4 de junho de 2026

Para quê serve a astrologia de massas?, por Wilson Ferreira

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Imagem: Reprodução

Por Wilson Ferreira

Na década de 1950 o alemão Theodor Adorno (pelo olhar sócio-psicanalítico) e o francês Roland Barthes (pelo ponto de vista da semiologia) empreenderam pesquisas sobre as colunas de astrologia, respectivamente do Los Angeles Time e do semanário Elle. Ambos chegaram à mesma reposta: a astrologia de massas serve para exorcizar o real. A astrologia deixa de ser uma abertura para o Oculto, o Onírico e o Imaginário para se transformar num espelho realista e disciplinador da própria rotina diária dos leitores. Será que essa resposta pode ser aplicada à astrologia de massas atual, mais de cinquenta anos depois dessas análises?

A astrologia, pelo menos como é apresentada nos veículos de comunicação diários, não é uma abertura para um mundo onírico, um contato do homem ordinário com o Oculto ou uma previsão de eventos futuros. Pelo contrário, é uma descrição realista de um meio social preciso dos leitores. Não é uma abertura para um sonho, mas um espelho motivacional da instituição da realidade.

Essa é a conclusão que dois autores chegaram na década de 1950 ao se debruçarem sobre o crescente fenômeno das chamadas “previsões astrológicas” nas mídias de massa no período pós-guerra: Theodor Adorno nas suas análises sócio-psicanalíticas sobre a coluna do horóscopo do Los Angeles Time e de Roland Barthes na análise semiológica do horóscopo no semanário francês Elle.

Primeiro, Adorno encontrou nos textos dos horóscopos uma “abordagem bifásica” quem em psicologia refere-se ao comportamento neurótico oscilante entre alguém que age em relação a si mesmo como criança travessa e, em outras situações, como disciplinador severo. Adorno localizou o mecanismo de criação de dependência quando as previsões criam a imagem do leitor como alguém frustrado e, ao mesmo tempo, possível de obter sucesso. Paradoxalmente, a afirmação do sujeito só ocorreria mediante a negação diante das instituições sociais – trabalho, família e relacionamentos. Aos leitores recomenda-se sempre obediência, bom-senso e moderação diante da figura do chefe e hierarquia do trabalho (veja ADORNO, Theodor, As Estrelas Descem à Terra – a coluna astrológica do Los Angeles Time, São Paulo: Editora da Unesp, 2008). 

Para Adorno, a astrologia de massas seria uma “supertição secundária”, pois ao inserir o misticismo da astrologia em uma sociedade de consumo altamente tecnologizada e secular, o Oculto surge institucionalizado e amplamente socializado. O Oculto perde sua tensão com a racionalidade e torna-se um discurso motivacional e neurótico onde o indivíduo mantém a esperança de sucesso negando a si mesmo.

Roland Barthes vai chegar a conclusões parecidas através do caminho da semiologia. Ao analisar o discurso do horóscopo da revista Elle, Barthes chega a uma constatação paradoxal: na verdade as supostas “previsões” astrológicas resumem-se a descrições: os astros mais prescrevem do que predizem, isto é, “raramente se arrisca o futuro, e a predição é sempre neutralizada pelo equilíbrio dos possíveis: se houver fracassos serão pouco importantes, se houver rostos sombrios, o seu bom humor alegrá-los-á; as relações maçantes serão úteis etc.” (BARTHES, Roland, Mitologias. R. de Janeiro: Difel, 1980, p. 108).

Roland Barthes e Theodor Adorno

Para Barthes, os astros parecem refletir como um espelho o ritmo do nosso dia-a-dia de trabalho: os astros nunca postulam uma destruição da ordem. Parecem influir moderadamente , respeitando a ordem social, os horários patronais e os diversos departamentos da rotina: “sorte”, “amor”, “dinheiro”, “viagem” etc. São rubricas sociais que coincidem com as “casas” dos mapas astrais. Assim como Adorno, Barthes concorda que o Oculto, o Imaginário e o Onírico presentes na Astrologia são institucionalizados como discursos motivacionais que se por um lado promete o livre-arbítrio, a vontade individual e o sucesso, por outro prescreve a rígida observância à ordem diária através do bom-senso e moderação.

O “mundo” e o “pessoal” na astrologia

Cinquenta anos depois dessas análises de Adorno e Barthes, suas conclusões não só ainda se sustentam como a função simultaneamente disciplinadora e motivacional da astrologia de massas acabou se sofisticando dentro do abrangente imaginário da “New Age” do século XXI. Acabou se sofisticando num discurso onde as grandes transformações sociais e naturais (muitas vezes potencialmente catastróficas) convivem com a intacta manutenção da rotina.

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Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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6 Comentários
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  1. Visitante - Nickname - Humberto

    14 de maio de 2017 3:26 pm

    Precisamos de ilusão, de nos pensar ter algum domínio

    existe até uma denominada Religião Científica. Existem astrologias de massa e, vejo agora, a astrologia dos pensantes, todos carentes de se situar no mundo e nas suas incertezas, e isso é duro, dói muito a gente encarar, então vamos ao mercado da fé (disso, não retiro a crença na política, mas também não igualo aos misticismos ditos científicos, de massa ou de elite). 

    1. peregrino

      14 de maio de 2017 7:39 pm

      muito bem colocado…

      já enveredei por aí também mas em vez de encontrar este teu “…pensar ter algum domínio”

      encontrei a necessisadade, no sentido da pessoa ter incorporado mentalmente a necessidade de

      pensar, precisar, ter alguém para adorar

      1. Visitante - Nickname - Humberto

        14 de maio de 2017 10:10 pm

        Peregrino Cadastrado e assíduo frequente deste Blog

        tuas palavras não se opõem às minhas. Releia, por gentileza. Desde os 14 anos que vivo com polítiica de P maiúsculo, Dom Hélder Câmara (já pus umas 3 vezes o filme longa documentário maravilhoso dele). Meu padre-diretor, jesuíta, contava piadas pra toda a classe (turma) que nenhum jovem leigo teria coragem, por preconceito e medo (estávamos na ditadura dos costumes também).Note que eu incluo a política, ciências humanas não exatas mas qaue seervem a meu ver pra muita explicação ou abordagem enriquecedora.Sou ateu mas não do esereótipo do ateu, que é um saco e vira tão fanático ou tão crente quanto os que dizem se opor e militar. Fui expulso justamente, perdi algumas facilidades, mas o blog ja há muito tempo não me interessa, é um monólogo repetido sem fim, e é piada o espaço ao contraditório. Tem a vantagem de, assim como não deixo de ver o Jornal Nacional, ver até que ponto as franjas e crentes do petismo se mantêm em ilusões. Digo isso, mas voto em Lula (se Ciro Gomes não ganhar no 1ºturno, e superando as públicas rasteiras e mentiras que todo o PT de alto a baixo e seu séquito manteve).É enterrar o papel de conscientizção, de politização que um PT ou outro progressista tomar. Pergunte-se a que custo foi mantido o culto à personalidade ao sem dúvida líder, carismático e mais do que inteligente Lula. No mais, entrar em discussão ou pseudo-discussões num blog monolítico que me parece oficioso tira a tesão.

  2. anarquista sério

    14 de maio de 2017 4:29 pm

    LUCIANO HUCK
    Estou aqui
    Não,

    LUCIANO HUCK

    Estou aqui

    Não, não sou candidato a presidente da República.

    Um assunto como esse, contudo, não pode ser tratado sem reflexão.

    Nunca falei que seria candidato a nada, mas nunca me esquivei de me posicionar. Acho que sempre fui alguém movido pela vontade de aprender e por uma curiosidade inata e verdadeira.

    Em mais de 20 anos de carreira, sempre quis ser alguém que se coloca, que está presente na cena nacional e faz o que pode para usar sua energia a favor da evolução da sociedade e da nação. Nunca fiquei escondido atrás do conforto da indiferença e da fama, nunca me omiti, fazendo cara de paisagem, só posando para selfies e fingindo não ver o mundo em que estou.

    Por força do meu trabalho, nas últimas duas décadas viajei este país de ponta a ponta, entrei na casa das pessoas, dividi com elas seus sonhos, compartilhei seus desejos, sem nenhuma intenção além de ouvir e de contar suas histórias.

    Sempre disse que meço o sucesso daquilo que faço pelo impacto positivo que eu possa produzir na vida das outras pessoas. Mas o melhor tem sido descobrir que o meu maior aprendizado vem justamente do impacto da vida de outras pessoas sobre a minha.

    Dito isso, não tenho a menor dúvida de que estas duas últimas décadas de trabalho na televisão me ensinaram muito e, por consequência, fizeram de mim um homem, pai, marido e cidadão melhor.

    Mas posso dizer também que vi o Brasil profundo como poucos têm a chance (e, às vezes, a disposição)de conhecer. Vi e vivi os vários países que coexistem dentro dos contornos do Brasil. Ainda que a língua seja a mesma, sei que nossos problemas possuem sotaques incrivelmente diferentes.

    Sem qualquer convite, fui dragado para uma discussão política, um lugar fora de minha área de conforto. Com a curiosidade e o interesse pela vida que sempre me moveram, eu me senti inclinado a aprofundar o olhar.

    O fato é que, neste momento da história, observo um ou outro movimento interessante e positivo, mas ainda não vejo liderança capaz de desenhar e defender um projeto de Brasil coerente e eficaz que nos inspire, que nos mobilize. E esse não é um sentimento só meu, o que cria campo fértil para especulações políticas.

    Meu nome foi levado para esse debate, em boa medida, por ter afirmado que está na hora de minha geração ocupar espaços de poder.

    Não vou me furtar a esta discussão, mas isso não significa que esteja me lançando a qualquer tipo de cargo. Neste momento da minha vida e carreira, não acho que seja necessário, nem produtivo, fazer uma mudança tão radical de rota.

    A política não se resume a partidos, mandatos ou cargos. Sinto-me fazendo política pelo simples fato de estar preocupado em discutir ideias, conectar pessoas, apoiar causas e, principalmente, poder usar da visibilidade e do crédito que conquistei com muito trabalho para apontar a direção que entendo ser melhor para o conjunto.

    Usar a força da TV aberta e das redes sociais para inspirar, transformar, mostrar que, mesmo vivendo em um país tão desigual, não precisamos ficar inertes, como se a realidade não pudesse ser alterada.

    Estamos em um momento do país em que todos devemos ser políticos, ressignificar essa palavra, trazê-la para o centro das discussões. Temos que superar a polarização patrulheira e começar a discutir ideias e projetos.

    Esquerda ou direita, isso deveria importar menos -precisamos das duas pernas. Temos que ser curadores das boas ideias, de gente competente que queira se dedicar de fato à gestão pública, a servir. Acredito que só assim criaremos políticas que apontem para um projeto maior e mais justo de país.

    Não vamos conseguir desmontar as engrenagens do poder, mas podemos consertar a lógica da estrutura -e, principalmente, podemos mudar radicalmente quem as faz rodar. Temos que aposentar os velhos vícios de como se faz política, e com eles seus criadores e protagonistas.

    As ideias, as iniciativas e os bons projetos vão surgir, mas o maior ativo sempre serão as pessoas. Gente que possa fazer a diferença na vida dos outros. 

    Reafirmo: não sou candidato a nada. Mas também não vou deixar de me envolver e de me dedicar à transformação do país.

    Acredito que, de onde estou, posso fazer muito e contribuir muito mais. Por exemplo: mostrando o país de verdade, erguendo pontes entre os diversos mundos contidos nele, apontando caminhos, contribuindo com a construção de um olhar mais crítico, atuando via tecnologia.

    Contem comigo na construção deste Brasil mais humano, mais positivo e mais justo de se viver.

  3. peregrino

    14 de maio de 2017 7:27 pm

    o Wilson é um perigo para os de cuca a ser criada…

    ô cara bão………………………………………………..leio seus textos e não durmo

    neste falou de meio social, e eu pensando um “impacto”

    neste também falou de espelho, e eu pensando nos que foram entregues aos humanos, aos índios, digamos assim, para distrair e amansar……………………………………….

    ao não dormir e acordar encucado, perguntei ao tempo:

    meio, impacto social e espelhos, são diferentes das maquininhas de mão que temos hoje?

    não seria o “grátis” daquela luta pela sobrevivência dos mais espertos no futuro?

    apenas dúvidas

    1. peregrino

      14 de maio de 2017 7:45 pm

      mas eles, os espertos…

      que se preparem para uma “reação” em cadeia em 2030…………………………………

      dos que não precisam consultar mapas ou escritos, por serem eles mesmos o mapa perdido

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