4 de junho de 2026

Juntando a fome com a vontade de comer

Os que têm alguma intimidade com a música brasileira decerto se lembram do Zimbo Trio, lendário trio instrumental brasileiro surgido no ano de 1964 e formado originariamente por Amilton Godoy ao piano, Luíz Chaves (falecido em 2007) no contrabaixo e Rubinho Barsotti na bateria.

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Os que costumam ler esta coluna (será que eles existem?) devem se lembrar do comentário que escrevi sobre “Brasiliana”, segundo CD do Quinteto Vento em Madeira, grupo instrumental paulistano integrado por Léa Freire (flautas), Teco Cardoso (saxes e flautas), Edu Ribeiro (bateria), Tiago Costa (piano) e Fernando Denarco (baixo acústico). Pois bem, dentre as dez faixas desse álbum, lá estão cinco temas de Léa Freire (quatro só dela e uma em parceria com Teco Cardoso).

Compositora de talento, Léa tem investido nesse dom já há um bom tempo. Agora, quando decidiu registrar em disco o resultado de tamanha força criativa, veio-lhe à mente o nome de um músico a quem ela aprecia já de longa data, ele que também tem por ela muita admiração: Amilton Godoy. Dois amigos juntando a fome com a vontade de comer.

Nasce, então, o CD “Amilton Godoy e a música de Léa Freire” (Maritaca Discos). Diante da obra de Léa, coube a Amilton selecionar onze temas que têm a brasilidade como elo, três deles já gravados pelo Quinteto Vento em Madeira no CD já aqui citado anteriormente. O simples cotejamento dessas três interpretações, tendo o piano fascinante de Amilton de um lado e a massa sonora do quinteto do outro, nos permite ter a certeza de que a música de Léa é, definitivamente, da mais alta qualidade.

O que os músicos fazem com seus instrumentos, indo fundo nas possibilidades que suas diversas junções propiciam, é de uma riqueza de colocar na boca um sorriso de felicidade. Por outro lado, a concisão do desempenho do piano de Amilton, de tão enxuto, sugere estarmos diante de um poema de João Cabral de Melo Neto.

O álbum é um concerto para piano. Lá estão apenas ele e o músico; apenas ele e a música. E o deleite é intenso. A cada audição de um dos temas, uma pergunta se levanta: quantos dedos deve ter uma pessoa para que ela possa ser tão virtuosa? Amilton Godoy parece ter vinte. Como sei que não tem, a pergunta ganha uma sequência: como pode, então, ele e seus dez dedos tocarem como se fossem vinte? Cartas para a Redação.

Ao piano, Amilton consegue extrair da melodia apenas a sua essência. A segurança com que arma os acordes, a desenvoltura com que improvisa, o sentimento com que seus dedos tangem as teclas, tudo está envolto em sutileza. Tudo está a serviço de uma inigualável capacidade de ser um pianista fora de série.

“Amilton Godoy e a música de Léa Freire” é um disco que não pode faltar em qualquer casa que tenha como moradores pessoas que gostam de música. Tê-lo sempre à mão é a possibilidade de sentir que o pianista é capaz de fazer com que saiamos do chão e flutuemos por entre as notas de músicas de fino acabamento.

Aquiles Rique Reis

Músico, integrante do grupo MPB4, dublador e crítico de música.

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