Um banquete musical servido por dois ótimos cantores, por Aquiles Rique Reis

Ela, Mariene de Castro, com timbre de contralto, ressalta a força da mulher baiana; e ele, Almério, com o timbre bem agudo, característico dos tenorinos. Ambos brilham na cena musical atual.

Um banquete musical servido por dois ótimos cantores

por Aquiles Rique Reis

O dia de hoje é dedicado a um CD que me causou arrepios: Acaso Casaao Vivo (Biscoito Fino). Dois cantores, um homem e uma mulher, com vozes muito parecidas. Ela, Mariene de Castro, com timbre de contralto, ressalta a força da mulher baiana; e ele, Almério, com o timbre bem agudo, característico dos tenorinos. Ambos brilham na cena musical atual.

Baiana de Salvador, Mariene Costa é uma cantora com qualidade suficiente para a considerarmos com recursos de uma veterana. Acaso Casa Acaso é o seu sexto disco gravado.

Já Almério, pernambucano de Altinho, tem três discos – o trabalho em parceria com Mariene é o seu quarto CD. Mas, assim como ela, ao ouvi-lo tem-se a certeza de que seus predicados são de um profissional cujo canto exprime uma voz misteriosa, quase feminina.

Concebido e dirigido por José Maurício Machline, o álbum conta com três instrumentistas: Pedro Franco (violão e bandolim), Juliano Holanda (violão) e Gel Barbosa (acordeom).

O repertório é digno de um banquete, o que nos faz ouvi-lo na expectativa constante do próximo prato. Músicas servidas em baixelas de prata, plenas de sempre finas iguarias. Cada uma delas é um rango de fino paladar.

Meu Deus, como ficar quieto enquanto rola a primeira faixa, com duas músicas: “Avesso” (Ceumar e Alice Ruiz) / “Vai Dar Namoro” (Chico Amado e Dedé Badaró)? Pelas vozes de Mariene e Almério, começa a cantiga. Ela vem arritmo. A melodia é de arrepiar – frisson que se manterá ao longo do disco. Quanta coisa bonita, meu Deus!

“Lamento Sertanejo” (forró de Dominguinhos, dele e Gilberto Gil), um lamento de doer os ossos. A sanfona resfolega. O violão garante a harmonia. O suingue é contagiante. Almério e Mariene aboiam. O couro come.

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E logo vem outro prato, com sabor de música boa. “Na Primeira Manhã” (Alceu Valença) soa sob o comando de Almério. Quem ama essa música, como eu, se arrepia com um grito lancinante do cantor – é de cortar os pulsos.

A levada do violão deixa que a pisada cresça. Em “Boiadeiro” (Armando Cavalcanti e Klecius Caldas), violão e sanfona acompanham Mariene e Almério. Juntos, eles multiplicam a beleza da música por dois. Parece que nasceram para cantar em parceria.

Com belo arranjo, a pisada volta a dar as caras em “Pau de Arara” (Guio de Moraes e Luiz Gonzaga). E como é bom ouvi-la. Novamente, sanfona e violão seguram a onda para Almério e Mariene brilharem. Que música bonita!

Agora é a vez de Mariene e Almério darem vida nova ao sucesso de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga,Estrada de Canindé. Uma intro delicada da sanfona antecede a interpretação de quem sabe compartilhar a emoção.

E Almério vem com um blues desassossegado. Sua versão para o baião “Respeita Januário” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) é qualquer coisa de arrepiante – gabo a inquietude do cantor.

Movido por uma emoção avassaladora, fecho a porta da angústia para louvar a arte. A arte profunda. A arte digna de ser protegida por uma lágrima.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

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