São passados mais de 150 anos do nascimento de Ernesto Júlio de Nazareth, ou simplesmente Ernesto Nazaré (1863/1934), compositor carioca que revolucionou a música brasileira no final do século 19. Responsável pela criação do tango brasileiro, que veio a dar origem no choro, um dos nossos gêneros musicais mais queridos, a importância cultural de Nazareth fundamenta-se na busca pela brasilidade da música popular.
Foi para homenageá-lo que o cantor Carlos Navas propôs ao pianista João Carlos Assis Brasil a gravação do CD Nazareth Revisitado (independente). Em poucas horas de gravação estava finalizado o álbum que, além do piano de João Carlos e seus arranjos, contou com as vozes de Carlos Nava (que concebeu e produziu o projeto), cantando “Bambino” e “Odeon”, esta última uma parceria de Nazareth com Vinícius de Moraes, e de Alaíde Costa, que cantou “Sertaneja” (Nazareth e Catulo da Paixão Cearense).
A atuação de Assis Brasil é soberba. A sensibilidade de seus dedos dão às teclas a certeza de estarem sendo cortejadas por alguém que as idolatra. A suavidade com que vai ao pianíssimo e a firmeza que imprime ao fortíssimo demonstram a segurança de um intérprete que conhece o seu instrumento. De seus dedos parecem brotar lágrimas pela melancolia presente em alguns temas de Nazareth, e de suas pontas vem a energia que alavanca momentos por si só já em alta cadência.
O disco tem oito faixas. Nelas há duas suítes: a primeira com três músicas, “Brejeiro”, “Faceira” e “Apanhei-te, Cavaquinho”, e a segunda com cinco, “Quebradinha”, “Ouro Sobre Azul”, “Escovado”, “Até que Enfim” e “Atlântico”.
“Batuque” é a primeira faixa. Composto como tango, ele se assemelha a um baião. O piano faz da melodia uma mágica a ser desvendada. Após demonstrar sua riqueza harmônica, um afretando leva à sofisticação que vem pela mão direita triscando suavemente as teclas. Aos poucos o ritmo volta. A brejeirice reina. Acordes finais grandiosos levam ao final.
A terceira é “Bambino” (Nazareth e José Miguel Wisnik), cantada por Carlos Nava. Com um grave sonoro, ele dá vida às palavras.
A mais bela interpretação do piano está em “Coração que Sente”. João Carlos faz da valsa fonte de lamentosa beleza. Linda!
Coube a Alaíde Costa cantar “Sertaneja”. Só que, com um tom bem acima da sua extensão vocal, sua interpretação ficou abaixo do que dela se espera. Também ficou abaixo da expectativa a interpretação de Carlos Navas em “Odeon”. Como a melodia alterna frases com notas muito agudas e outras bastante graves, ele viu-se obrigado a alternar o canto ora numa oitava abaixo, ora numa oitava acima. Assim, Navas e Alaíde não conseguiram fluir seus cantares como tão bem sabem fazer. E nós sabemos que são capazes de fazer.
Ao assumir o sabor da brasilidade sonhada por Ernesto Nazareth, o CD de João Carlos Assis Brasil traz à luz uma parte importante da sua obra. Um belo disco. Impossível não recomendar que você busque comprá-lo, leitor.
Aquiles Rique Reis, músico e vocalista do MPB4
PS. Perdemos uma de nossas maiores cantoras. Marlene, seu vigor e sua voz serão sempre lembradas por nós, seu admiradores. Meu Deus, que tristeza.
ricardo_almeida
20 de junho de 2014 2:19 pme no MULTIMÍDIA ?
Este Post devia estar também na seção Multimídia. A música pode nos atingir de uma maneira muito agradável, é arte (nem sempre). É uma pena que a Multimídia não suba, sempre, na lista de Posts. Hoje, mesmo, Almeida nos enriqueceu muitíssimo, e eu botei só alguma coisa, talvez desconhecida pelo grande público daqui das postagens. Também lá, Vânia começou a botar alguma poesia, e me animei pra botar também anteontem, se não me engano.
Gilson AS
20 de junho de 2014 5:40 pmÓh que grata surpresa !
O
Óh que grata surpresa !
O Assis Brasil foi o meu professor de Piano na Escola de Musica Villa Lobos, aqui no RJ.
O mestre toca muito.
lucianohortencio
20 de junho de 2014 6:38 pmErnesto Nazareth!
[video:https://www.youtube.com/watch?v=PJrkMm2iobU%5D
Grupo do Louro – AMENO RESEDÁ – Gravação de 1912.
morallis
20 de junho de 2014 9:55 pm(Sem título)
[video:http://youtu.be/Aa7HETPs9O0%5D