O número de brasileiros que solicitaram o bloqueio do próprio CPF para impedir o acesso a plataformas de apostas esportivas cresceu de forma expressiva durante a Copa do Mundo de 2026. Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, mostram que, nas duas primeiras semanas do torneio, a média diária de pedidos de autoexclusão aumentou 588% em comparação com o período anterior à competição.
Entre os dias 15 e 28 de junho, a Plataforma Centralizada de Autoexclusão recebeu 250.129 solicitações de bloqueio ou renovação de bloqueios, o equivalente a uma média de 17.866 pedidos por dia. No intervalo entre 11 e 25 de maio, antes do início da Copa, haviam sido registrados 38.907 pedidos, com média diária de 2.594.
Criada em dezembro de 2025, a plataforma permite que o cidadão bloqueie, de uma só vez, o acesso a todas as casas de apostas autorizadas pelo governo federal, impedindo que seu CPF seja utilizado para realizar apostas.
Exposição
Especialistas e entidades que acompanham os impactos das apostas atribuem o aumento da procura à intensa exposição das casas de apostas durante a Copa do Mundo, a primeira realizada após a regulamentação do setor no Brasil.
Segundo a Secretaria de Prêmios e Apostas, o crescimento resulta da combinação entre maior visibilidade das apostas durante o torneio, divulgação da ferramenta de autoexclusão e aumento da conscientização sobre os riscos financeiros e emocionais do jogo.
Já representantes das empresas de apostas regulamentadas afirmam que os números não indicam necessariamente um aumento da ludopatia, mas também refletem o maior conhecimento da população sobre a ferramenta e seu uso preventivo.
Perfil
Os dados revelam uma mudança importante nas razões apresentadas pelos usuários. Antes da Copa, o principal motivo para solicitar o bloqueio era a perda de controle sobre o hábito de apostar, responsável por 43,56% dos pedidos. Em seguida apareciam dificuldades financeiras, decisão voluntária e proteção de dados.
Durante o torneio, porém, a principal justificativa passou a ser a prevenção contra o uso indevido de dados pessoais pelas plataformas de apostas, mencionada em 29,5% das solicitações. A perda de controle caiu para 24,13%, seguida pela decisão voluntária e pelas dificuldades financeiras.
Para especialistas, essa alteração indica que muitas pessoas recorreram ao bloqueio de forma preventiva, antes mesmo de desenvolver um comportamento compulsivo.
Outro dado mostra que a maioria dos usuários optou por bloqueios sem prazo determinado. Antes da Copa, 62,13% escolheram essa modalidade; durante a competição, o índice subiu para 63,53%.
Casos
Organizações como o grupo Jogadores Anônimos e a campanha Brasil Contra Bets avaliam que os efeitos da Copa ainda podem aparecer nos próximos meses.
De acordo com especialistas, pessoas com transtorno do jogo costumam tentar recuperar as perdas financeiras apostando ainda mais antes de buscar ajuda, o que pode retardar a procura por tratamento.
Nos últimos anos, o número de grupos dos Jogadores Anônimos no Brasil mais que dobrou, passando de cerca de 30 para mais de 70 unidades, além das reuniões virtuais diárias.
Publicidade
A repercussão da intensa propaganda das casas de apostas durante a Copa levou o governo federal a anunciar novas restrições para o setor.
As empresas agora deverão incluir avisos informando que apostas podem causar dependência, provocam perdas financeiras e não representam uma forma de investimento. Também ficam proibidas campanhas que utilizem comentaristas, especialistas ou influenciadores para estimular apostas com base em suposta expertise.
Além das medidas federais, estados e municípios estudam ou já adotam restrições próprias para a publicidade das bets.
Segundo o Ministério da Fazenda, o Brasil possui atualmente cerca de 25 milhões de apostadores cadastrados. Em 2025, as empresas legalizadas movimentaram R$ 37 bilhões em receita bruta, consolidando o país como o quinto maior mercado de apostas esportivas do mundo.
*Com informações da BBC Brasil.
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