Violonista e violão são gêmeos, por Aquiles Rique Reis

Violonista e violão são gêmeos

por Aquiles Rique Reis

Tenho na mão A Canção Brasileira (independente), o novo CD do violonista e compositor Conrado Paulino. Nele, o músico nascido em Buenos Aires demonstra o sentimento de pertencimento a um mundo sem fronteiras musicais, mundo em que ele e o violão estão irmanados por amor ao ofício de se tocarem.

O contato físico entre o instrumentista e o instrumento implica em mais consanguinidades do que se pode supor. O sangue que corre nas veias de um irriga o corpo do outro. Numa foto na contracapa do CD, lá estão Conrado Paulino e o violão. O violonista está debruçado sobre o instrumento. Seu corpo e seus braços o envolvem como um irmão mais velho a proteger o caçula.

Em seu novo álbum ele selecionou, tocou violão e fez arranjos para doze músicas nascidas para dedos de violonista. “Todo o Sentimento” (Cristóvão Bastos e Chico Buarque) abre a tampa. A intro é toda em harmônicos, um belíssimo efeito. Suas mãos se multiplicam em sons que transpiram emoção.

“O Circo Místico” (Edu Lobo e Chico Buarque) vem a seguir. Desde a intro até o acorde final, Conrado criou um desenho melódico que engrandece não só o arranjo como também a bela melodia.

“Sem Você” (Tom Jobim e Vinícius de Moraes) é de uma delicadeza… Deus do céu! Ouvindo a melodia dedilhada ou em acordes traz paz.

“Falando de Amor” (Tom Jobim) tem arranjo que dá alma nova ao choro-canção de Tom.

“Menina da Lua” (Renato Motha) tem bela melodia. Conrado toca respeitosamente, deixando fluir a beleza nela contida.

“Dinorah, Dinorah” (Ivan Lins e Vitor Martins) tem levada de uma salsa suingada. Os improvisos mostram a inventividade rítmica e melódica de Conrado.

“Sim ou Não” (Djavan) vem com arranjo simples, mas adequado à beleza da melodia de Djavan.

“Tema de Amor de Gabriela” (Tom Jobim) tem levada de samba-canção, que, junto com “Garota de Ipanema” (Tom e Vinícius), revelam a preocupação de Conrado em criar algo diferente para ambas. Sem cometer “diferentismo”, os arranjos cumprem belo papel.

“Simplesmente – O Bem Verdadeiro” (Paulinho Nogueira), segundo o próprio Conrado, foi escolhido como forma de tributo ao grande e saudoso violonista, em cujo método Conrado bebeu sabedorias para violão. Arritmo no início e ritmado em seguida, o arranjo é lindo.

“As Razões do Coração” (Toquinho e Vinícius de Moraes) traz a melodia de Toquinho para o universo musical das grandes obras da sua dupla com o poetinha. No arranjo de Conrado a melodia é dedilhada e os improvisos são bem construídos.

“Coração Deserto” (Elton Medeiros e Regina Werneck) é uma bela canção do grande sambista. Inspirado, Conrado dedicou seu talento para torná-la ainda mais bonita. E assim a tampa fecha em grande estilo. Paixão!

A Canção Brasileira é o disco solo de um músico que vai sempre além do que dele se espera. Sua pegada, simples como a de um violonista popular, é digna de um concertista erudito – pois Conrado Paulino desfaz, na prática, o tabu de que um instrumentista ou é popular ou é erudito.

Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4

 

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