O escritor, jornalista, músico e meu landlord aqui neste GGN, Luís Nassif, escreveu o release para o novo CD de Renato Braz, “Saudade”. https://jornalggn.com.br/noticia/saudade-de-renato-braz
Mais uma vez foi brilhante e preciso, em se tratando de Braz. Também o seria escrevendo sobre Guinga, Hamilton de Holanda, Yamandú Costa, e centenas de outros músicos e cantores novos que interpretam a insuperável música brasileira. Com uma observação: aqueles que seguem a cadência de sambas, frevos, choros, marchas-rancho, valsas. Do passado.
Quando abandonam essas raízes, como muitos hoje em dia fazem, chegam a lugar nenhum. E, desculpo-me se o que vejo e ouço é limitado, massivo, mas pouco me atrai. Pelo contrário, me frustra.
O amigo Nassif, tão realista e preciso nas causas políticas e econômicas, de duas, uma: ou tem uma incrível capacidade de enxergar antes de muitos de nós ou olha para os temas culturais e da sociedade com graduados óculos cor-de-rosa.
Assim foi quando imaginou as redes sociais garantidoras da democracia ampla e dos programas de inserção social. Assim é, agora, quando vê um upgrade cultural no Brasil que me parece tão diminuto como um lambari que sobreviveu à poluição do Rio Tietê.
Não, meus car@s, nunca houve esgoto musical e cultural brasileiro como o atual. A raríssimas exceções, nossa produção musical boa é marginal e no mais putrefata.
Assim Nassif cita a fase transformadora no Brasil: “Nos anos 50, período de profundas transformações sociais e musicais no Brasil, João Gilberto foi a síntese do que de melhor a música brasileira havia produzido até então. Foi buscar Ary Barroso e Dorival Caymmi, Geraldo Pereira e Pedro Caetano, o samba sincopado e o samba-choro e apresentou-os à juventude dourada que, a partir de Ipanema, se lançava para o mundo”.
Não vejo qualquer transformação com um décimo dessa intensidade. Tudo foi fenescendo, se refazendo em repetições, até parar na década de 1990. O que restou e aos montes– ainda bem – são reinterpretações de um mais do mesmo de ótima qualidade.
Os Racionais MC’s? Tranformação? Sim, mas a partir de que matriz? África, bem, tudo é, mas qual o trajeto?
O que posso levar ao amigo para validar excelência? “Geni e o Zeppelim”, como interpretada por Juliana Ladeira? A banda pernambucana “Seu Chico”, roupagem nova e discreta de Chico Buarque? “Nação Zumbi”, “Cordel do Fogo Encantado”, na levada de Gonzaga, Jackson e Alceu? Moyséis Marques, Diogo Nogueira, Mônica, Mariana, Tulipa e Roberta, alargando as vidas de João, Elis, Nana e Elizeth?
Exemplos assim, muitos, é o que nos restou. Transformação mesmo, como Nassif se refere aos anos 1950/1960, nada. Infelizmente.
Antes da década de 1950, a influência dos boleros, tangos e guarânias se contrapunha ao que de bom faziam Luiz Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Inezita, Tonico e Tinoco, Noel Rosa, mas fazia florescerem Nélson Gonçalves, Altemar Dutra, Roberto Luna, Isaurinha. Era ruim?
A música norte-americana permitia as vozes jazzísticas de Cauby Peixoto, Leny Eversong, Dick Farney, Ivon Cury e as bandas de Erlon Chaves, Chiquinho de Morais, Georges Henry. Era ruim?
Mesmo as versões de Fred Jorge para rockabillies, cantadas por Carlos Gonzaga, eram boas de ouvir, ô Carol! O mesmo com a Jovem Guarda, mas aí já uma etapa que complementa a transformação de que fala Luís Nassif.
Para me reeducar, ouço com frequência um programa da Rádio USP, cutucada naqueles que já não acreditam a música brasileira em grande fase e o futebol brasileiro o melhor do mundo.
Dá oportunidade a novos músicos. Choro quando tentam algo não identificado com as raízes, como se delas fosse possível sair sem se borrar.
Hoje em dia, os bons, ótimos e excepcionais compõem e interpretam na levada desse passado. Os demais 90% fazem o pastiche que o mainstream pede. O saldo sai da universidade com a obrigação do novo e comete assassinatos em forma e conteúdo inaudíveis. Não digam que sempre foi assim, por que não foi.
Em nossos tradicionais saraus, Nassif, aparecem intérpretes maravilhosos. O que cantam ou tocam? O passado. Aguentaríamos Luan Santana, Fiuk, ou trecho minimalista com letra em poesia concreta?
Talvez sim, amigos deste blog, amantes de ilimitadas cevadas e canas do norte de Minas. Mas aí estaríamos, cada um de nós, sonhando com Cavaquinho, Paulinho e Chico, que provavelmente a galera estaria cantando sobre nossos copos já vazios.
Passadista eu? Tomara!
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