Os meus amigos também são um barato, Nara Leão!

Ontem à noite, conversando com minha amiga Lourdes via Facebook, falei da idéia de homenagear NARA LEÃO. Nara, a meu ver, é pouco lembrada em comparação à grandeza de sua voz, de seu talento musical e da importância que teve, tem e terá na nossa Música Popular Brasileira.

Lourdes ficou entusiasmada, tendo em vista ser também uma fiel admiradora de Nara Leão. Como Lourdes é um barato e por uma feliz associação de idéias, lembrei-me do álbum de Nara, de 1977, cujo título é “OS MEUS AMIGOS SÃO UM BARATO”. Os meus também são! Abraço para todos!

“OS MEUS AMIGOS SÃO UM BARATO”

“Fazer este disco para mim foi uma alegria. Reencontro. Comigo e com os amigos. Ele tem, para mim, um valor de trajetória. A última música que gravei, do Tom, tem o papel de primavera. Me sinto como que desenhando um círculo, mas deixando uma fresta aberta para o que ainda pode acontecer. Meu passado, meu presente e meu futuro – pode ser óbvio – mas é assim que vejo esse trabalho. E nisso não estou sozinha. Menescal e eu já tínhamos tido vontade de fazer um disco assim, mas não acreditávamos na viabilidade do projeto. 

Todo mundo trabalha, viaja e está sempre ocupado. Mas resolvemos tentar dessa vez. Encontrei Gil e pedi uma música. Isso em novembro de 1976. Em dezembro recebi a resposta. A música estava pronta. Fui ao estúdio, onde Gil fazia seu disco. Quando vi Gil cheio de trancinhas, cheio de alegria e energia, me apavorei e me encolhi. Fiquei mais tímida do que já sou, porque ele demonstrava tamanha descontração, que me senti tensa. Ouvi a música rapidamente e pensei: “não sou capaz de tamanha alegria e muito menos de gravar essa música”. E Gil dizia “olha, fiz essa música especial para você, mas não para a imagem que se tem de você. E eu tinha adorado a música. Sarará miolo. Depois de alguma inibição, perguntei: “o que quer dizer sarará miolo?” Gil me respondeu que, na Bahia, era assim que se chamava quem tem cabelo pixaim, mas é louro. Gil, dirigindo os músicos e tocando, é algo de estraordinário. É tão vital tudo que ele faz, num pique tão grande, que continuava com inveja do seu pique e pensava quanto era desanimada e gostaria de ser animada como ele. Mas, ao poucos, fui tomando coragem e consegui. Só mesmo Gil seria capaz de me fazer dizer “Yeahh”. O telefone toca no estúdio: “Menescal está? É o Donato”.

Menescal não podia atender naquele momento. Saí correndo. Estava louca para falar com Donato. Peguei o telefone e fui logo dizendo “você quer falar comigo?”

Donato chegou meia hora depois e gravamos Amazonas. Daí em diante Donato não me abanonou mais e participou de quase todas as faixas. Donato é uma pessoa incrível, que me faz rir o tempo todo. Figura doce, ao mesmo tempo aguda, com um tipo de sensibilidade que percebe tudo. Fala pouco, mas seus olhinhos vivos parecem de um bicho pequeno e lembram muito os de João Gilberto. Quando ele chegou pela primeira vez, fiquei tão nervosa, numa agitação cheia de felicidade. Senti a mesma emoção dos tempos da bossa-nova, quando ele era “aquele” monstro sagrado que todo mundo adorava.

Caetano mandou uma fita, com um recado: “Narinha, aí vai Odara. Sei que é seu aniversário. Odara quer dizer, em yorubá nagô, bonito, bom, bacana. Será que você vai gostar?”. Adorei. Caetano canta tão bem. Foi uma delícia cantar com ele. Parecia que havia uma comunicação não-verbal na escolha das músicas que me mandavam, pois era exatamente o que eu queria. 

Flash back Menescal veio cantar comigo. A gente se lembrou de pescaria, lagosta, mero e tartaruga. Foi tudo muito engraçado. 

Cantei o tempo todo pensando na Yara e num retrato que tirei com ela e uns badejos em Cabo frio. O Ronaldo esteve na gravação e parece que ficou contente. 

Dominguinhos, que sensibilidade! Há muito tempo que eu queria gravar uma música dele e de Anastácia. A gente já tinha combinado, mas ainda não tinha dado certo. Erasmo tinha feito uma música pro meu show no Flag, em 1967, mas o disco do show acabou não saindo. O Tremendão é uma pessoa sensível e sempre simpatizei muito com ele, desde que o conheci nos áureos tempos dos musicais da Record. Adoro suas músicas e quando ele me mostrou Meu ego, achei forte, densa, de uma agressividade necessária. Agressividade que abre os olhos, que fala dos problemas de todo mundo. Liguei para o Edu. “Você tem alguma coisa para mim?” Edu apareceu com uma música bonia. Gravamos, mas achei que não estava dentro do espírito que pretendia, ou seja, não seguia o rumo que o disco tomou, a partir das primeiras músicas gravadas – de Gil e Caetano e da presença de Donato. Era uma canção um pouco “torturante”. Mas eu adoro o Edu e queria gravar uma coisa dele. Comprei seu último disco e descobri Repente, de parceria com Capinan. Era a síntese do disco: “só o ato, só a vida é mais ativa do que a morte”. Exatamente o que queria e precisava. A melodia simples, linda, que se prestava a uma série de brincadeiras. Sivuca estava no estúdio (tínhamos acabado de gravar sua música com Chico) e foi sensacional. O estúdio da Barra se transformou numa autêntica festa. Um forró nordestino tomou conta da gente. Foi tudo tão rico e animado. Sivuca, de olhos fechados, improvisando. Gil tocando triângulo. Chico, Edu e eu animados (vejam só…). A presença de Gil foi importantíssima nessa faixa. Nós (Chico, Edu e eu) precisávamos de alguém que puxasse o cordão da animação e conseguimos até improvisar. Ficamos nos gozando e Gil completamente solto. 

Roberto Santana e eu brigamos e fizemos as pazes mil vezes. Ele é muito franco e entusiasmado. Apesar das brigas, foi muito estimulante trabalhar com ele. Um dia, Roberto chegou todo feliz: “trouxe um compositor inédito para você gravar”. E mostrou Nonó de Nelson Rufino. Fiquei pensando como cantar essa música. A cada música nova eu duvidava. Como cantar, como dar o recado? E a maneira que consegui foi aprendendo as músicas. No gravador, no carro, no caminho para a gravação. Queria ficar espontânea como os músicos. Nada escrito. A criatividade gravada no momento mesmo em que ela surgia. Queria perceber o significado da música e da letra na hora exata em que aquilo se tornasse também uma produção minha. Se aprendesse muito bem minha lição, se treinasse demais, na hora de gravar poderia já estar cansada da música (eu me conheço: quando fazia teatro, a graça acabava no dia da estréia. Só gostava enquanto estava descobrindo como fazer a coisa; o que gostava era do processo e não do resultado). Pedia uma música ao Chico. Ele me mandou uma de parceria com Sivuca sobre um tema infantil: João e Maria. Dias antes o Cacá tinha me chamado atenção para a conversa de Francisco e Isabel com alguns amigos, onde eles diziam: “eu era a princesa, eu era o cavalo”. Cacá observou que os tempos do verbo estavam no passado. Um faz de conta, mas ainda no passado. Quando vi a música de Chico, achei engraçado. Ele tinha percebido o universo infantil tão perfeitamente. Não falava pela criança, mas era a criança que falava. O Chico é fogo. Forma e conteúdo perfeitos. A gravação se passou muito tranqüila. O Sivuca é uma graça. Fazia questão que a gente chamasse seu instrumento de sanfona e não de acordeom. Deu um show de musicalidade e gentileza. 

Carlinhos estava de mudança e foi complicado conseguir a fita. Quando telefonei para ele, me disse que tinha outras músicas pra me mostrar, além daquelas da fita. Aí eu respondi: “olha, já gravamos o play back, agora só falta você gravar comigo” No estúdio me lembrei de minha primeira gravação no seu LP “Depois do carnaval” e da importância de sua figura na passagem da bossa-nova para a canção de protesto. 

A gente riu muito. Foi bom rever Carlinhos. Quando canto Cara bonita me lembro apenas de Francisco e Isabel. 

Faltava Tom. Minhas gravações estavam sempre marcadas às segundas-feiras, dia que não tinha aula na PUC. Toda segunda-feira telefonava para o Tom e o convidava. Tom sempre tinha que ir ao dentista ou ao banco. Conversávamos muito no telefone sobre amigos, psicanálise e algumas outras fofocas. Mas nada de música. Enfim, ele disse que poderia ir, naquela segunda-feira, às sete da noite. Ás oito acabava meu horário, mas tinha dito a ele que poderia chegar até às três da manhã, que eu o esperaria. Ás oito horas, saímos da sala de gravação, mas ainda com uma esperançazinha que ele aparecesse. Ás oito e vinte toca o telefone da sala de Menescal. O Tom tinha chegado. Descemos. A gravação do Armando Pittigliani estava marcada para as oito e meia. Eu tinha dito que, se o Tom aparecesse, a qualquer hora que fosse, só sairia do estúdio se chamasse a polícia. Queria muito gravar com Tom. 

Armando ficou contente de me ceder a sua hora. Quando Tom tocou o primeiro acorde, comecei a chorar. E pensei: “pronto, estrepei tudo, agora estou igual a um rio, não consigo parar de chorar, como é que vou gravar?”. Tentei prender o choro. Depois resolvi chorar até parar. Não via o Tom tocar fazia muito tempo. Encontrava com ele, às vezes, mas sempre fora do piano. E aquele som tão incrível me deixou emocionada. Tom queria saber o que íamos gravar. Menescal sugeriu Fotografia. Cantamos juntos, como na casa de Bené. Quando ouvi a gravação, a presença física de Tom era forte. Eu podia ver, a mim e a ele, tocando e cantando na sala, em casa. Foi um presente que os amigos me deram. Tocar e cantar comigo, como nos velhos tempos. Mas sinto uma modernidade no disco. Não se trata de nostalgia, muito pelo contrário. O velho revisto. O novo com sentimentos antigos, guardados. Estou feliz. É um disco que me comove. Estou contente por ter terminado o trabalho e com saudade dos momentos que passamos juntos no estúdio. Gostaria de falar de Meirelles com sua flauta de ouro e suas histórias, e agradecer a Helena, Roberto, Flávia, Marieta, Yara e a Cacá, que com suas presenças me deram apoio moral durante as gravações. 

Meus amigos são mesmo um barato.s.”

 
http://www.naraleao.com.br/index.php?p=discografia/1977-os-meus-amigos-sao-um-barato/textos
 
 

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51 comentários

  1. Luciano

    Essa sua nova série é show.

    Avante!

    Um forte abraço

    “sara, sara, sara, sarará
    sarará miolo
    sara, sara, sara cura
    dessa doença de branco
    de querer cabelo liso
    já tendo cabelo louro
    cabelo duro é preciso
    que é para ser você, crioulo”

  2. Luciano, ô Luciano, vc deixou

    Luciano, ô Luciano, vc deixou de fora a melhor do disco, Flash Back, composição feita pelo ex-marido/namorado Ronaldo Bôscoli especialmente para este LP. A letra de Bôscoli retrata/relembra o tempo em que iam os três – Ronaldo, Nara e Menescal – praticar caça submarina em Cabo Frio, acho. A história desse tempo está contada no livro Elas e Eu, do Bôscoli. [video:http://www.youtube.com/watch?v=WEMO57gsIoY%5D

    • Num deixei não…

      Amigo Fernando,

       

      Num deixei de fora não hômi de Deus… Pra não ficar enfadonho vou colocando as outras faixas como resposta aos comentários… Pode esperar! Palavra de cearense!

  3. Esse é sem dúvidas um dos

    Esse é sem dúvidas um dos grandes discos da música brasileira. Leve, solto louco repertório maravilhoso. E a Nara é uma luz única. “Que toda essa beleza foi”. Ouvi milhões de vezes e há muito não o ouvia.  Obrigado pelo flash back.. 

  4. Alaíde Costa

    Nara Leão tem o seu valor, mas Alaíde Costa é muito mais cantora  e nunca teve o seu devido destaque como cantora de bossa nova (uma variante de samba de menor estilo), talvez pelo fato de ser negra…

  5. Meu caro Luciano:
    Vou

    Meu caro Luciano:

    Vou recorrer aos seus enciclopédicos conhecimentos musicais

    para esclarecer-me o seguinte: Quem é o autor desta atualíssima e

    quase centenária melodia cantada – intuo – por Moreira da Silva:

     

    Esta cidade que ainda é maravilhosa

    Tão cantada em verso e prosa

    Desde o tempo da vovó.

    Tem um problema vitalício e renitente

    qualquer chuva causa enchente

    não precisa ser toró.

    Basta que chova, mais ou menos meia hora

    É batata, não demora, enche tudo por aí,

    Toda cidade é uma enorme cachoeira

    Que da Praça da Bandeira

    Vou de lancha a Catumbí

    Que maravilha esta linda Guanabara

    Tudo enguiça, tudo pára,

    todo trânsido engarrafa

    Quem tiver pressa seja velho seja moço

    Entre nàgua até o pescoço

    E peça a Deus prá ser girafa

    Por isso agora já comprei minha canoa

    Prá remar nesta logoa

    Toda vez que a chuva cai

    E se uma “boa” me pedir uma carona

    Com prazer eu levo a dona

    na canoa do papai

     

  6. Nara foi bem mais que uma

    Nara foi bem mais que uma simples interprete, um simbolo de inquietude para não dizer

    pesquisadora, tinha noção do que fazia e muito sangue nas veias. Nunca foi uma grande

    cantora e sabia muito bem disso, mas era Nara Leão e isso quer dizer muita coisa.

     

     

    [video:http://youtu.be/BEDOuVbraaY%5D

  7.  Tenho em meu acervo os dois

     Tenho em meu acervo os dois boxes com toda a obra gravada de Nara Leão. São dois cubos  com os álbuns em ordem cronológica. O projeto é de autoria de sua sobrinha Pink Wainer.

    (https://www.google.com.br/search?q=box+nara+le%C3%A3o&tbm=isch&tbo=u&source=univ&sa=X&ei=SMSxUu3iKKbMsQTswoKgCA&ved=0CCsQsAQ&biw=1366&bih=642

    Nara Pede Passagem

    “Pede Passagem” de Sidney Miller

    http://www.youtube.com/watch?v=Xb1wKpVNp1U

    “Recado” de Paulinho da Viola & Casquinha

    http://www.youtube.com/watch?v=v0kUuI1Xru8

    “Madalena Foi Para o Mar” de Chico Buarque

    http://www.youtube.com/watch?v=o7sxyTC6no4

    “Opinião”  & “Acender As Velas” de Zé Keti cantadas em francês

    http://www.youtube.com/watch?v=THTbDIlLk8M

    “Amei Tanto” de Baden Powell & Vinicius de Moraes

    http://www.youtube.com/watch?v=byV9h8XQSm8

    “Pranto do Poeta” de Nelson Vavaquinho & Guilherme de Brito

    http://www.youtube.com/watch?v=SEkJHN-Qeso

    “Pecadora” de Jair do Cavaquinho & Joãozinho da Pecadora

    http://www.youtube.com/watch?v=pRRl–zJjbM

    “Ole Olá” de Chico Buarque

    http://www.youtube.com/watch?v=CEUb9o-CQqI

  8. Dia de luz, festa de sol

    Ah, Lulu, que bom saber que me considera um barato (esse termo ficou datado, hein?!). Sem modéstia, ja me considero sua amiga. Amicissima até! Logo ‘baixo’ ai em Fortaleza 🙂 

    A querida Nara de vez em quando é lembrada no blog. Ja fazia um tempo que não ouvia-mos nada dela aqui, logo trazer esse super disco é mesmo mais um presente de fim de ano!

    Abraços.

    Ps: nos avise quando a chuva chegar.

  9. Dizem que não era boa

    Dizem que não era boa cantora….. Mas com uma voz tão bonita e afinadinha e um repertório fiel à época em que começou a cantar e durante todo o tempo que viveu. Queriam mais????

    E que o estimado LUCIANO nos presenteia p/ mostrar o contrário.

  10. obrigada, Luciano!

    Luciano,

    quando eu fiz 5 anos, ganhei dos meus pais um gravador Sharp e umas fitas. Uma delas era esse disco (fita, né?) da Nara. Eu adorava! mas, com os anos, a fita se perdeu… 

    eu acho que meus pais me deram a fita da Nara porque eu adorava ouvir um disco da Nara que minha mãe tinha, Meu primeiro amor.

    agora recebi outro presente. Muito obrigada, Luciano!

    • Amiga Ana Dias!

      Fiquei particularmente feliz por ter te relembrado tão bons momentos. As lembranças de nossa infância são deliciosas, principalmente as recordações musicais.

      Que tenhas um Feliz Natal, de Paz e Luz!

       

      Abraço do luciano

       

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