Os marombados que nasceram do ventre da Lava Jato, por Luis Nassif

Tudo isso aconteceu no Brasil do impeachment, com a população atrás de novas concepções de heróis para substituir o mundo político, devastado pela Lava Jato.

O estoque de ridículo parece inesgotável no pais. Mas nada se equipara ao advento dos “marombados”, figuras públicas que, encantadas com a visibilidade recém-conquistada, e com alguns problemas óbvios de auto-afirmação, resolveram explorar sua suposta virilidade.

O juiz Marcelo Bretas foi “hors concurs”. Diariamente aparecia nas redes sociais se fotografando na academia, encantado com a própria musculatura, imaginando ser uma exteriorização de seu poder de juiz, quando não passava da manifestação de seu cérebro.

Outro juiz, Wilson Witzel, gostava de ser fotografado em filmes de ação, empunhando armas em helicópteros, saltando dos pernilongos alados e correndo pelas pistas, como os melhores heróis hollywoodianos. Ou repetindo seu herói brasiliense, o capitão fazendo flexões em público.

Quem não se lembra da cena heroica dele, em um helicóptero, atirando em uma tenda que supostamente abrigava traficantes? Depois, descobriu-se que era apenas um local de oração. Ou em sua recomendação para que os snipers da polícia mirassem a cabecinha das pessoas, na hora de atirar. 

Sua aparição mais heróica foi rasgando a placa da rua Marielle, ao lado do marombado clássico, Daniel Silveira. E sua saída de cena, sob acusação de corrupção, foi no estilo marombadinho arrependido, tentando despertar compaixão.

Ou ainda de Deltan Dallagnol, em um culto religioso, exibindo em grandes telas fotos suas, surfando, e proclamando aos fiéis: “eu surfo”, como se fosse um Homem Aranha que de noite enfrentava os maiores vilões do universo mas, nos fins de semana, era um rapaz comum.

Do marombado legítimo, Daniel Silveira, nem se fale. 

Tudo isso aconteceu no Brasil do impeachment, com a população atrás de novas concepções de heróis para substituir o mundo político, devastado pela Lava Jato.

E, contemplando essa obra do alto das muralhas do seu ego, o Ministro Luis Roberto Barroso entrava em êxtase e, tal qual Moisés, esculpia nas tábuas da lei o novo iluminismo que viria salvar o Brasil.

4 Comentários

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José de Almeida Bispo

- 2022-04-27 19:43:48

Sinto dizer: ainda não acabou. E a nova geração de marombados poderá vir pior. A sociedade não foi pacificada. Infelizmente.

Marcio

- 2022-04-27 18:30:44

A hiperrealidade hollywoodiana da vida contemporânea…

Antonio Uchoa Neto

- 2022-04-27 16:12:49

Ridículo é o que provoca risadas. Esses somos nós, os ridículos que precisam de heróis. Os políticos “músculos de aço, cérebro de minhoca” são espertos, malandros, descolados. Veem a onda surgir no horizonte e a surfam, sob os aplausos dos ridículos cultuadores de heróis. Qual será a próxima leva de aleijões a subir ao topo da vida pública? Certamente, todos aqueles, incluindo os influencers, os ex-BBBs, os poetas das canetas azuis (lembram?), que não precisam passar por testes do sofá ou por quartos do Pó e do Cu (obrigado, Oscar Magrini, que ouviu essa história dos lábios venerandos da dama do teatro Cleide Yáconis) para alcançar a celebridade instantânea das plataformas e redes sociais, para as quais produzem conteúdos gratuitos e das quais ganham alguns trocados por visualizações e likes - um espertíssimo up-to-date na velha e boa mais-valia que enriquece as elites desde a Revolução Industrial. Nos primórdios desta inigualável revolução, homens, mulheres, e crianças, indistintamente, trabalhavam até dezesseis horas por dia para merecer uma parte infinitesimal do valor que produziam sob a forma de mercadorias; seus descendentes, hoje, passam até mais tempo produzindo sketches ridículos (esses sim, verdadeiramente ridículos, revelando uma capacidade inesgotável de superação no que diz respeito à estupidez humana - perdoai-os, Senhor, não sabem o que fazem, apenas querem sobreviver, e, se possível, se dar bem na vida), e compartilhando vídeos alheios. Para alguma coisa tinha que servir a Grande Obra da Elite; no Brasil, a manutenção - já agora há mais de 500 anos - da imensa maioria da população na Ignorância, na pura e simples luta pela sobrevivência; já não bastava a violência em que essa população está mergulhada, devorando o próprio fígado, vítimas e algozes de si mesma (com o requinte de ter recrutados, para as fileiras da polícia, no mesmo extrato social que esta polícia mata, diariamente, a si mesmos como carrascos - é incrível!), rindo da própria desgraça, agora essa autocomiseração e autoimolação virou espetáculo para a Elite, que dela extrai renovados lucros. O Século XX sepultou o primado da Palavra (e, portanto, do Pensamento), substituindo-o pela Imagem. A imagem, para ter sua mensagem assimilada, não requer raciocínio - pelo menos, não muito. Por isso, hoje ainda temos necessidade, e aceitamos, como heróis, esse rebanho de políticos, artistas, intelectuais em belíssimas embalagens, contendo - com o perdão da má palavra - merda. A tragédia do trabalhador está virando farsa. Estamos todos fazendo testes e exames para manter, quase graciosamente, o padrão de vida das Elites. Desconfio que vamos todos terminar como aquele meme do Tiririca, segurando, sorridentes, uma placa com os dizeres: “Paçei”. Vamos passar, desse jeito, como a água do dilúvio. Elon Musk já está construindo as arcas espaciais com as quais eles, lá de cima e se afastando, assistirão e se regozijarão com o espetáculo ridículo.

Marcio

- 2022-04-27 15:04:34

Muito Musculo pra pouco Cérebro....

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