de Gênero
[Balão de diálogo] método globanal ou silabilau? ”

Símbolos/Contexto

  • A cena retratada ocorre em uma escola primária. O professor está vestido com um traje de coelhinha. A barba sugere que ele/ela é transexual.
  • Teoria de gênero refere-se ao estudo da identidade de gênero e representação. É um campo acadêmico interdisciplinar com correntes muito diferentes, às vezes opostas entre si. No entanto seus detratores, no debate que se alastrou pela França em 2013-2014, têm argumentado que ela se tornou uma ideologia unificada e firmemente feminista.
  • O aviso de advertência “Danger” no canto superior esquerdo do desenho refere-se à opinião e à reação de alguns elementos da comunidade e da elite política conservadora francesa, assim como uma parte da comunidade muçulmana francesa. Um boato (espalhado por indivíduos da extrema-direita) dizia que a teoria de gênero iria ser ensinada nas escolas francesas.
  • Na sequência do lançamento em 2014 de uma iniciativa do governo, o ‘ABCD de l’égalité‘ [ABC da igualdade], em escolas primárias, destinada a prevenir o comportamento sexista (dos professores e dos alunos) na escola, uma campanha lançada por ativistas de extrema-direita pedia um boicote escolar. Em algumas áreas até 50% dos alunos não compareceram às escolas no dia do protesto.
  • “Glob-anal” e “sila-bilau” são trocadilhos sexuais a respeito de dois diferentes métodos de alfabetização(que já desencadearam certa vez um debate na França): o método “global” (método da linguagem total, em português) e o método “syllabique” (método fônico em português).
Leia também:  Juiz Luís Carlos Valois é o entrevistado da live das 15h, na TV GGN. Assista

Sátira

A charge incorpora e exagera a visão de pesadelo que alguns pais e políticos de tendência conservadora têm do que se passa nas escolas depois da iniciativa do governo. De fato, eles têm expressado sua preocupação de que isso levaria as crianças a serem expostas muito cedo à sexualidade e a noções de esquerda sobre sexo e gênero. O grupo de extrema-direita que iniciou o boicote às escolas alegou que o governo queria ensinar crianças de 4 anos a se masturbarem e iria incentivá-las a brincar com brinquedos de pelúcia com a forma de pênis e vaginas. Eles também temiam que homossexuais falassem nas escolas e fizessem lavagem cerebral em seus filhos.

Charlie Hebdo ridiculariza essa reação exagerada: não, crianças de escola primária não serão ensinadas e sexualizadas por travestis em fantasias sensuais de coelho. Nessa charge o debate sobre o suposto ensino da teoria de gênero é tão sem importância quanto o debate que já houve sobre qual método deveria ser utilizado para alfabetização.

 

ESPECIAL: ESCUTE CARA!

Temas: Não matar pessoas
Data de publicação: 14/01/2015
Autor: Riad Satouf

Uma tradução de uma tira de Riad Sattouf que faz parte da série regular “A vida secreta dos jovens”, publicada na última edição do Charlie Hebdo, e que resume como todos nós nos sentimos.

gars-01

 

A vida secreta dos jovens
Visto e ouvido em uma rua do Xº arrondissement de Paris, em 8 de janeiro de 2015

 

Escute o que tô dizendo
Escute.
Fique quieto.
VOCÊ. NÃO.
MATA.
PESSOAS.

 

 

 

 

gars-02

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

gars-03

 

Escute. Me escute, cara.

Escute.

Escute.

Escute.

Fique quieto.

Me escute.

 

 

 

gars-04

Qualquer que seja a razão, mano.

Qual. Quer. Que. Seja.
A. Ra. Zão.

 

Você não mata
pessoas

Não pode fazer isso.

Não importa
a razão, mano

 

 

 

gars-05

 

Mas é claro que tô pouco

me fodendo para o “CHARLIE HABDO”

Essa é a merda,

tô pouco me fodendo.

TÔ-POUCO-ME
FODENDO

Mas se você não gosta,
você não lê,
mas você não mata,
desculpaê…

 

 

gars-06

 

Não diga “bem feito.”

Sim, ‘cê disse isso, cara.

e se você diz isso,
é como se…

HUH? O QUÊ?

UM COMPLÔ?

‘CÊ TÁ FALANDO SÉRIO?

 

 

 

 

gars-07

 

A PORRA DE UM COMPLÔ? DE QUEM?

Mesmo assim, ‘cê disse “bem feito”
então por que precisaria de um
complô?

SIM, você concorda,
sem necessidade de um
complô

te falar a real…

 

 

 

 

gars-08
Me escuta, mano, esses caras, eles
só faziam desenhos, só isso.

Você não sai matando por isso,
tá?

Sim, sim.

Violência,
depois disso só cria

mais violência

que só faz mais

violência,

é assim que é…

 

 

 

TUERIE EN EGYPTE

Temas: Irmandade Muçulmana, Religião
Data de publicação: # 1099 – 2013/10/07
Autor: Riss (1966 -)

tuerie-en-egypte

 Tradução

“[Etiqueta rosa] Assassinatos no Egito
[em branco] O Corão é uma merda
[etiqueta amarela] Ele não para as balas”

Símbolos/Contexto

  • Essa charge evoca a repressão contra a Irmandade Muçulmana que se seguiu à remoção do presidente Morsi do poder no golpe de Estado no Egito liderado pelo general el-Sisi em 2013. Após o golpe, os apoiadores da Irmandade realizaram manifestações pacíficas por todo o país. Os militares reagiram declarando estado de emergência e organizando ataques para desmantelar os acampamentos estabelecidos pelos apoiadores da Irmandade. A violência intensificou-se rapidamente entre os dois lados, resultando em centenas de mortes, milhares de feridos e na prisão da maioria dos líderes da Irmandade Muçulmana.
  • O homem baleado é provavelmente um militante da Irmandade Muçulmana, como sugerido por sua roupa, pelo uso do Corão como escudo (veja mais sobre isso abaixo) e pelo contexto político do momento da publicação.

Sátira

Uma acusação comum contra essa charge é a de que ela de alguma forma comemora as mortes em massa de membros da Irmandade Muçulmana. Não se deve deduzir que a representação satírica de um crime signifique que o Charlie Hebdo endosse esse crime. De fato, as charges do Charlie Hebdo nunca se esquivaram de mostrar a dura realidade da violência (incluindo a representação das vítimas) e utilizam o valor do choque para atrair a atenção do público para o tema em questão. As charges seguintes são bons pontos de referência, pois se referem a assuntos menos politicamente carregados, mas também retratam as vítimas de tragédias de forma muito direta:

suicides-01

 

 

 

 

Tradução
“Suicídios na France Télécom
O presidente da empresa toma medidas
[bilhete na mão do homem em queda] Adeus”

Autor: Charb

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

suicides-02

 

Tradução
“[Caixa preta] Escada na France Télécom
[balão de diálogo] Anda, tenho uma reunião às 15h!”

Autor: Luz

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essas charges se referem aos suicídios em série de funcionários da France Télécom ocorridos entre 2008 e 2009: seria difícil argumentar que esse desenho estaria comemorando o suicídio de trabalhadores, dada a postura usual de extrema-esquerda e de defesa dos trabalhadores do Charlie Hebdo. Em vez disso, a representação satírica de morte e suicídio é uma maneira de chocar a consciência do leitor, retratando um incidente horrível, cuja natureza pode não ser tão eficazmente veiculada na imprensa escrita (ou na TV, onde imagens violentas são censuradas ou inexistentes). Em muitos casos, desenhar parece ser uma maneira muito mais eficiente de atrair a atenção das pessoas.

Um segundo elemento que tem sido controverso naquela charge é a representação e a qualificação do Corão como “merda”. Ferrenhamente anti-clerical e secularista, o Charlie Hebdo sempre deplorou – com sua áspera assinatura – o envolvimento da religião na política. Essa charge sugere que a religião falhou com a Irmandade Muçulmana, uma falha que pode ser interpretada de duas maneiras. Primeiro, ela falhou em proteger a Irmandade Muçulmana da destruição, em parte por dar-lhes uma falsa sensação de segurança (o militante usa o Corão como um escudo físico e a legenda indica que o Corão “não para balas”). Para muitos militantes da Irmandade, foi um caso de “trazer uma faca para um tiroteio”, embora os mais extremistas entre eles estivessem fortemente armados. Em segundo lugar, o Corão falhou em proteger a Irmandade Muçulmana no sentido de que não produziu o apoio popular esperado, apesar da importância do Islã na sociedade egípcia (94,7% da população muçulmana). De fato, centenas de milhares de egípcios realizaram protestos e greves contra eles a partir de novembro 2012, culminando com o protesto massivo de junho 2013, quando milhões de egípcios (entre 17 e 33 milhões) pediram a renúncia de Morsi.

Traduzido para o português pelo Passa Palavra

Notas

[1] Sobre o que é (e o que este site não é)
Deve-se notar que a maior parte do conteúdo aqui exposto é irrelevante ao ataque terrorista contra o Charlie Hebdo. Mesmo que o Charlie Hebdo fosse culpado de algumas das acusações dirigidas contra ele, nomeadamente racismo, sexismo, homofobia etc., a ação contra o semanário deveria vir na forma de artigos, charges ou num tribunal. Assassinato nunca é justificável, especialmente contra charges ou palavra escrita.

O objetivo aqui é apenas o de defender as charges contra algumas dessas acusações levantadas contra eles, principalmente porque alguns dos seus autores já não são mais capazes de se defenderem.

Quem somos:
Os principais colaboradores do site são um grupo de anglo-franceses e europeus bilingues de formações diversas em Ciência, Arquitetura, Relações Internacionais etc. Também recebemos contribuições do público (principalmente franceses), que analisamos e editamos antes de publicar.

[2] Nota da tradução: O fist fucking é uma prática sexual que envolve a inserção da mão ou antebraço na vagina (brachio vaginal) ou no ânus (brachio procticus).

 

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8 comentários

  1. Humor

    Alguém já disse que quando um comediante precisa explicar uma piada, ou ele ou o público é imbecil. Muitas vezes, os dois.

  2. O Charlie Hebdo foi comprado

    O Charlie Hebdo foi comprado pelo Rothschild duas semanas antes de ser atacado por um terrorista tão profissional que deixou a própria carteira de identidade no carro que teria usado para fazer a matança. O tipo de humor do Hebdo foi julgado e sentenciado à morte, mas não foi por nenhum tribunal radical muçulmano. É que este tipo de humor não interessava à Nova Ordem Mundial, já que remete a um tempo de livre pensamento e plena liberdade mental criativa, temp este que deverá ser exterminado e aoagado da memória, para que prospere a brutal alienação do povo bestialmente massificado. 

  3. Eu Não Sou Charlie. http://emtomdemimimi.blogspot.com.br

    Eu Não Sou Charlie. Estranho , não? enquanto a mídia grita sobre liberdade de expressão, omite algumas coisas… e multidões, ora, multidões não necessariamente estão informadas.Redes Sociais são extremamente manipuláveis e manipuladas sem que percebamos – um artigo sobre isso me deixou pasmo e não vou reproduzir, mas é muitíssimo, muito muito cedo ainda pra se avaliar 1 – por que houve extremo e inacreditável falha dos serviços de inteligencia dos EUA interligados com os demais serviços nos outros países??…;2 – o interesse no petróleo ;3 – a ligação ou simpatia do chargista dinamarques com neonazista e sua chargge numa das edições do tablóide; 4 – veja-se o percentual de charges do tablóide sobre os mulçumanos, compare-se com as charges sobre outras religiões, há surpresas; 5- é desrespeitoso profundamente reproduzir a figura ou desenho de Maomé. Houve um filme americano ou não sei de onde em que em letreiro se diz que jamais é mostrado o personagem maomé em respeito. 6 – não é preciso citar um Chomsky, etc, basta ir a um simples pouco conhecido (me parece) blog “mimimi” , um apanhado longo – quem leu até o fim??  não é assinado por figurões, mas leia-se ou se releia.http://emtomdemimimi.blogspot.com.br/

    • pelo pluralismo mantendo a linha editorial

      porque ninguém vê o Fora de Pauta http://emtomdemimimi.blogspot.com.br/ e blogs ditos alternativos (de senso crítico ou tendência humanista e/ou de esquerda em geral só põem, ou puseram um aspecto, o sensacionalista e demagógico e apelativo a emoções fáceis). Aliás, parece estar decaindo a audiência e a frequência manifestante nos blogs. Teimosos, ou que curtem aquilo que previamente querem ler, ouvir, concordar.

  4. Pois é, no caso, é o público

    Pois é, no caso, é o público não francês.

    Na França, para onde é dirigida as sátiras, todos entendem.

    Mas como vivemos tempos de caça àsa bruxas e patrulha paranoica até na esquerda, para os não franceses é preciso explicar, porque eles batem o olho nas sátiras e projetam preconceito.

  5. Sem censura mas… c’est compliqué.

    É verdade, o que tem de errado em estimular ódios, fomentar discriminações, oferecer aos que sentem raiva étnica a sensação de que podem exprimir essa raiva materialmente que, afinal, não estão sozinhos nesse mundo?

    E se alguém discriminou ou até matou um muçulmano “de fome, de raiva e de sede” ou de tiro mesmo, oras… o jornal apenas publicou charges, não é? Como o Datena, o Marcelo Rezende e a imprensa das revistas Veja, Época, OESP, Folha etc. e que-tais, esses são “gestos naturais”… Afinal a Charlie também ridiculariza cristãos e judeus. O fato de que na cultura ocidental, desde que os árfabes descobriram que têm o poder do petróleo, os muçulmanos estão sendo muito mais intensamente demonizados do que cristãos e judeus, que árabes são relacionados não só ao terrorismo como às “invasões”, notadamente na Frnça, como refugiados, é mera casualidade.

    E a rigor, que bobagem é essa de dizer que árabes e muçulmanos são a mesma coisa? Ora, só são a mesma coisa no imaginário popular, estimulado pela imprensa alinhada com o dolar US based, a rigor nem todo árabe é muçulmano e nem todo muçulmano é árabe, não é? Sim, quando me convém levo o assunto para o rigor acadêmico. Só não consigo dizer que a mídia – o Charlie, inclusive – não é relacionado ao imaginário popular…

    E processo civilizatório? Que bobagem, somos pouco mais que animais. Biologia é tudo, cultura não é nada, o fato de que Humanidade é atributo cultural (e não biológico) não significa nada, não somos humanos mesmo, somos animais, não é?

    Mas… peraí! Animais não humanos… sabem ler?!

    Humm…c’est compliqué.

  6. Explicar a piada.

    Cada charge do ‘Charlie Hebdo’  contém um gesto de desespero.

    Este desespero é o humor de uma graça pretendida, como um grito de pedido de socorro gritado no meio de um deserto.

    O que é engraçado, especialmente, quando muita gente não a vê pretendida.

    Toda charge, não somente do  ‘Charlie Hebdo’ vive tanto dos que a entende quanto dos demais.

    Entre os que as compreendem há os que não acham graça. Apenas compreendem.

    Os que não a compreendem, mais os que não acham graça, muito frequentemente, formam a maioria.

    Esta maioria não muda em absolutamente nada a charge.

    O sem graça é que há uma certa quantidade de gente que quer que a charge nunca tivesse sido desenhada.

    Rir nunca foi o melhor remédio.

    Sorrir é muito mais profundo e revolucionário.

    A piada está sempre pronta em todo lugar do mundo.

    Chargistas são apenas os que (sor)riem primeiro e não são, necessariamente, os que riem melhor.

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