Philippe Henriot, rádio Vichy e o radialismo ideológico, por André Motta Araújo

A rádio ativismo ideológico teve um papel importante na vitória do bolsonarismo nas eleições de 2018 e continua sendo um intransigente defensor do governo direitista

Philippe Henriot, Rádio Vichy e o radialismo ideológico

Por André Motta Araújo

Sempre tive especial fascínio pelos acontecimentos que seguiram a vergonhosa derrota militar de Junho de 1940, quando um governo de ocasião não só aceitou mansamente a derrota “en raise campagne” e, em seguida, aceitou colaborar com os alemães de bom grado, com a ideia de que os nazistas seriam uma barreira contra o comunismo. Os personagens de Vichy eram, no geral, fervorosos cristãos. Os lemas da plataforma de Vichy eram Deus, Pátria e Família, eram carolas e conservadores, moralistas e misseiros.

O Governo de Vichy durou até a rendição de Paris, em agosto de 1944, para as tropas do General De Gaulle, mas ainda depois manteve-se a ficção de um governo soberano no exílio, quando o gabinete de Vichy se mudou para o Castelo de Sigmaringen, na Alemanha. O surrealismo de Vichy chegou ao ponto de esse Estado ter Embaixadores nos EUA e no Brasil, embora todos soubessem que era um governo fantoche dominado por Berlim. O Presidente Roosevelt manteve em Vichy seu Embaixador, seu amigo pessoal Almirante Lehay.

A França das glórias de Luis XIV, Luis XV e de Napoleão se submeteu ao absurdo de haver um embaixador francês em Paris, o Conde Fernand de Brinon, e de ter em Paris um Comandante Militar Alemão – o último foi o General von Choltotiz, com seu QG no Hotel Meurice, na Rue de Rivoli, que se rendeu ao Gen. Leclerc da Força gaullista.

O tema deste artigo é a Rádio Vichy, um instrumento de propaganda ideológica tão fanática como a Radio Berlim, fazia parte do Ministério de Informação e Propaganda a cargo de Philippe Henriot, um jornalista de prestígio antes da derrota militar de 1940, que ficou conhecido historicamente como o “Goebbels francês”. A Rádio Vichy tinha como principal alvo o General De Gaulle e sua Força dos Franceses Livres, um Governo francês com sede em Londres e reconhecido como Governo pela Grã-Bretanha e pela União Soviética. Roosevelt jamais gostou de De Gaulle e foi por essa razão que manteve até o fim seu Embaixador em Vichy.

A questão vem a propósito do papel da RÁDIO no ativismo dos movimentos de ultra direita, papel que se vê até nossos dias, quando ao lado da redes sociais de internet, uma forte presença de uma radio ativamente ideoligca, a Jovem Pan, que opera como rádio farol da ultra direita bolsonarista, numa escala nunca antes vista no Pais. Nem mesmo no apogeu da rádio como poder de mídia, durante o Estado Novo, quando o Governo Vargas dispunha da mítica Rádio Nacional, nunca foi aparelhada no radicalismo hoje visto na Jovem Pan.

A RÁDIO NACIONAL tinha uma programação variada e com grande diversidade, seus noticiários, como o Repórter Esso eram razoavelmente neutros, embora o Brasil estivesse numa ditadura. Nos seus quadros, havia inclusive conhecidos intelectuais e artistas de orientação comunista, o discurso estado-novista era mais refinado, o regime dispunha a seu serviço de escritores e artistas de bom nível cultural. Havia, sim, propaganda do regime, mas em um tom mais ameno do que a gritaria e a grosseria da atual ultra direita primitiva.

A rádio ativismo ideológico teve um papel importante na vitória do bolsonarismo nas eleições de 2018 e continua sendo um intransigente defensor do governo direitista, aliciando jornalistas dessa linha ideológica, em um vigor antes não conhecido na rádio brasileira.

Voltando a Philippe Henriot e à Rádio Vichy, chama a atenção por sua bizarria histórica o fato de existirem fanáticos que, em Junho de 1944, já com os anglo-americanos desembarcando na Normandia, que ainda acreditavam numa vitoóia do Terceiro Reich, a turma de Vichy continuava cegamente a apoiar os alemães. A Milicia de Vichy era mais temida que a Gestapo por sua truculência, mas como entender que pessoas cultas como Henriot podiam acreditar que uma Alemanha já em ruínas, sem petróleo e sem minério de ferro pudesse vencer um País muito maior e mais rico como os Estados Unidos – aliado à União Soviética e ao Império Britânico, que não era só Inglaterra, tinha Canadá e Austrália? Já então a Itália estava fora de combate, o Japão cambaleando, mas em Vichy tudo corria como se a Alemanha fosse vencer a guerra.

O fanatismo dos ultra-direitistas é um fenômeno psicológico que explica a vitória de Bolsonaro em 2018. Há um certo descolamento da realidade, basta ouvir na Jovem Pan, um comentarista, Rodrigo Constantino, disse que ‘o NEW DEAL de Roosevelt foi um fracasso, imagine se fosse um sucesso’. As barbaridades são nesse tom, ‘o mundo está sendo dominado pelos comunistas da ONU, da OMS, do Banco Mundial, do George Soros, Deus nos Salve do Comunismo, porque a mídia está todo dominada pela esquerda…’.

Philippe Henriot foi assassinado em 28 de Junho de 1944 pelos guerrilheiros Maquis, seu funeral teve Honras de Estado, dois meses depois De Gaulle entrava em Paris.

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