“ZapGate” é o último ato da guerra híbrida, por Wilson Ferreira

por Wilson Ferreira

Cinicamente a Globo chama de “guerra virtual” para encobrir o caráter assimétrico da batalha do disparo de milhões de notícias falsas com apoio empresarial pela campanha de Jair Bolsonaro – o “ZapGate”. Enquanto isso, mais uma vez o PT aciona seu Exército Brancaleone para pedir, dessa vez, medidas punitivas da Justiça Eleitoral – como se não estivéssemos testemunhando o previsível último ato de uma guerra híbrida metódica e sistemática iniciada em 2013. Aguarda-se um show de contorcionismo judicial-midiático para deixar o tempo passar mais rapidamente. Ou enfiarão a cabeça na terra e se fingirão de morto…Este é o último desafio para a esquerda: se ela mal compreendeu o porquê do sucesso da propaganda hipodérmica do nazi-fascismo do século XX, poderá entender e dar uma resposta estratégica à guerra da mineração de big data criadora de dissonâncias cognitivas e realidades paralelas? Apesar do ar pós-modernoso do “ZapGate”, as origens da sua estratégia de comunicação estão no século XX: a descoberta de que as redes dos líderes de opinião de grupos e comunidades é que sancionam os conteúdos midiáticos. 

Em 2015 esse humilde blogueiro esteve em uma escola estadual ocupada em Taboão da Serra/SP para dar uma das inúmeras aulas públicas que eram ministradas então naquele momento em escolas no estado. Lá percebi uma nítida diferença geracional: aqueles jovens não viam mais TV ou quaisquer mídias de massas – informações e entretenimento eram buscadas por eles diretamente na Internet, redes sociais e blogs.

Embora curiosos sobre a política dos meios de comunicação no Brasil, para eles tudo não passava de História do Brasil: já estavam no futuro, com uma organização horizontalizada através do WhatsApp e informações buscadas em blogs. 

O atual escândalo eleitoral brasileiro do “zapgate” (ou da “guerra virtual” como cinicamente a Globo mancheteia para encobrir o caráter assimétrico dos milhões de notícias falsas disparadas nas redes sociais nesse verdadeiro caixa 2 digital da campanha de Bolsonaro) apenas confirma a pro-atividade histórica da extrema direita – rapidamente compreendeu a progressiva  irrelevância das mídias de massa em tempos de convergência tecnológica.

A extrema direita sempre esteve na vanguarda das estratégias de propaganda e comunicação. Não é por menos que o fascismo sempre foi o fantasma que ronda a modernidade: flerta com a arte (Futurismo), com a comunicação (Hitler e Mussolini, fãs do cinema e imitadores dos canastrões do cinema mudo) e a tecnologia – a blitzkrieg nazista foi a primeira guerra tecnológica da História.

Rapidamente compreendeu o fim das estratégias hipodérmicas de propaganda no pós-guerra. Depois que as pesquisas da chamada “Mass Communication Research” de Paul Lazarsfeld nos anos 1940 nos EUA apontaram a importância da influências dos fluxos sociais na recepção da comunicação (a teoria do “two-step-flow” – são os líderes de opinião de grupos e comunidades que determinam a aceitação dos conteúdos propagados pela mídia), a extrema direita abandonou o modelo clássico de propaganda.

Como demonstraram os golpes políticos no Chile, Argentina e Brasil nos anos 1960-70, a atuação combinada de propaganda política massiva com influência comunitária das donas de casa e lideranças de caminhoneiros rapidamente desestabilizou governos – por exemplo, no período que antecedeu ao golpe no Chile em 1973, quando o marido voltava para casa depois das reuniões sindicais, recebia a contrapropaganda da esposa: as contra-informações da extrema direita compartilhada no cotidiano em feiras-livres, mercados e encontros sociais – leia MARCONDES FILHO, Ciro. O Discurso Sufocado, Loyola.

Obama e a Web 1.0

Web 1.0 e 2.0

Em tempos de web 1.0, o sucesso da campanha eleitoral do liberal Barack Obama em 2007 e 2008 (desde o início da disputa das primárias, quando superou Hillary Clinton), aproveitou ao máximo as possibilidades da Internet – pequenas contribuições financeiras via Internet e o apoio de jovens blogueiros e influenciadores digitais. 

Agora vivemos na Web 2.0 das redes sociais e pesquisas mercadológicas baseadas na mineração de big data. A estabilidade sociológica de líderes de opinião da blogosfera foi substituída por padrões invisíveis das plataformas tecnológicas. Na política, o caso do Brexit foi o laboratório daquilo que seria replicado na eleição de Donald Trump nos EUA. E a atual guerra híbrida das diversas “primaveras” pelo planeta, terminando na experiência brasileira do “avatar” Bolsonaro, o laboratório de aperfeiçoamento tecnológico. 

Enquanto isso, mal a esquerda conseguiu compreender o porquê da eficácia da propaganda clássica hipodérmica nas mídias de massas do fascismo histórico. Tudo o que faz é esboçar formações reativas: negação, wishfull thinking e a tradicional “síndrome de Brian” – relativo ao filme do grupo de humor Monty Python A Vida de Brian: a estratégia paralisante da “Frente Popular da Judéia” contra o imperialismo romano, mais preocupada em fazer propaganda auto-indulgente do que enfrentar o oponente em seu próprio território: a psicologia de massas – clique aqui.

Enquanto Fernando Haddad e o PT se agarram ao púlpito dos debates e protestam contra a recusa de Bolsonaro debater propostas na TV (mesmo porque o “coiso” não as tem), a extrema direita nada de braçadas no mar de big data e da propaganda em rede com o apoio de inteligência do estrategista político da campanha de Trump, Steve Bannon. E o dinheiro não só do caixa 2 brasileiro: também dos fundos da guerra híbrida norte-americana (NSA – agência norte-americana de inteligência) como afirma o analista político Andre Korybko – clique aqui.

Trump e Big Data

O que é comunicação?

Não existe comunicação a posterioriA posteriori é Semiótica, Linguística ou Sociologia da Comunicação – o estudo da comunicação depois que ela ocorreu. Comunicação é o aqui e agora, efeito performático, o fenômeno, o acontecimento. A extrema direita rapidamente compreendeu que a comunicação não é conteudista, propositiva. É cognitiva – criação de climas de opinião, percepções, atmosferas. Criar bombas semióticas que destruam a factualidade, crie polaridades e reforcem predisposições– já nos anos 1940, Lazarsfeld apontava a importância do complexo de predisposições dos receptores: memória seletiva, exposição seletiva etc. Simplesmente as pessoas ouvem o que querem ouvir; veem o que querem ver e entendem o que querem entender.

O fenômeno de bolhas de recepção já havia nas mídias de massas. O que as redes sociais fizeram foi amplificar algoritmicamente essas bolhas com o efeito-filtro. Enquanto a esquerda fica prisioneira na sua bolha de convertidos, minerando big data a extrema direita navega por entre as bolhas localizando líderes de opinião efêmeros (não mais estáveis como na web 1.0) para disparar fake news. Ou cria falsos perfis de líderes de opinião para formar redes mutantes de influência. 

O primeiro efeito dessas bolhas na Internet é a indiferenciação público/privado e a erosão do que um dia se chamou de esfera pública: opiniões e críticas são recebidas como se estivéssemos em espaços privados. Por isso são tratadas de forma descuidada, chapadas. Quase sempre com textos adjetivados, sem nenhuma preocupação factual ou rigor lógico ou intelectual.

Erodida a factualidade, cada bolha torna-se auto-referencial, sem possibilidade de criar diálogos com bases comuns. Qualquer coisa é justificável ou comprovada com quaisquer números distorcidos. Seria o paraíso dos sofistas da Grécia da Antiquidade: “o homem é a medida de todas as coisas”, diziam cinicamente Protágoras e Giórgias. Qualquer argumento pode ser refutado por outro argumento desde que possa parecer verossímil.

Sem qualquer base comum (a factualidade) em um diálogo, cria-se facilmente a polarização amigo/inimigo – a despolitização assentada na clivagem de qualquer diálogo racional possível. Mais uma vez os sofistas da Antiguidade vibrariam: redes sociais criam falsos dilemas, de caráter geral e radical, ocultando que na realidade existem mais opções. Para o Brasil, ou é a Venezuela ou a Goldman Sachs Group.

Não é para menos que as causas culturais, identitárias e de costumes se sobrepuseram às discussões político-ideológicas ou de economia política: nessas questões a lógica binária da extrema-direita é reforçada, destruindo qualquer discussão política ou racional. 

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Leia também:  Senado faz homenagem à JN da Globo: "imprensa livre e imparcial", disse senador

9 comentários

  1. Não é um paradoxo que apesar
    Não é um paradoxo que apesar de se utilizarem de meios de propaganda modernos propõem um governo retrógrado com ideias do século passado?!?!?

    Coisa hediondas como educação moral e cívica que nem outrora eram levadas a sério…..

    Querem transformar o país numa grande senzala……….já queimaram a lei Áurea, agora querem restituir a escravidão….

  2. Compartilhei uma matéria do
    Compartilhei uma matéria do UOL com minha filha pelo ZAP e estranhamente após isso o relógio digital dos celulares adiantou uma hora, o meu e dela,caracterizando anomalias,ficou a impressão de q é retaliação/”lascamento”(ferrar)do ZAP ao UOL,foi um vírus altamente avançado q age no compartilhamento e só é possível com a facilitação de uma das empresas

  3. bom post.

    Concordo com tudo, quem sou eu para discordar!.

    Mas permita- me um pitáco. 

    A esquerda sempre teve inimigos poderosos: a burguesia,  ( e seus braços na policia, FA, judiciário, escola, igrejas, imprensa).

    Agora tem mais um: as redes virtuais.

    A maioria das pessoa não entende o que a esquerda propõe. 

    Nem faz muito esforço para entender!.

    É mais fácil aceitar o discurso simplista da extrema direita. Isso sem falar do Medo! Sempre foi assim desde Mussolini.

    Tempos negros à vista!

  4. Pois é, mas se trata de uma

    Pois é, mas se trata de uma luta desigual – e aqui nem faço uma defesa intransigente da atuação da esquerda, do movimento progressista ou, vá lá, do processo civilizatório contra a barbárie.

    Entretanto, é preciso que se observe que os movimentos massificados, e com eles a cultura – onde está a comunicação – se dão em estratos distintos, que poderiam ser definidos sob várias proposições, segundo diferentes autores.

    Para ficarmos em um, Freud, que também não defendo intransigentemente, poderíamos estabelecer o comportamento individual e social nas camadas do id, ego e superego. 

    Deixemos de lado o ego. O Id, inconsciente, é o elemento biológico da mente humana, onde estão armazenadas as pulsões, a energia psíquica, os impulsos primitivos, sexuais, que são basicamente guiados pelos princípios de prazer e ausência de dor: O Id não segue regras, tudo é desejo, expressão, satisfação; não há certo ou errado; não há tempo ou espaço. O Id não reconhece regras sociais e, ao não aceitar frustrações, não importam as consequências para que se realizem os impulsos.

    O Superego, por sua vez, é consciente e inconsciente, mas coletivo. É o aspecto social que permeia os três níveis. Dele resultam as imposições, a ordem, o medo da punição, a moral, a ética, as noções de certo e errado, as imposições sociais, enfim, é uma instância reguladora. Portanto, se posiciona contra o Id, representando o que há de civilizado, em detrimento dos impulsos arcaicos.

    Em seu texto de 1920, “O mal-estar na civilização”, Freud conclui que o indivíduo não pode ser feliz na civilização moderna. Por quê? Porque é obrigado a abrir mão de suas pulsões mais animais, em função dos limites do outro, ou seja, da vida coletiva.

    Pode até parecer contraditório, mas as campanhas de guerras híbridas trabalham com a ideia de um ente organizador e normativo – Trump ou Bolso, no caso – que vai garantir um elemento de força para a exaltação dos impulsos mais baixos e egoístas; em contrapartida, os progressistas precisam trabalhar com um ideal coletivo, de organização social para o bem comum, algo que sempre parecerá normativo e castrador.

    Assim, convenhamos, é muito mais fácil exorbitar a ilusão de força e prazer ilimitados, que um ideal de vida e fruição coletivas. Portanto, os personagens brutais e violentos cavalgam ondas de energia psíquica muito mais fluídas e, até naturais, que os agentes civilizatórios. Portanto, trabalhar em processos de comunicação tão assimétricos é quase covardia.

    O que fazer? Há caminhos fáceis ou estratégias efetivas? Eis as questões. Às vezes, mostra a História, é preciso a barbárie vencer temporariamente, para a razão se impor. Ainda que dolorosa e infelizmente.

    • Como um bolsominho daria a resposta.

      mimimi de comunas
      kkkkkkkk.
      .
      Não é uma provocação, é simplesmente como os Bolsominhos reagem, não adianta escrever e pensar muito. A base de tudo é a Saturação de informações simples e facilmente entendidas por qualquer um,

      a loira do banheiro em um de seus canais tem

      1.009.078 inscritos  e 169.922.137 visualizações

      já o Nando Moura tem 

      2.817.516 inscritos e 569.891.955 visualizações

      • De fato, meu caro. O

        De fato, meu caro. O comentário é apenas no sentido de expor uma discussão mais ampla – até mesmo extrapolando a atualidade brasileira – de como são condições distintas: por um lado a brutalidade que é quase natural ao homem e, portanto, mais fácil de exaltar; por outro, a civilização que é sempre castradora, no sentido eu que reprime os movimentos egoistas em função do bem comum.

        Como é que se trabalha, sobretudo num país de baixa densidade civilizatória e democrática, algumas questões – veja o descompasso – tais como: liberdade, igualdade, fraternidade, se se tratam de conceitos anti-naturais?

        Concordo que é preciso massificar mensagens para formar um caldo de cultura propício, mas isso leva tempo, muito tempo. O outro lado anda plantando isso há anos, senão décadas…

  5. No Pais do Zapgate

    De fato somos mais lentos no uso de memes e mensagens nas redes sociais, mas acho que os partidos de esquerda precisam ainda encontrar o bom caminho para usar esses canais e, enquanto a justiça eleitoral não age, o homem sera sua propria medida.

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