Edson Cordeiro, o cantor de mil vozes, na Sala de Visitas

Em 2014, publicamos um belo trabalho do JNS sobre Caco Velho (https://goo.gl/QtBeAW), e sua primeira música gravada, “Mãe Preta”. Caco Velho foi uma das figuras mais extraordinárias da música brasileira. Pandeirista, seguiu para a França com o grande George Henry e fez temporadas na boate La Macumba.

Em visita ao Brasil, a grande fadista Amália Rodrigues conheceu Caco Velho e a composição.

https://www.youtube.com/watch?v=PyTqD9xtdWo]

Como falava em pretos massacrados, a letra foi proibida em Portugal de Salazar.

Aqui a versão original, com a fadista maria da Conceição.

[video:https://www.youtube.com/watch?v=65ITtslk1GA

O tema foi alterado para “Barco Negro”, gravado por Amália e, agora, regravado pelo grande Edson Cordeiro em seu CD Fado. Em 2012, o GGN publicou um belíssimo levantamento dos leitores sobre o tema (https://goo.gl/7fAorP).

Aqui a gravação de Amália

Não consegui a gravação de Inezita. Quem souber, peço colocar nos comentários.

Quanto a Edson, desde os anos 90 o reputo um dos maiores artistas brasileiros. Assisti a um show inesquecível dele no Tom Maior, com repertório impecável e eclético, arranjos magistrais de José Briamonte, interpretações de um bom gosto a toda prova, sem apelar para os excessos – previsíveis para quem tem uma voz com tal flexibilidade.

Entrevistei-o ontem no Sala de Visitas. E fiquei honrado em saber que o artigo que escrevi sobre ele, em 2003, ajudou a reduzir a resistência de uma crítica preconceituosa, mais interessada em definir um duvidoso “bom gosto”, mais ao nível das colunas sociais, do que entender a musicalidade dos diversos gêneros musicais.

O cantor das mil vozes (https://goo.gl/KqHsaK)

No multishow, assisto a um show de Edson Cordeiro, de 1995, parece que em Paris. Canta um repertório amplo, que vai de músicas líricas a Janis Joplin, de Belmonte a Assis Valente.

Nem sei por onde anda, se fazendo carreira internacional ou perdido por aí. Em sua carreira, enfrentou série de preconceitos. Dizia-se que fazia firulas demais na voz privilegiada; escolhia repertórios apelativos, rebolava demais, sei-lá-o-que-mais se dizia do artista.

Não ouvi seu último CD, mas dizem que é dance de qualidade duvidosa. Passo o que ouvi, sem assinar em baixo porque ousaria dizer, sem medo de forçar a barra, que é dos maiores intérpretes da história.

Nem se fale de sua voz, ou, melhor, de suas diversas vozes, da voz de criança à voz de ogro, da voz infantil à voz de baixo. Aí se trata de um fenômeno sem paralelo, mas que poderia se constituir apenas em objeto de curiosidade, transformando-o em um imitador, ou mero personagem do “show bizz”, não houvesse por trás da voz o intérprete.

O talento a que me refiro é o do intérprete, a capacidade de incorporar qualquer música em seu repertório e o tratamento dado, a interpretação, a pulsação da voz, o crescendo que faz o corpo frágil tomar conta do palco e a voz se transmutar ao longo da música. E a presença de palco, o corpo miúdo que vai se contorcendo com os pés presos ao chão e depois se projeta sobre o público, montado exclusivamente em cima da voz, carisma que só havia testemunhado em Elis Regina.

Anos atrás assisti-o em um show em São Paulo com canções de um CD em que interpretava do samba-enredo “Bidu Sayão e o Canto de Cristal” a Jackson do Pandeiro. Sou fã incondicional de Jackson, dos maiores cantores de sincopado da história. Mas, quando coloquei o CD no aparelho e se chegou à faixa de Jackson, a do “toureiro”, o balanço imprimido por Edson suplantava a própria gravação original. No palco, o sincopado era garantido apenas pela pulsação da voz, uma maneira de vibrar a garganta que transformava as frases no fole de uma sanfona. ?????

Agora, na TV, o “Saudades da Minha Terra”, de Belmonte, começa com o rasqueado convencional. A voz vai crescendo e conduzindo o ritmo dos músicos que o acompanham, todos de qualidade irrepreensível, terminando em um crescendo em que a voz, de início delicada, termina como se no palco houvesse um tenor de 120 quilos. Depois, envereda por um rock de Janis Joplin, mesclando a voz de criança com a voz metálica de Janis.

Edson nasceu em Santo André, em 1967. Filho de mecânico e de bordadeira, começou a carreira cantando em coro de igreja evangélica. Depois, passou a cantar na rua, na mesma Barão de Itapetininga que, anos depois, revelaria um gênio que não se realizou, o menino Charles da Flauta.

Fez musical, teatro, e de 1993 a 1996 lançou três CDs pela Sony, entre os quais o clássico em que interpretava o samba-enredo da Beija-Flor em homenagem a Bidu Sayão, “Ave Maria” (Vicente Paiva e Jaime Redondo), homenageando Dalva de Oliveira, e a música de Jackson do Pandeiro. Passou algum tempo fora, em turnês por países da Europa. Nesse tempo todo, a qualidade impecável dos arranjos foi garantida por uma parceria com o maestro Miguel Briamonte.

A qualidade musical dos arranjos e do intérprete autorizou-o a mesclar uma enorme gama de estilos, da música lírica ao xaxado, do rock à música sertaneja, imprimindo sempre a mesma qualidade de voz e interpretação.

Por não se ater a movimentos, a grupos, ao que se convencionou chamar de bom-tom musical, é possível que leve tempo para o devido reconhecimento. Desde que o assisti naquele palco do Tom Brasil, Edson Cordeiro entrou no meu universo sonoro como um dos maiores intérpretes que jamais ouvi.

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