É mais conhecido pelas canções mas em duas semanas ganhou dois dos maiores prémios das letras lusófonas

“Estica para um lado, encolhe para o outro”. Este ditado popular baseia-se parcialmente na lei de Lavoisier (a massa mantém-se a mesma, seja qual for a reacção química) e na crença de que uma pessoa não pode acumular dois talentos. Na sua aplicação mais popular, comum em bares de solteiros, adquire a seguinte forma: “É demasiado giro para ser inteligente”. Nas artes é uma forma de cepticismo marreta que conclui, por exemplo, “se ele é bom a pintar, não vai ser bom a filmar”. Há várias razões para acreditar nisso – uma das mais fortes é a carreira discográfica de Bruce Willis – e depois há Chico Buarque de Hollanda.
O cantor e compositor brasileiro venceu segunda-feira à noite o Prémio Portugal Telecom, um dos mais importantes para países de língua portuguesa banhados pelo Atlântico ou Índico. “Leite Derramado”, livro escolhido a semana passada para o mais prestigiado prémio das letras brasileiras, o Jabuti, foi o romance vencedor de uma escultura em metal que vale 100.000 reais (42.372 euros).
Parece provado que Chico Buarque consegue fazer prosa tão bem como canções, mas há ainda quem levante a sobrancelha à ideia de “o Chico que canta é escritor premiado”.
“As pessoas não me consideram um escritor. A música é muito mais popular, aparece na rádio, aparece na televisão”, comentou na cerimónia de entrega do prémio, em São Paulo.
A lista de finalistas da oitava edição do prémio estava dominada por autores brasileiros – em nove, só uma nacionalidade destoava: o angolano Ondjaki. Por isso não é surpresa que o segundo e terceiros lugares tenham ido para autores do país irmão. “Outra Vida”, de Rodrigo Lacerda e “Lar “, de Armando Freitas Filho, foram as outras escolhas do júri.
“Caim”, de José Saramago, também esteve na corrida mas por vontade da Fundação e editora no Brasil, a Companhia das Letras, foi retirado da lista de dez nomeados. “Para que assim sejam reconhecidos novos autores da língua portuguesa”, comunicou a semana passada a Fundação.
Na história do prémio só um português subiu ao primeiro lugar do pódio, Gonçalo M. Tavares com “Jerusalém”, em 2007. António Lobo Antunes ficou em segundo lugar na edição de 2008, ano da publicação de “Eu Hei-de Amar uma Pedra”.
Escritor em construção
Chico Buarque é um dos nomes mais importantes da MPB (Música Popular Brasileira), esteve exilado em Itália, lutou contra a ditadura militar no Brasil e assina sucessos musicais há quatro décadas. Os livros pareciam um passatempo que não queria levar demasiado a sério e a escrita era vocação part-time aplicada sobretudo às canções.
“Fazenda Modelo”, uma alegoria sobre o Brasil dos tempos da ditadura, publicado em 1974, foi a primeira entrada de Buarque no mercado editorial. “Não foi um bom livro porque foi escrito com um outro tipo de necessidade: como não podia escrever música, escrevi aquilo com raiva”, disse então à revista “Veja”.
Seguiu-se “Chapeuzinho Amarelo”, um livro infantil publicado em 1979 e por essa altura ninguém esperava que a carreira literária de Buarque fosse mais longe. O músico estava arrumado na prateleira dedicada às celebridades que escrevem livros, ao lado do livro de receitas da Xuxa.
Numa outra entrevista à “Veja” em 1976, Chico queixa-se da falta de tempo para se dedicar a um projecto antigo. “Pode aparecer uma boa proposta e eu estar numa época de vazante financeira”, conta. “Eventualmente posso até voltar a escrever um livro, mas isso me toma todo o tempo”.
O tempo chegou em 1991 quando “Estorvo” foi finalmente publicado. “Escrevi por estímulo, quase provocação”, contou ao “Público” durante a primeira entrevista depois de sair “Leite Derramado”.
Foi com o romance “Budapeste” (2003) que Buarque começou a ser levado a sério como escritor. A história de José Costa, um ghost writer que fica na capital da Hungria para aprender “a única língua que o Diabo respeita”, venceu o prémio Jabuti (o seu primeiro) e solidificou Buarque como um homem das letras. Tanto que um dia um repórter norueguês lhe perguntou: “É verdade que você também é um compositor?”.
Fintar as críticas.
O prémio Portugal Telecom de Literatura foi entregue segunda-feira numa cerimónia apresentada por Jô Soares – “eu também tenho culpa no prémio, disse ”se o Chico não ganha eu não vou””. O apresentador ficou tão entusiasmado com a ideia que nem se lembrou de dizer os nomes do segundo e terceiro classificados. Mas lembrou-se de pôr o dedo na ferida – que na verdade não é ferida nenhuma, só uma cicatriz mal disfarçada: perguntou se Chico não se aborrecia ao ser chamado de “escritor amador”. “É difícil dissociar o narrador da pessoa pública”, respondeu o (cá está!) escritor, “as pessoas pensam que o livro faz sucesso porque o autor tem um programa de TV ou é compositor. Mas não acho chato isso, não. Se eu visse um outro compositor ou apresentador que escrevesse um livro, talvez eu desconfiasse de que não fosse bom. Isso é muito natural”.
O multifacetado Chico, contradiz assim a teoria de que dois grandes talentos não podem conviver no mesmo corpo. Que o talento pode esticar para um lado e para o outro. Mas o abençoado Chico Buarque não se importava de trocar tudo por um só: saber jogar à bola. “Trocaria todo o meu passado para ser jogador, mas um bom jogador, que pudesse participar na Copa do Mundo”, disse à revista “Brazuca”, “se fosse para trocar e ser um jogador mais ou menos, aí não”.
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