Publicada originalmente em 01/11/1999
A primeira vez que ouvi “Estão voltando as flores” ao vivo foi em um barzinho de Santos, o “Chão de Estrelas”, em 1971. Antes, ouvira algumas vezes na voz potente de Helena de Lima. Miltinho, cantor ainda em voga, ia se apresentar. Antes dele, subiu ao palco um senhor, creio que apresentou-se como sogro e empresário, e cantou a música: “Vê, estão voltando as flores / Vê, nessa manhã tão linda / Vê, como é bonita a vida / Vê, há esperança ainda”. Ele dá uma solfejada no “Vêee” que era uma graça. Confesso que fui meio inconveniente, pedindo dois bis. Afinal, o show era do Miltinho.
No final, fui perguntar da música. Tão bonita quanto ela, era sua história. O autor tinha ficado muito doente, dado como desenganado, e uma manhã o médico chegou em sua cama, no hospital, e anunciou que a doença fora vencida. Dali para frente, virou meu hino de esperança, acompanhando-me nos piores momentos de minha vida.
O autor era Paulo Soledade, que por duas vezes anunciei, aqui, vontade de conhecer. Através da extraordinária “Enciclopédia da Música Brasileira”, do Publifolha, –que ganhei na semana passada, depois de relacionar uma série de autores que desconhecia–, fico sabendo mais de Soledade.
Paulo Gurgel Valente do Amaral Soledade nasceu em 1919, há 80 anos portanto, em Paranaguá, Paraná, mas desde logo tornou-se membro da escola mais galante dos cariocas honorários. Com cerca de vinte anos fez teatro com Ziembinsky. Depois, entrou na Força Aérea e ajudou a fundar o famosíssimo Clube dos Cafajestes, além de compor seu hino.
Em 1942 foi para os Estados Unidos, fez curso de caça e voltou -pasme!como tenente da força aérea americana. Trocou por uma carreira de comandante na aviação civil, que abandonou sete anos depois, por problemas de saúde. Foi homem da noite, montando a famosa casa “Zum Zum”, que abrigou os primeiros ícones da bossa nova no início dos anos 60.
Seu repertório é pequeno, porém estupendo. “Estão Voltando as Flores” é de 1961. Em 1952, com Marino Pinto, compôs o “Estrela do Mar”, sucesso fulminante de Dalva de Oliveira (“Um pequenino grão de areia / que era um pobre sonhador / olhando o céu viu uma estrela / e imaginou coisas de amor”). Em 1954, com Vinícius de Morais, compôs “Poema dos Olhos da Amada”, tão espessamente romântico que parecia até Tom Jobim daqueles anos (“Ó minha amada / que olhos são seus / são cais noturnos / cheios de adeus”). Em 1956 compôs “São Francisco”, também com Vinícius, que viria a se popularizar no início dos anos 80, em um disco de cantigas de criança que tinha Chico Buarque, MPB4, Marina Lima entre outros. Em 1949, com Fernando Lobo, compôs “Zum Zum” (“ô zum zum zum zum zum zum / está faltando um”), em homenagem a um companheiro de aeronáutica, que morrera. Essa música fez parte de meu repertório juvenil, trazida por Edu Lobo, filho de Fernando Lobo. Tudo isso sem contar “Insensato Coração” (com Antônio Maria).
Pois o velho Soledade, que meu amigo Pelão tinha me prometido apresentar quando fôssemos ao Rio, morreu a semana passada, recebendo menos destaque na imprensa brasileira que a morte, por exemplo, de Alberta Hunter
Mas para os da minha geração, brasileiros de profissão esperança, até o final dos nossos dias os oito versos do “Estão Voltando as Flores” continuarão sendo o símbolo máximo de um povo que pode perder batalhas, mas não perde a fé: “Vê, as nuvens vão passando / Vê, um novo céu se abrindo / Vê, o sol iluminando / Por onde nós vamos indo”.
Luis Nassif
1 de julho de 2007 10:16 pmClaro, Rosiméri.
Claro, Rosiméri. [email protected]
ivonete de lima ribe
7 de julho de 2007 1:13 amEu tb ouvia bastante esta
Eu tb ouvia bastante esta música e nem sabia nada sobre seu autor PAULO SOLEDADE é para se escrever co letras maiúsculas. Abraços
Luis Nassif
8 de julho de 2007 2:04 pmAbração Paulo.
Abração Paulo.
Luis Nassif
9 de julho de 2007 7:11 pmUma das experiências
Uma das experiências inesquecíveis foi ter desfilado no “Bloco da Saudade”.
Joaquim Jodelle
11 de julho de 2007 9:30 pmÔ, Nassif, você dá uma
Ô, Nassif, você dá uma extraordinária contribuição à cultura brasileira, ao falar cobre nossa música e seus contribuintes – compositores, intérpretes etc. Paulo Soledade, por exemplo, é muito pouco conhecido. Parabéns pela lembrança. Gostaria também de convidá-lo a participar de uma comunidade que tenho no orkut – “Choro e Gafieira”, que não estou sabendo como bombá-la (gostaria de receber sugestões sobre, se o amigo puder fazê-lo). Quero informar a você que também sou jornalista, fui colega da sua irmã Inês no Globo, há muito tempo.
luiz freire
12 de julho de 2007 10:54 amNassif, gostaria de
Nassif, gostaria de acrescentar que
“Poema dos olhos da amada” já estava publicado quando Paulo Soledade achou por bem musica-lo em 1954. Silvio Caldas, novamente em grande evidencia e muito ligado
com a turma do critico Lucio Rangel
( tio de Sérgio Porto) gravou de forma esplendorosa.
Carmen Lins
16 de julho de 2007 10:48 pmNassif,
Estou super encantada
Nassif,
Estou super encantada com seu blog.Pretendovir aqui todos os dias.
Uma sugestão: colocoque a música enviada por Rosimeire em seu blog,para que tenhamos acesso também.
Luis Nassif
2 de agosto de 2007 1:53 am90 anos? Olha só.
90 anos? Olha só.
Luis Nassif
3 de agosto de 2007 2:30 amTodo interesse, Priscilla.
Todo interesse, Priscilla.
mario maciel, de Br
11 de agosto de 2007 10:38 pmDesculpe a prolixidade, mas
Desculpe a prolixidade, mas não pode ser abreviado. É o seguinte:
Acho até que só fica indiferente ao samba quem é ruim da cabeça ou doente do pé, como disse o genial baiano Dorival Caymmi ao comentar o fato de certos brasileiros não gostarem da nossa música. .
De fato, existem esses tipos anti-samba, na sua maioria jovens que preferem rock’n roll, esse lixo cultural que nossos arrogantes “irmãos do norte” nos enfiaram pelos ouvidos quando promoveram insidiosa campanha junto aos discotecários do Brasil todo, dando-lhes alguns centavos em troca de programarem a audição sistemática dessas estentóricas peças ‘musicais’, ensurdecedoras e estupefacientes, mas que rendem muitos dólares em direitos autorais às gravadoras e aos compositores ianques, que agradecem penhorados, usando a grana para ‘viajarem’ devidamente dopados com cocaína, LSD, maconha, ecstazy , crack e o mais que vier.
Eless precisavam incentivar mundialmente a apreciação do som universal, um mistificação que eles haviam inventado, um lixo cultural que é um ritmo dançante popular, de harmonia fácil, com cadência descomplicada, marcável por um ritmista qualquer, mesmo que primário, o mais bronco de todos, que só fosse capaz de reproduzir o atroar monótono de um bate-estacas, fazendo um tum-tum uniforme, invariável, universal, uma zoada feia como jamais se ouviu no inferno, sem as firulas, ritardos, síncopados, stacatos (breques) e outras nuanças dos ritmos criados pelos afrolatinos, i.e., bolero, rumba, salsa, conga, samba, choro, baião, xaxado, coco, embolada, frevo, forró etc., que têm cada qual uma batida complicada demais, a exigir sensibilidade e talento extraordinários. Ora, isso nenhum (vou repetir, NENHUM) músico americano tem. Exímios na leitura de partituras, a ‘musicalidade’ deles limita-se a isto, a contar quantas notas cabem em cada compasso, quantas colcheias, semicolcheias, fusas e semifusas e quando uma nota será tocada em sustenido ou bequadro, durante quantos compassos será feita uma pausa, etc., pois só sabem tocar as peças eruditas clássicas – aquelas que não têm ritmo. ou insossas valsas, polcas, foxes, blues e rocks. Qualquer pessoa que aprenda a ler uma partitura musical e saiba contar, tem capacidade para tocar essas troços, pois basta saber um pouquinho de aritmética e obedecer ao que está escrito na pauta musical.
Mas para tocar samba e outros ritmos latinos é preciso algo mais, é preciso talento, sensibilidade, balanço, coisa que não se aprende na escola. O carioca Osvaldo Gogliano (Vadico), parceiro de seu conterrâneo Noel de Medeiros Rosa (Noel Rosa), matou a charada quando, na década de 30, proclamou isso no samba que compuseram, Feitio de Oração (“Batuque é um previlégio, ninguém aprende samba no colégio…”) Na década de 20 do século passado, as únicas gravadoras existentes no Brasil, no Rio, eram as americanas RCA, Colúmbia e Odeon, que designavam o samba de ‘batuque’ e não permitiam a entrada em seus estúdios de instrumentos de percussão adequados ao acompanhamento dos ritmos brasileiros – tamba, pandeiro, surdo, tamborim, cuíca, afoxé, ganzá, agogô, reco-reco, triângulo – e por isto as primeiras gravações de sambas foram feitas com acompanhamento só de violinos, piano, flauta, etc. Somente depois de 1930 é que a alemã Parlophon liberou o uso de todos os instrumentos dos ‘batuqueiros’ e as coisas entraram na normalidade, tendo as gravadoras americanas aderido à nova moda.
No Recife, na década de 70 do século passado, pediram a opinião de Ariano Suassuna sobre o polêmico som universal, assunto que estava sob discussão acesa. Ele respondeu jocosamente, mas absolutamente sério, que o único som universal que conhecia era o do popular pum, que é igual em toda parte. O veredito de Ariano não foi publicado, evidentemente, mas é verdadeiro. Ou não?
Quando João Gilberto e Tom Jobim fizeram enorme sucesso internacional com a bossa-nova, os ianques raciocinaram que suas gravadoras precisavam lançar obras norte-americanas, arrecadar direitos autorais e de execução para eles próprios, não para nenhum latino-americano nojento (lousy latin, como eles dizem). Patrocinaram jetons, ou jabaculês, ou propinas para os discotecários tupiniquins, ou disc-jockeys, como eles preferem ser chamados em ingrêis, que é mais modernoso. E tome rock o dia inteiro, de norte a sul do país. A turma comandada por Elis Regina e Jair Rodrigues lutou em vão, cantando, na velha TV Record (a dos festivais, não essa de hoje, de bispos protestantes altamente corruptos e hipócritas ao extremo), as músicas compostas pelos iniciantes Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Carlinhos Lira, Geraldo Vandré, Tom Jobim, Sérgio Ricardo, Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, Carlos Capinan, Milton Nascimento, João do Vale, Edu Lobo e outros, além dos da velha guarda. O governo ditatorial militar de então deu um jeitinho de agradar aos roqueiros americanos prendendo, espancando e expulsando do país alguns desses compositores, a fim de deixar desimpedido o caminho para a triunfal carreira do agradecido rei, que começou a mandar tudo pro inferno. As torturas inimagináveis infligidas a Geraldo Vandré na prisão aqui mesmo no Brasil o deixaram sem juízo para sempre. Chico Buarque foi para a Itália, Gilberto Gil e Caetano Veloso, para a Inglaterra, Carlinhos Lira, para o México. O resto são detalhes…todo mundo sabe o resultado dessas tantas emoções…
priscila loureiro de
21 de outubro de 2008 4:41 amOlá já enviei nteriormente um
Olá já enviei nteriormente um comentario e tenho interesse em contar-lhe a história da musica estão voltando as flores, peço q s posivel mande-me end p contato.
[email protected].
obrigada
[email protected]
Mas já contei essa história em uma crônica que saiu em “O Menino de São Benedito”.