Dylan esnoba o Nobel, por Sergio da Motta e Albuquerque

 

por Sergio da Motta e Albuquerque

Bob Dylan, o homem que costuma aterrorizar repórteres e embaraçar jornalistas desde os anos de 1960, avisou ao Telegraph (29/10) que iria receber o prêmio Nobel “se tivesse tempo”. Quase duas semanas depois, enviou uma carta à Academia Sueca (16/11), informou ter outros compromissos e comunicou que não irá a Estocolmo receber o Prêmio. Alguma surpresa com a decisão de músico? Duvido.

A informação, publicada por agentes de imprensa da Academia, serviu como base da maioria da matérias sobre a determinação do vencedor do prêmio de literatura de 2016. O “press release” da página da Academia Sueca justificou, em tom “blasé”:

“É incomum um laureado decidir não vir, por certo, mas não expcepcional. No passado recente, vários laureados foram, por diversas razões, incapazes de vir à Estocolmo para receber o prêmio, entre eles Doris Lessing (escritora), Harold Pinter (dramaturgo) e Elfriede Jelinek (escritora). O prêmio ainda pertence a eles, tanto quanto este pertence a Dylan”.

A resposta de classe não escondeu um fato óbvio: o cantor premiado pôs o prêmio em segundo plano e preferiu continuar com seus compromissos. Não há nada incoerente ou incomum na decisão de Dylan. Apesar da maioria da reportagens ter registrado a felicidade declarada do musico pelo recebimento do prêmio, Bob Dylan, 75 anos é um dos pilares da tradição cultural da contra-cultura dos anos 60. Ele e o Prêmio Nobel, com sua cerimonia pomposa, são incompatíveis. O ambiente formal, a gala burguesa e a hipocrisia histórica do “Nobel” não fazem parte da vida do músico, poeta e escritor. Ao contrário: Dylan simboliza rebeldia, inconformismo e atitude libertária. Mesmo quando passa com um trator sobre qualquer profissional dos meios de comunicação que ouse explicá-lo ou enquadrá-lo em qualquer classificação. A imprensa nunca entendeu isso. Nem nos anos de 1960, nem hoje, em 2016.

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Guardian (16/11), de Londres, chegou perto. Publicou a sábia opinião de Leonard Cohen, músico e amigo de Dylan, que, antes de morrer, afirmou que nenhum prêmio era necessário para reconhecer a marca indelével que “Highway 61 Revisited” fez na música popular. “Para mim”, disse Cohen, (premiar Dylan com) o Nobel é como colocar uma medalha no Monte Everest por ser a montanha mais alta”.

O álbum “Highway 61 Revisited” (1965, Columbia Records) foi o primeiro de Dylan com guitarras e instrumentos elétricos. Contou com músicos legendários como Al Cooper, no órgão, o gênio da guitarra Mike Bloomfield, Charley McCoy na segunda guitarra, Russ Savakus e Harvey Goldstein no baixo, Bobby Gregg na bateria e Paul Griffin no piano e órgão . Esta foi a formação que participou da gravação de “Like a Rolling Stone” com Dylan em 1965. É uma das suas canções mais conhecidas e amadas pelo público no mundo inteiro.

https://www.youtube.com/watch?v=-mw1v9syGW4 align:center

Em 2005, o jornalista musical e crítico cultural Greil Marcus publicou na rádio pública norte-americana NBR(11/4) detalhes de sua gravação no estúdio em 1965. Vale a pena rever os pormenores da sessão musical no enxerto publicado na página da web da transmissora ianque. O registro histórico de um momento como aquele serve para confirmar a declaração de Cohen sobre a relativa diminuta importância do prêmio, quando posto ao lado da obra, da vida e da influência de Dylan na música e na cultura contemporânea.

O prêmio Nobel para ele é óbvio e superficial diante da dimensão de sua obra universal. É certo, merecido e necessário, mas ainda longe do valor coerência intelectual de Bob Dylan e da importância de seu trabalho, tanto para a música popular mundial quanto para a literatura.

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(Foto: Por Stoned59 – Bob Dylan, CC BY 2.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=6262323)

Montagem: Jornal GGN

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5 comentários

  1. Peço, humildemente, desculpas ao Adolescente Dylan

    Rui Ribeiro

    Dylan faria como Marlon Brando se ainda não tivesse caducado

    Em razão do prêmio nobel da paz já ter sido concedido a Obama, testa de ferro do complexo industrial-militar e promotor de guerras no Oriente Médio e em outras partes do mundo, e de agora ter sido concedido ao Presidente da Colômbia, representante de uma elite sanguinária e paramilitar, sem reconhecer os esforços das FARC’s pela paz com justiça social na Colômbia, tenho certeza de que se o Dylan não estivesse tão velho, ele faria como Marlon Brando, que recusou o Oscar.

    Mas ele está perdoado. Em regra, o tempo não perdoa e retorce a rebeldia da adolescencia e da juventude. And I ain’t gonna work on Maggie’s farm no more cause she hands Bob a nickel, she hands Dylan a dime and it’s alright

    https://jornalggn.com.br/comment/1002080

    Forgive-me, Dylan

  2. Golpe publicitário do Comitê do Nobel deu errado

    Talvez ocasionado por alguma mudança na composição do comitê do prêmio nobel que escolhe os vencedores de cada ano, o fato é que a Academia resolveu dar um golpe publicitário e se promover às custas de Dylan ao invés de usar sua própria luz para iluminar algum escritor ou escritora merecedora do prêmio que ainda estivesse desconhecido do grande público.

    Bob Dylan, que evidentemente de bobo não tem nada, percebeu rápido a armadilha.

    Uma pena, não é só no Brasil que as instituições estão decaindo.

  3. Dylan CD

    Mais uma vez se transfere para a poesia o encanto do compositor musical. Para não discutir a bola-fora do Nobel,  pergunto: não seria mais digno, à altura do rebelde, uma recusa ao Nobel de Literatura? Dylan poderia ter seguido o exemplo de Sartre.

  4. Erraram na escolha

    Se tivessem dado para quem merece de fato, ou seja, PAULO CÉSAR PINHEIRO, ele não só iria receber como iríamos invadir a praia de Estocolmo, em caravanas de aviões, com muita caipirinha e cervjea a bordo, ao som de atabaques, tamborins e agogôs, mestre das Neves e Fabiana Cozza puxando “O samba é meu dom”. 

  5. Êrro na grafia de nome de músico

    NOTA DO AUTOR DA MATÉRIA

     

    O nome do organista famoso é Al Kooper, e não Cooper, como está grafado. Não posso corrigir o êrro pois não tenho mais acesso à edição do texto. Lamento e peço desculpas. Sergio da Motta e Albuquerque.

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